A primeira coisa que você vai querer saber sobre mim é: sou menino ou menina? ”Assim começa o primeiro post de Riley, protagonista de “Todos Nenhum: Simplesmente Humano” (Plataforma 21, 400 páginas, R$44,90), em seu blog, sob o pseudônimo Alix.

Na verdade, esta é também a questão central que permeia o livro de estreia de Jeff Garvin, escritor que possuí um currículo voltado para temas juvenis–trabalhou como ator em filmes e na TV – e fez até uma participação na série “Anos Incríveis”, muito popular no Brasil nos anos 1990.

Agora ele se aventura por um tema extremamente contemporâneo, a identidade de gênero e suas cambialidades. A pessoa que se identifica gênero fluido é aquela que não pertence exclusivamente a um único gênero, seguindo o modelo binário normativo na nossa sociedade, que nos separa entre o masculino e feminino. Assim, somos convidados a viver a trajetória de Riley e entender o quê, afinal, significa ser um humano em tempos tão “líquidos”.

O protagonista é um ser humano com muitas características: perspicaz, valente, rebelde e gênero fluido. O que significa que, em alguns dias, se identifica mais como um menino. Em outros, mais como uma menina. Em outros, ainda, como um pouco dos dois. Mas o fato é que quase ninguém sabe disso.

Vítima de bullying em sua antiga escola, Riley sofre um ataque de pânico e precisa mudar para um novo colégio, onde tenta recomeçar a vida. Para evitar olhares curiosos na nova escola, Riley procura se vestir da forma mais andrógina possível, aos moldes de um de seus maiores ídolos, David Bowie.

Porém, logo em seu primeiro dia, recebe o rótulo de “aquilo”. Quando está prestes a sofrer um novo ataque, Riley decide criar um blog anônimo por sugestão de sua terapeuta, Dra. Ann. Riley, e vê no blog uma oportunidade de expressar e enfim, dar vazão a seus sentimentos reprimidos.

Mas um colega chantagista da escola pode ter descoberto a real identidade de Alix, o que envolve o protagonista em uma trama dramática em que se destacam outros personagens importantes para o romance como os pais de Riley, seus amigos Solo e Bec, os antagonistas Jim Vickers e Sierra Wells.

Numa narrativa direta, espontânea e sensível, a obra acompanha o ponto de vista de Riley e nos mostra seus conflitos internos, suas angústias e seu desejo de poder se apresentar para o mundo da forma como realmente se sente. Com delicadeza, empatia e transparência, Garvin traça um poderoso retrato da juventude contemporânea, que apareceu em diversas listas de melhores romances juvenis norte-americanos em 2016.