Aviso que estou na porta de sua pequena casa no bairro de Santa Tereza e Paloma Parentoni me recebe, de óculos, vestida com um avental jeans sobre um caseiro vestido vermelho. “Vi que você ia demorar e já fui agilizando uma faxina. Quer um café?”, oferece, enquanto encosta o rodo e a vassoura num canto, antes de começarmos a entrevista. 

Pode parecer bobagem, mas a cena diz muito sobre a personagem em questão: não existe tempo ocioso para a hiperativa Palomita, nome como é conhecida no meio cultural de Belo Horizonte. Seja como produtora, artista visual, designer, DJ ou mestre de cerimônias, a mineira de 38 anos está sempre criando e (re)existindo.

Quando dou o play no gravador, começa um papo de mais de uma hora, embalado por um fluxo intenso de memórias, casos e frases certeiras. Nascida em BH, Paloma começou trabalhar aos 13 anos para ajudar a mãe, que ficou viúva cedo. “Aos 15, comecei a fazer capoeira angola e tive o primeiro contato com a música. Pouco depois, aos 17, quando saí de casa, fui morar no Santo André e vi o maracatu pela primeira vez no Espaço Gonguê, que ficava no Padre Eustáquio. A partir dali, foram dez anos por lá, estudando todo tipo de cultura popular, junto com o circo e a dança contemporânea”, relembra. “Foi nessa época que eu fiz minha primeira festa, que deu super errado. Também já era uma curiosa da fotografia e comecei a clicar. Arrumei essa confusão maravilhosa e nunca mais fui uma só. Tudo ficou polimorfo, múltiplo”, sublinha. 

Com cada vez mais festas na bagagem, veio o primeiro projeto de lei, que deu início a uma carreira consistente na produção cultural. “Antes de ‘virar a chave’ para ser artista, produzi muita gente. Fui empresária do Ricardo Koctus (baixista do Pato Fu), trabalhei com o (músico) Affonsinho, com a banda Frito na Hora. Também fiz festivais como Virada Cultural, Transborda, Sensacional, Incrível, Concreto, Festival Internacional de Teatro e Festival Internacional de Quadrinhos”, elenca. 

Discotecagem

Quando resolveu atacar de videomaker, Paloma deparou-se com um outro novo tentáculo artístico a ser explorado. “Como eu já estava fotografando, queria fazer um clipe em stop motion. E aí dirigi o clipe de ‘Por Você e Ninguém Mais’do Koctus. Queria lançar o clipe numa festona, com alguém que tocasse músicas ciganas, do leste europeu, mas não tinha ninguém fazendo isso na cidade. Então, eu comecei a pesquisar e toquei na festa, que aconteceu na Velvet e tinha o mainstream inteiro reunido. Saí de lá com três datas marcadas. E assim nasceu a Palomita DJ”, afirma. 

É assim, na terceira pessoa, que Paloma se refere à sua persona das pick-ups. “A Palomita DJ também é polimorfa. Ela não tem só uma só festa ou estilo. Da mesma forma que ela faz uma noite francesa na Benfeitoria, faz uma noite de funk no Mercado ou toca músicas que bombaram nos últimos anos no Transborda, que é um festival de vitrine. E no meio disso vi que podia ser, também, três em um: uma mestre de cerimônia que apresenta os artistas, toca nos intervalos e fecha os shows. E que é uma menina topetuda que circula pela cidade, que interrompe confusões, que solta frases feministas”, reflete.

“Assim como o palhaço que bota o nariz e entra numa persona, quando eu ligo o som, boto o fone, escuto minha voz na caixa, isso vai além da ‘Paloma Parentoni, produtora’. De dez anos para trás ninguém me chamava de Palomita.Era só a Paloma, figura brava, sisuda, que aprovava projetos e fazia as coisas acontecerem. E isso ter vindo para mim com certa idade me fez muito bem. A Palomita DJ é tudo o que não pude ser quando saí de casa cheia de responsabilidades e com pouca idade. Ela me deu a oportunidade de ser quase uma adolescente, e voltar a me divertir”.

Um trajeto de afeto aberto pela delicadeza dos barcos de papel

Em 2010, Paloma Parentoni começou a dobrar barcos de papel. A convite do artista plástico Wilson Avelar, inseriu o objeto em uma performance, se lançando pela primeira vez como artista. “Depois disso, fiquei utilizando esses barcos, entendendo o objeto, até que, em 2011, aprovei o projeto ‘Trajeto do Afeto’, que me acompanha até hoje”, conta. 

O projeto consistia em viajar por Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro, além de BH, trocando experiências com artistas e intervindo com os barcos em espaços urbanos. “O barco faz a troca. Ele simboliza o afeto e lembra a infância. Te bota num lugar não real quando adulto. É um ‘entre’”, reflete. “Nos centros urbanos, quando se tem um olhar um pouco aguçado para além da superfície da cidade, a pessoa fica se perguntando porque aquele barquinho está ali, num lugar de contraste como a avenida Afonso Pena, por exemplo”, diz. 

O projeto se ramificou em frentes como o ‘Trajeto Concreto’, com stencils do barquinho, e o ‘Afeto Flutuante’, que consiste em tatuagens do objeto. “Hoje, já são dez pessoas com a tatuagem, seguindo a ideia de navegar com os barquinhos, seja pelo muro, pelo papel, pela pele”, afirma, contando que durante muito tempo recebeu diversos barcos pelo correio. “Até o carteiro começou a me entregar barcos dobrados. Era muito amor”.

Em 2016, na Virada Cultural, foi a vez dos barquinhos se colocarem em toda extensão do Viaduto Santa Tereza. “Até então, em BH, só tinha colocado barcos em lugares fechados e em pouca quantidade. Foi incrível poder tê-los ali, tantos, naquele espaço tão simbólico da cidade”, afirma. 

“O projeto trouxe uma delicadeza que não existia em mim. Até então, por a vida ter sido dura, eu só buscava coisas igualmente duras, como o maracatu e a capoeira. Os barquinhos chegaram com um componente solar muito bonito”.