A crise mundial afeta todos os setores da economia, mas tem um que sofre primeiro e com maior impacto: o de eventos culturais. Mesmo assim, muitos profissionais da área permanecem confiantes e usam a sua experiência para driblar as adversidades.

Aluizer Malab, diretor das empresas Malab Produções e TF7 Eventos, é um exemplo. Responsável pela vinda a Belo Horizonte de vários artistas famosos, como o Iron Maiden, que se apresenta na Esplanada do Mineirão no dia 19 de março.

Ele também é a cabeça por trás do Festival Eletronika e da edição brasileira do Saint Patrick’s Day, além de produtor da banda Pato Fu e do retorno da Legião Urbana – que toca em BH em abril, com André Frateschi nos vocais. Nesta entrevista, o produtor fala sobre a paixão e as várias questões que envolvem o trabalho de um produtor cultural.

De que forma a crise econômica afetou o trabalho dos produtores de eventos?

"Crise econômica, de forma geral, afeta a economia como um todo. Mas diretamente, se você pensar em entretenimento, lazer e cultura, infelizmente são fatores que estão ali na frente da lista dos cortes. Por isso o impacto é direto. As pessoas com menos recursos deixam de frequentar eventos, deixam de se divertir. Fora isso, você tem um dólar elevado que inviabiliza muito a contratação de shows internacionais. E mais a carga tributária que torna a coisa bem inviável. A gente tem impacto direto toda vez, e não só agora que está vivendo um momento tão delicado economicamente no Brasil, mas também em outras épocas. Quando teve problemas na China e no México, e os acontecimentos mexeram com as balanças de outras economias mundiais. São coisas que não afetam a economia como um todo, mas que pra gente afeta muito. Não existe um reconhecimento do setor para que se faça algo a fim de estimular, como a baixa de IPI. Não há política de estímulo para essa área, então a gente enfrenta de peito aberto."

O que existiria de política de estímulo é a lei de incentivo, mas que é algo que também está em crise nesse momento?

"Em Minas, está completando um ano sem editais. Nesse momento, estamos trabalhando só com leis federal e municipal, e a dificuldade de captação está muito maior. Produzir eventos nunca foi uma coisa simples. O nosso trabalho, nosso esforço, é constante. Em outras profissões, você não está imune à crise, mas tende a ir crescendo o seu negócio e, com o passar do tempo, vai ganhando notoriedade, qualificação. O produtor de eventos, não. Ele é valente, acredita nas coisas de forma idealista, faz desenho, planeja tudo, mas no final é evento na rua e oração. Muita reza, sempre no alto risco. Não é só a economia que afeta, é clima também. Imagine um momento de chuvas, o aeroporto fechado. Isso complica para todo mundo, mas, no nosso caso, o evento não acontece. Tanto para o evento daqui, quanto para artistas daqui que estão querendo ir para fora. Não necessariamente eu consigo fazer o evento de novo. Já tive que lidar com um evento que foi cancelado por causa de chuva forte. Aí conseguimos transferir para uma semana depois, numa janela que o artista tinha, porque ele iria embora daqui para o México."

E no caso foi possível porque era um DJ...

"Era o David Guetta, conseguimos trazê-lo em um jatinho. Se fosse uma banda com todo seu equipamento, certamente seria mais difícil."

Você tem investido muito em eventos de música eletrônica...

"Natural né? A música eletrônica tem várias vertentes. Essa que é extremamente consumida no mundo, a EDM (Eletronic Dance Music), tem se difundido bastante, é um dos segmentos da música com mais rentabilidade hoje. Não é à toa que festivais estão aí arregimentando artistas do mundo inteiro, como o belga Tomorrowland, ou outros que a gente faz, como o NET Festival. Essa música é muito consumida e ganhou muito espaço. O DJ número um do mundo há alguns anos tocava para menos pessoas. A grande sacada do momento é que descobriram que é bom fazer megashows. Continua o mesmo DJ, mas o aparato é gigantesco de palco, luz, efeito, e isso seduz. É uma música dos anos 2000 e flerta com um mundo de coisas. Algo que conquista a geração T."

Que geração T?

"Geração que testemunha tudo que está acontecendo, mas não sabe de onde vêm as coisas. Na verdade, as releituras de tudo que já foi feito soam como novas. Quem gosta de entender mais do assunto compreende os caminhos do artista, vê que ele bebeu de uma determinada fonte. A relação agora é mais imediata, bateu ou não bateu, gostou ou não gostou. O universo dessa música eletrônica é respaldado nisso, nesse fator do imediatismo e testemunha dessa geração. As pessoas não estão mais
interessadas em ficar muito tempo pesquisando, é tudo descartável. Há espaço para releituras, remixes e criação."

As variáveis de risco da música eletrônica são menores para os produtores?

"Não. É a mesma coisa. Mesmo que o DJ venha sozinho ou só ele e um produtor, o custo do DJ é igual ao de uma banda. Vale quanto pesa. Se você leva X mil pessoas, você tem um X valor. Como eles têm público, vale a pena investir. A única diferença é no (transporte) aéreo, o resto do custo é o mesmo. Os shows são mais espetaculares."

O que faz com que evento seja um sucesso ou mal aceito pelo público?

"O sucesso está entre previsto e realizado. Quando a gente planeja alguma coisa e atinge o objetivo ou supera um pouco, perto do que realizou, é sucesso, porque antecipar tudo, desenhar colorir tudo antes, enxergar o evento lá na frente, é difícil."

Como por exemplo, quantos banheiros químicos são necessários?

"Isso é técnico. Isso é mais simples. É conceituar um evento, idealizar, acertar um novo evento. A parte técnica é mais tranquila. Mas começar um evento do zero é mais do que isso: a locação interfere, a data interfere, a programação interfere, a comodidade, o acesso, a arte, a forma de promover, de chegar ao público... Tem coisas delicadas, a gente trabalha com o imponderável. Não existe uma pesquisa suficientemente bacana para me dar lastro. No fundo, por mais que possa fazer e rodar, a intuição é uma coisa que impera muito na nossa atividade. Isso tudo é muito delicado. Quando acerto a mão, acerto mais nesses detalhes. Erro a mão quando não tem público. Se o evento vendeu mal (os ingressos)."

Os erros são variados também?

"Tem uma coisa fácil de errar. Todas as vezes em que mais errei é porque fui levado pelo gosto próprio. Já descobri, mas não aprendi, que, para o gosto próprio, é melhor comprar uma passagem para ver o show em outro país. Às vezes, quero fazer show de fulano e vejo, no processo de planejamento, que as pessoas não conhecem, que é melhor não fazer. Mas para o evento ser ideal, tem que acertar não só com o público. Não adianta estar de casa cheia, mas com serviço ruim. A satisfação é um parâmetro importante. Quando vejo um post: “foi o evento da minha vida”, penso que isso faz um bem danado para a gente! A gente também tem política de ajudar no comportamento do público. O primeiro show que eu vi no Mineirão foi o do Kiss, lá nos 80, e a gente não sabia como ir a show. A gente ia de binóculo. Não tinha telão, não sabia como se comportar num show. Por isso, pelas redes sociais, sempre damos dicas para que os eventos sejam prazerosos para todos."