Em 2015, Marta ganhou, pela primeira vez, um espetáculo. Mas, apesar do lastro com a vida noturna, sua história não começou da noite para o dia. A personagem é encarnada pelo ator Cleo Magalhães há 12 anos, como um experimento cênico de montação (o ato de se vestir com roupas extravagantes, relacionado à cultura drag) que foi ganhando novos contornos, ocupando diferentes lugares e formatando uma narrativa própria. 

Essa história desembocou no espetáculo solo “Simplesmente Marta”, que entra em cartaz de sexta-feira ao dia 20 de maio, no Espaço 171. A peça, que tem direção de Henrique Limadre, integra as celebrações de dez anos do Teatro 171.

Magalhães conta que Marta surgiu como um projeto de intervenção em espaços noturnos, como boates e bares, desenvolvido ao longo dos anos.“Em 2015, passados dez anos, vi que havia chegado a hora de juntar esse material e montar um espetáculo. Chamei o Henrique para dirigir e fizemos uma campanha de financiamento coletivo”, conta. “Fiz um curso de caracterização e fui me profissionalizando na montação. Mas a Marta é um personagem, é teatro. São dois lugares diferentes”, completa

O espetáculo narra a história de uma apresentadora de TV decadente que não aceita seu próprio fracasso e constrói um mundo absurdo e fantástico para conseguir continuar. “Pensamos Marta com mais camadas, porque precisávamos aprofundar essa figura e a transformar num personagem que tivesse uma linha dramatúrgica dentro da peça”, afirma Limadre. “Nesses dez anos, ela já viveu várias coisas e isso se reflete neste momento de decadência. Um universo de solidão, de nostalgia”, diz.

Magalhães conta que desenvolveu a personagem misturando referências como Dercy Gonçalves e Susana Vieira . “Ela é uma grande metáfora desse mundo do entretenimento, da ilusão da fama; de como são construídas essas identidades midiáticas e como isso interfere as nossas vidas”, sublinha, ressaltando que a peça levanta questões como a diversidade e o lugar de fala.

“À medida em que o Cleo não vive essa personagem só no palco, ela atravessa as fronteiras da ficção e se torna um ser político, levantando questões sobre o universo queer que vão além da caixa cênica”, defende Limadre. “Esses atravessamentos fazem parte do histórico do Teatro 171 nesses dez anos”.

Resistência

Para Limadre – que assim como Magalhães é um dos fundadores do 171 – a força do grupo está na resistência. “Estamos na ativa há dez anos, com financiamento e público diretos, abrindo espaço para outros eventos, como o ‘Buteco 171’ e o ‘Varejão’, que são ações de convivência e performance”, sublinha. “O desafio é existir sem perder a identidade. E temos conseguido fazer isso dialogando com a cidade, dentro desse lugar que hoje é um importante corredor cultural”, afirma, lembrando que a sede fica próxima a espaços como Zona Last, A Gruta, Galpão Cine Horto e Velma.

Para Magalhães, fazer “Simplesmente Marta” neste momento é simbólico. “Temos discutido o lugar de fala e as questões das minorias em nossas criações. Com ‘Marta’ não é diferente. Colocamos a luta LGBT no centro da questão e celebramos esse espaço independente, construído só com desejo e movimentação de tantos artistas. A grande força do 171 é a porta aberta”, conclui Limadre.

Serviço: “Simplesmente Marta”. De sexta ao dia 20 de maio, no Espaço (R. Capitão Bragança, 35 – Santa Tereza). Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h. Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).