Se em sua estreia, em 1954, a peça “Senhora dos Afogados” chocou parte da plateia, a intenção do diretor Jorge Farjalla ao reapresentar o texto de Nelson Rodrigues mais de 60 anos depois é outra: “Quero fazer com que o público reflita sobre a obra”. A nova versão do espetáculo, que foi censurada na época pelo governo Vargas, entra em cartaz no final de semana em Belo Horizonte.

A montagem, de caráter mítico e com inspiração nas tragédias gregas, acompanha a história de uma família tradicional envolvida em diversos dramas, como o amor carnal de uma filha por seu pai. “É uma peça que traz um forte apelo simbólico dentro do texto, no próprio trabalho do ator e na sua relação com o personagem”, afirma o diretor.

Dentre os simbolismos presentes em cena, a religiosidade é um dos destaques. “O João e o Rafael Vitti são pai e filho na vida real e também em cena. Tem esse duplo de Cristo e Anticristo. A Dona Eduarda e uma das prostitutas também trazem essa questão. Uma delas é a Virgem Maria e outra é Maria Madalena”, exemplifica. “A peça é também uma obra extremamente feminina, que traz a força da mulher e estamos hoje com essa questão do feminino em alta”, acrescenta Farjalla.

Apesar de já ter trabalhado com textos de Rodrigues em várias ocasiões – uma delas, “Dorotéia”, foi montada no ano passado em BH – a produção de “Senhora dos Afogados” ganhou força depois de um pedido da atriz Letícia Birkheuer. “No aniversário dela, ela me pediu para que eu a trabalhasse no teatro, porque ela queria fazer um papel que tivesse peso, que significasse algo para ela”, lembra.

O pedido foi atendido, e no espetáculo, Birkheuer, que encena Nelson Rodrigues pela primeira vez, dá vida a um homem.

Cenário

A versão de Farjallo é ambientada em Recife, e o diretor usa alguns artifícios para retratar a região em cena. “Todos os personagens falam com o sotaque, com exceção da mãe, que é estrangeira”, explica. “Não podemos esquecer também que a obra é embebida na tragédia grega, tem o mal de Édipo (quando o filho se apaixona pela mãe e vice-versa) e o mal de Electra, a paixão carnal de uma filha pelo pai. É uma tragédia que move amor e morte”, destaca o diretor, que, neste cenário trágico, leva os personagens para o mangue.

A cenografia ainda é destacada por outros motivos: sua relação com os atores. “Ele tem um significado. O elenco fica o tempo todo em cena, ele manipula o cenário e se desdobra. São oito atores fazendo o que seria feito por 23”, revela o diretor.