Histórias de vida de pessoas que não se identificam com o gênero registrado na certidão de nascimento cada vez mais ganham espaço na TV. Em abril, o Canal Brasil exibirá “Transgente”, documentário que acompanha processos de transição de gênero. A HBO prepara série sobre histórias do momento em que homossexuais e transexuais revelam a sexualidade, e a luta contra a discriminação – intitulada “Abrindo o Armário e o Coração”.

“A televisão brasileira costumava retratar os transexuais de maneira caricata. Isso tem mudado, mesmo que ainda timidamente. Muito pautada pelo que acontece lá fora”, afirma a crítica de televisão Mariana Bacellar. Para ela, o movimento começou no exterior, quando personagens e programas começaram a dar mais visibilidade às questões de gênero. Mariana cita reality shows como “RuPaul’s Drag Race” e “I Am Cait”, e as séries “Sense8”, “Orange Is the New Black” e “Transparent”.

Aos poucos, a TV levanta questões de identidade de gênero, barreiras encontradas pelas pessoas na sociedade, aceitação e violência. “Ver personagens homossexuais em novelas é mais comum. Já personagens trans é mais raro. Eles ainda enfrentam a questão da representatividade, pois muitas vezes esses personagens são vividos por pessoas cisgênero (veja glossário no final da matéria)”, pontua Mariana. 

A transexualidade será um dos temas da próxima novela de Glória Perez, “A Força do Querer”, prevista para estrear em abril na Globo. O processo de pesquisa da obra contou com relatos do transexual belo-horizontino T. Brant para compôr um dos personagens. “Há um esgotamento de temas conservadores na TV, o que contribui para esses personagens não serem tratados de forma exótica, mas de maneira natural, como deve ser”, analisa a crítica.

No Youtube
Quando se entendeu como um homem trans, o belo-horizontino Lucca Najar, de 25 anos, foi pesquisar sobre o assunto na internet. “Achava muita coisa sobre as questões físicas relacionadas a hormonização, mas nada ligado ao lado social e psicológico”, conta o jovem estudante de cinema e audiovisual. Por este motivo, decidiu criar um canal no YouTube para ventilar questões menos superficiais e falar da própria transição. 

Com seis meses de existência, o canal que leva o nome dele já possui mais de 31 mil inscritos e 724 mil visualizações. Cerca de 50% do público são pessoas cisgênero. As perguntas mais frequentes são relacionadas a aspectos íntimos como “qual era meu nome antes, e se homem trans menstrua”. Outros querem saber a diferença entre gênero, identidade de gênero e orientação sexual. 

Lucca não está imune aos comentários agressivos e ameaças, mas prefere focar em ajudar as pessoas que buscam conhecimento em seu canal e enviam perguntas. “Recebo relatos de que meu canal incentivou a pessoa a contar para a família e a entender melhor si mesma”, conta. “As pessoas mandam muitas perguntas para minha mãe, que participou de um dos meus vídeos”, acrescenta. 

 

Lançamentos ajudam a dar visibilidade às questões de gênero

 

runo literatrans
Literatrans – Bruno Simões durante apresentação da editora em feira de cultura trans 

 

A literatura é outro meio que tem contribuído para dar visibilidade às questões de gênero. Lançado recentemente, o romance juvenil “Todos, Nenhum: Simplesmente Humano” (Plataforma 21), do norte-americano Jeff Garvin, traz um protagonista que se identifica com o gênero fluido (veja a lista abaixo).

A obra, que foi material de resenha de vários canais de literatura no YouTube, mostra experiências ruins vividas pelo personagem Riley Cavanaugh, que sofre bullying por ser considerado inadequado socialmente pelos colegas de escola. Com uma narrativa leve, o autor leva o leitor a se colocar no lugar do personagem e a entender que responder à pergunta “Você é menino ou menina?” é o que menos importa para ser considerado humano. 

LiteraTRANS
No final de 2016, o jornalista paulista Bruno Gabriel Simões, 25 anos, criou a editora LiteraTRANS para publicar obras de autores transexuais, não-binários e travestis. A ideia surgiu como uma brincadeira entre amigos, para que Bruno lançasse o livro que escreveu durante o trabalho de conclusão de curso na faculdade. “Durante a pesquisa do meu TCC já sabia que eu era trans, e comecei a conviver mais com pessoas desse universo. A ideia era usar o livro como uma forma de ‘sair do armário’ para família e amigos”, rememora.

Bruno ainda não lançou a obra, mas a editora que fundou publicará o terceiro título até o fim de março. “É de uma autora que escreveu a obra há 10 anos e não conseguia lançar por ser trans”, conta.

Ele comenta que as maiores dificuldades enfrentadas pelos transexuais ainda é a falta de emprego e a violência. “A comunidade trans tem ganhado mais visibilidade, mas mesmo assim a violência não diminui. Falta protagonismo”.

Este mês, a editora lançou a obra coletiva “Nós, Trans”, com textos de 40 escritores, entre eles, nomes conhecidos, como a cartunista Laerte Coutinho. As obras são vendidas no formato digital. “Estamos batalhando para conseguir publicar na forma física”, comenta Bruno, que, para isso, lançou outros produtos como camisetas.

produtos e livros
Nas prateleiras – Os dois primeiros lançamentos da editora LiteraTRANS; as camisetas que ajudam a viabilizar o projeto; e o livro que tem um protagonista que se identifica com o gênero fluido

 

Canais abertos e TV paga têm programas inclusivos e educativos
Muito conhecida na internet, a youtuber gaúcha Amanda Guimarães, ou Mandy Candy, soma mais de 550 mil inscritos e 34 milhões de visualizações na plataforma de vídeos. Sua história foi contada no primeiro episódio da série documental “Liberdade de Gênero”, dirigida por João Jardim, que estreou no ano passado na GNT, e vai ao ar toda quarta-feira, às 23h30.

“O YouTube mudou minha vida e não penso em parar de produzir conteúdo. Iniciei postando sobre games, até que um dia contei para os seguidores que eu era transexual e tudo mudou”, conta a youtuber, que acaba de lançar o livro “Meu Nome é Amanda” (Fábrica 231). “Para muitos ignorantes eu sou uma aberração da natureza, e para outros eu sou um objeto sexual, um fetiche. Por que? Porque eu sou uma mulher transexual”, foi dessa forma, que Amanda fez a revelação em um dos seus vídeos. 

“Eu omitia a informação por medo de como eu seria tratada e de perder os poucos amigos. Mas depois disso o processo de aceitação só aumentou e hoje vivo tranquilamente como a mulher que sou”, afirma Amanda, que vive em Hong Kong.

Entre os 10 episódios da série “Liberdade de Gênero”, aparece a cantora Liniker, que prefere ser tratada no artigo “a”. “Sou uma artista desta geração que se expressa assim, um dos meus maiores desejos é: bote para fora quem você é, não tem problema”, diz Liniker no quarto episódio da série. 

Mandy Candy – Youtuber lançou livro sobre sua vida
Mandy Candy – Youtuber lançou livro sobre sua vida

 

No Ar

Todas as segundas, às 22h, vai ao ar na TV Brasil o programa “Estação Plural”, comandado pela cantora e compositora Ellen Oléria, o jornalista Fernando Oliveira, o Fefito, e a integrante da banda Uó Mel Gonçalves, que é transexual. Trata-se de um programa de entrevistas e debates, que contempla assuntos do universo LGBT que despertam o interesse do público.

No último domingo, o programa “Fantástico” (Globo) estreou a série “Quem Sou Eu?”, que conta histórias de transgêneros em diferentes fases da vida, ressaltando a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual. Serão quatro episódios. A estreia abordou a infância e apresentou crianças que, desde muito cedo, sentem que nasceram no corpo errado.

 

Glossário:

- Gênero: O conceito de gênero foi formulado para distinguir as dimensões biológicas e sociais, baseado no fato de que há machos e fêmeas na espécie humana, mas a maneira de ser homem e de ser mulher é, na verdade, percebida pela cultura. Assim, gênero difere de sexo, é produto da realidade social, não da anatomia dos corpos. Uma pessoa não irá, necessariamente, identificar-se com o mesmo gênero designado na hora do nascimento. É o caso de pessoas transexuais, por exemplo. Gênero é uma questão de autopercepção e não se prende com fatores externos.

Identidade de gênero: A experiência emocional, psíquica e social de uma pessoa enquanto feminina, masculina ou andrógina definida pela cultura de origem, que pode, ou não, corresponder ao sexo atribuído no nascimento.

Orientação sexual: É a capacidade de cada pessoa de ter uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gênero, incluindo portanto a homossexualidade, a heterossexualidade e a bissexualidade.

Cisgênero: Pessoa cuja identidade de gênero se identifica com o sexo biológico, aquele atribuído no nascimento baseado nas genitálias.

Transgênero: Assim como transexual, o termo se refere às pessoas que não se identificam com o gênero atribuído a elas no nascimento. De acordo com os especialistas, é a palavra universal de identificação para pessoas “trans” e também não está necessariamente ligada à cirurgia de readequação de gênero. Pessoas transgêneras preferem que se refiram a elas como “trans”.

Não-binário: Pessoa cuja identidade não cabe exclusivamente nem como homem nem como mulher. Pode-se dizer que um não-binário está entre um gênero e outro ou, ainda, é uma combinação dos dois. São pessoas que não necessariamente optam por fazer processos de readequação de gênero por meio de medicamentos e/ou cirurgias.

Mulher Trans: Nasceu em um corpo dito masculino, mas se identifica com o gênero feminino.

Homem Trans: Nasceu em um corpo dito feminino, mas se identifica com o gênero masculino.

Gênero fluido: Não tem uma identidade de gênero fixa, transitando entre os vários gêneros.

Nome social: É o nome pelo qual pessoas trans e travestis preferem ser chamadas cotidianamente, em contraste com o nome oficialmente registrado que não reflete sua identidade de gênero.

Cirurgia de redesignação sexual: Processo cirúrgico de readequação genital ao gênero com o qual a pessoa se identifica.

Pansexual: Indivíduo que tem atração sexual por pessoas de todos os sexos e de todos os gêneros.

Fonte: Liberdade de Gênero / GNT

 

 

Assista um dos vídeos mais vistos do canal de Lucca Najar:

 

 

 

Confiara 14 filmes e séries para entender o universo trangênero:

About Ray (2015)
O filme protagonizado por Elle Fanning mostra a vida de Ray, que tem figuras femininas superfortes ao lado como a mãe solteira (Naomi Watts) e a avó lésbica (Susan Sarandon), além do ausente pai (Tate Donovan). E é neste universo que ele constrói sua identidade masculina.

Tomboy (2011)
Para a família de Mikael, de 10 anos, ele é Laure. Mas o garoto vê na mudança para um bairro novo de Paris a oportunidade perfeita para ser da forma que realmente se sente à vontade. Se apresenta para a turma como garoto, faz amigos, beija uma menina e até cria uma amizade forte com a irmã – que sabe do seu segredo.

Transparent (2014)
Série da Amazon, mostra situações cômicas e dramáticas do dia a dia de um pai de família que sai do armário e se assume mulher.

Orange is the New Black (2013)
O hit da Netflix retrata histórias de vários personagens da comunidade LGBTQA de diferentes backgrounds sociais e étnicos dentro de uma penitenciária feminina. 

Transamérica (2005)
Uma mulher que fez sua transição recentemente descobre que é pai de um filho adolescente problemático. Ela então vai à NY pagar sua fiança e tirá-lo da prisão, posando de missionária religiosa. Quando descobre que não pode devolvê-lo ao padrasto, já que o cara abusava do garoto, Bree (Felicity Huffmann) decide acolher o filho e revelar quem é.

Boys Don’t Cry (1999)
Baseado na (dramática) história real de Brandon Teena, um garoto trans que foi violentado, agredido e eventualmente assassinado depois de ter seu sexo biológico revelado, o filme rendeu à Hilary Swank o Oscar de melhor atriz.

Tudo sobre minha Mãe (1999)
Estebán (Eloy Azorín) é obcecado por conhecer o pai, pois acredita que falta nele um pedaço de sua verdadeira história. A mãe, que sempre jurou que ele já seria falecido, decide então revelar que seu pai era uma mulher trans. Mas, antes que possa contar, Manuela (Cecilia Roth) é impedida por uma tragédia.

Beautiful Boxer (2004)
Este filme tailandês retrata a história real da lutadora Parinya Charoenphol, que começa a competir no Muay Thai profissionalmente para conseguir juntar o dinheiro necessário para a operação redesignação sexual.

Sense8 (2015)
A série sci-fi do Netflix coloca 8 estranhos em 8 cidades diferentes em contato telepático. Uma das personagens, Nomi Marks, é uma lésbica trans, vivida pela também trans atriz Jamie Clayton.

Albert Nobbs (2011)
Glenn Close levou uma indicação ao Oscar pela atuação como o mordomo Albert Nobbs, nascido mulher, expulso do convento onde foi criado e violentado, até que resolve assumir uma identidade masculina para trabalhar e sobreviver na sociedade.

Clube de Compras Dallas (2013)
Outro título premiadíssimo. Jared Leto ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante no ano passado ao dar vida à Rayon, uma transexual portadora do vírus da AIDS que tem uma relação conflituosa com o pai.

The L Word (2004)
Uma espécie de Girls dirigida ao público lésbico, a série foi uma das primeiras a se tornar bem-sucedida também entre a audiência mais tradicional. Uma de suas personagens, Moira, faz a transição para Max ao longo da série.

XXY (2008)
Alex (Inés Efron) nasceu com ambas as características sexuais. Tentando fugir dos médicos que desejam corrigir a ambigüidade genital da criança, seus pais a levam para um vilarejo no Uruguai. Eles estão convencidos de que uma cirurgia deste tipo seria uma violência ao corpo de Alex e, com isso, vivem isolados numa casa nas dunas. Até que, um dia, a família recebe a visita de um casal de amigos, que leva consigo o filho adolescente. É quando Alex, que está com 15 anos, e o jovem, de 16, sentem-se atraídos um pelo outro.

A Garota Dinamarquesa (2016)
Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher.