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Compositor, músico e produtor musical, Barral Lima é proprietário do Grupo UN Music, que engloba um selo fonográfico, uma editora e uma produtora audiovisual e de eventos. Idealizador de festivais como Palco Ultra, BH Rock Week e HipHop.Doc, o mineiro já gravou e acompanhou centenas de artistas – de Milton Nascimento a Pepeu Gomes, de Lô Borges a Marku Ribas, de Toninho Horta a Fernanda Takai. Também responsável por uma série de songbooks de músicos mineiros, ele lançou, no mês passado, o novo selo Under Discos, com o objetivo de abrir caminhos para diversa cena da música autoral de Belo Horizonte. O Hoje em Dia conversou com Barral sobre os rumos do mercado fonográfico e a importância dos festivais e selos na atualidade.

Você já gravou diversos artistas de renome nacional. Como essas experiências moldaram seu trabalho como produtor? É difícil lembrar de quantos álbuns produzi nesses 35 anos de música. Em determinadas épocas, produzia dois ou três ao mesmo tempo. Era uma loucura! Acho que essa necessidade de trabalhar, sem escolher estilos de música, me fez aprender e me afastou do preconceito musical. Gosto de todos os estilos musicais e acho que cada um tem o seu valor. Sempre trabalho com artistas novos e também com outros, com carreira já sedimentadas. E, em todos os casos, adquiro muita experiência. Ter trabalhado com o Clube da Esquina e, principalmente, com o Lô Borges, foi incrivelmente enriquecedor. Produzi os três CDs mais recentes dele e foi muito marcante, porque sempre fui um fã do cara. Ele é muito generoso, ficamos muito amigos e acabei entrando para a banda em turnês, tocando pianos e teclados durante dez anos. Tem o Marku Ribas também, que era um vulcão em erupção. Nunca vi tantas ideias num só cara. Mas gosto de desafios e novidades, não estou fechado em produzir só um estilo. Claro que há mais envolvimento com determinados nichos, mas, no estúdio, música é música.

Para gravar um bom disco, o que não pode faltar em um produtor musical? Acho que entender bem o artista e não ter medo de arriscar ajuda muito. Eu consegui muitos bons resultados arriscando, buscando caminhos diferentes e tentando me surpreender. Mas, claro, se você faz isso com mais experiência as chances de acertar aumentam bastante. Eu gosto de ouvir muito o artista e tentar tirar dele o máximo que puder, porque a essência do trabalho está ali. Quanto menos você intervir artisticamente, melhor. O trabalho precisa ter a cara do artista e não do produtor. Para mim, o melhor produtor é aquele que passa despercebido.

Como você percebe a importância dos festivais na atualidade? Os festivais surgiram com a necessidade de ajudar os artistas a se apresentarem para um público maior. Eles têm uma função de extrema importância para a música, já que abrem novos espaços e também conseguem unir as pessoas para ocupar a cidade. Nos últimos dez anos, estamos investindo muito nos festivais, porque acredito que só existem dois caminhos fortes neste momento para a música: a internet e a rua. Não adianta focar em um só, os dois devem andar juntos. Daí, a importância dos festivais, que podem lançar novos nomes, “apadrinhados” por um headliner. O Palco Ultra, que está em sua quinta edição, é hoje um dos nossos mais importantes festivais. 

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Como pintou a ideia dos songbooks? Qual a principal satisfação de produzir esse tipo de material? Os songbooks vieram da necessidade de registrar as obras dos nossos compositores mineiros. Estava trabalhando com o Lô Borges e sugeri a ele de fazermos um songbook da sua obra. Sem pestanejar, ele topou na hora e daí começamos a série, que hoje já conta, além do Lô, com Beto Guedes, Flávio Venturini, Milton Nascimento e Pato Fu. Em breve, teremos Jota Quest, 14 Bis e Paulinho Pedra Azul. Produzir um material como esse é de uma satisfação imensa, já que ele imortaliza uma obra, disponibilizando-a para as gerações futuras. Diferentemente de um álbum, um songbook registra toda a carreira de um artista.

Já se vai uma década desde que você fundou a UN Music. Como tem sido essa caminhada? Quais trabalhos você destacaria? Nós começamos com um primeiro selo, o Ultra Music, por onde lançamos 35 álbuns em dez anos. Tudo isso começou quando eu percebi que o mercado era de nichos e não de hits. Precisava construir a partir de algo novo. Convidei meu fiel escudeiro e parceiro Rodrigo Brasil, um dos grandes conhecedores de música do nosso país, e traçamos uma nova proposta de selo, que apoiasse os artistas não só na produção de álbuns, como faziam as grandes gravadoras do passado, mas também em shows, turnês e outros projetos. Lançamos um material muito rico nesses dez anos, que enriqueceu o mercado e ajudou bastante os artistas a subirem mais degraus em suas carreira. Eu citaria, por exemplo, a trilogia do Lô Borges, com os álbuns “Bhanda”, “Harmonia” e “Horizonte Vertical”, e o Box de 50 anos de carreira de Marku Ribas, juntamente com o seu CD póstumo “+Samba”. O DVD do grupo Caffeine Trio e os discos do Transmissor e do Dead Lover’s também são históricos. Todos os trabalhos são importantes.

E como surgiu a ideia de lançar a Under Discos? Qual a proposta do selo? A ideia de lançar um novo selo veio da necessidade de mostrar a nova musica contemporânea de Belo Horizonte para o Brasil. Tenho andando por vários estados, ido a muitos festivais de música no Brasil, e não vejo BH ou Minas representados. Nas últimas listas de melhores discos lançados nos últimos três anos, a presença de mineiros é quase zero. Na lista das listas de 2017, produzida pelo grande produtor Pena Schmitt, que é um resumo de todas as listas que elegem os melhores álbuns lançados no Brasil, temos só o Sepultura, que não conta tanto por ser merecidamente um nome mundial, e o Djonga, que é belíssimo. Isso me impressionou muito. Não é possível que uma cidade como BH não tenha mais ninguém que mereça estar entre os 100 melhores do pais. Sabemos que tem e que a dificuldade é fazer barulho para chegar até outros ouvidos. Então, vamos fazer barulho. Essa historia do selo começou em vários papos com o saudoso Miranda, um dos maiores produtores e ativadores culturais que o Brasil já teve, quando pensávamos em como levar a música de BH para todo o Brasil. A ideia era começar com o selo e, depois, com o audiovisual e os festivais. Mesmo com a partida dele, estamos seguindo conforme o planejado. Estamos muito otimistas, trabalhando diariamente, buscando parcerias, financiamentos e novas ideias para construir um grande projeto.

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Como você avalia a importância de um selo nos dias de hoje? Quais as principais dinâmicas de atuação, numa época dominada pelo streamingAtualmente, o selo tem a mesma importância que uma gravadora tinha nos anos 80 e 90. De achar bons artistas, produzi-los e lançá-los no mercado. Só que agora o selo não trabalha sozinho. Os artistas precisam ser ativos, parceiros, quase sócios. É um trabalho coletivo. Ninguém vai chegar a lugar nenhum sozinho. Mas o selo pode ser um grande aliado, quando consegue negociar melhor com empresas, festivais e patrocinadores. Consegue oferecer mais que apenas um show ou uma música; ele oferece negócios. Estamos hoje com três novos artistas, Nobat, Léo Moraes e Felipe de Oliveira, todos engajados e muito participativos. O selo Under Discos procura por artistas que tenham autenticidade, qualidade e comprometimento. Hoje, o artista não pode ficar esperando o telefone tocar. Ele precisa fazer tocar o telefone de alguém todos os dias. Nós estamos prontos para assessorar, usar nossa experiência e nossas parcerias para divulgar a música de BH. E que os artistas venham juntos no mesmo pensamento! Neste momento, estamos em vantagem, pois produzimos nossos próprios eventos e vendemos nossa música através do streaming. É nosso melhor momento.

Um dos braços do selo será o festival Palco Ultra, que já tem data fechada para dia 22 de setembro, com nomes nacionais, como Francisco El Hombre, e locais, como Djonga, Sara Não Tem Nome, Moons e Veronez. Quais as novas perspectivas para o festival a partir de agora? O Palco Ultra começou dentro de um outro grande festival, como um “palco B”, justamente para atrair um maior público presente. Nas duas ultimas edições, ele foi realizado na Autêntica, uma das melhores casas de shows autorais do Brasil. Agora, estamos buscando andar com as próprias pernas. Em 2018, em sua quinta edição, conseguiremos fazê-lo em praça pública, gratuito, ocupando a cidade. A idéia do festival é apresentar para o público os novos artistas na cena de BH, juntamente com grandes artistas independentes nacionais. Fizemos a curadoria internamente, depois de visitar várias feiras e festivais pelo Brasil. A ideia é que seja um grande evento anual.

BH tem pipocado bandas e artistas talentosos, de diferentes vertentes e circuitos. Como você analisa a produção local contemporânea? É uma cena muito forte, surpreendente e diversa, que precisa ser organizada e distribuída para o Brasil. Acho que os artistas precisam focar mais no seu mercado e planejar de certa forma as suas carreiras. Muita gente manda material para a UN Music para tocar nos festivais, mas às vezes nunca nem foram aos festivais. Querem apenas tocar por tocar e acham que isso fará diferença em suas carreiras. O artista precisa estudar seu mercado, planejar seus passos. Precisa pesquisar, conhecer festivais pelo Brasil e pelo mundo, conhecer outros artistas e produtores. Vejo que BH sempre produziu muita música de excelente qualidade, mas ainda se articula pouco. É preciso procurar novos caminhos. Nem sempre estar em grandes festivais é a melhor forma de um artista se comunicar com o seu público.