Com “Processo de Conscerto do Desejo”, cartaz de hoje (2) até o dia 27 no teatro do CCBB, Matheus Nachtergaele contraria um desejo de sua mãe, Maria Cecília. Ela se suicidou em 1968, aos 22 anos, quando ele tinha apenas três meses de vida. Após um grande sentimento de culpa que carregou por boa parte de sua vida, resolvido com muitas sessões de terapia, o ator se transformou em “arauto” de sua mãe, levando para o palco os poemas não publicados que ela deixou.

“A peça, que prefiro chamar de recital, tem um tom confessional e trágico e, ao mesmo tempo, possui uma grande luz. Poderia não fazer e os textos ficariam guardados como tristeza profunda, dentro de uma caixa de lembranças. Seguiria em frente, sem pensar nisso. Mas agora eles são uma coisa viva. Cecília, a poetisa, está em mim, seu filho e ator. Isso contraria o desejo de mamãe, que queria sumir. Agora eu a carrego em cena aberta”, registra.

“Não é dramaturgia. São os poemas de uma mãe ditos pelo filho dela. Esse é o ouro da peça”


Matheus lembra que ficou muito tempo pensando sobre qual destino dar aos poemas, “se publicava ou entregava para alguma atriz fazer no palco”. Até chegar à conclusão de que não teria melhor pessoa para o que aquela mulher jovem estava vivenciando, a partir de um material íntimo de dor e alegria, do que seu filho. Não se trata de um processo terapêutico, pois o luto e a culpa ficaram lá trás, segundo ele. “Agora realmente posso dizer os poemas com bastante verdade artística e profundidade”.

Ritual do encontro
Matheus define “Processo de Conscerto do Desejo” como um ritual, “como toda boa peça”. Ele defende que o teatro não é o melhor lugar para a dramaturgia. “A TV e o teatro superaram o teatro como contadores de história. O teatro é o ritual do encontro do ator com o público”, destaca. 

No recital, explica que não está fazendo um personagem. “É só a presença do filho de Cecília, dizendo as coisas dela, que tem uma presença maciça, através do que resta dela em mim”.

O público, observa, sai tocado com a ideia de um filho ator ler os textos de sua mãe que se matou. “É uma mistura bonita, um ingrediente explosivo, mas que explode em poesia”, sintetiza Matheus, que ainda se lembra do dia em que foi comunicado pelo pai, aos 16 anos, da verdadeira razão da morte de Cecília. “Foi minha maturidade simbólica. Estava emancipado. Virei adulto do ponto de vista do cidadão votante e pagador de impostos. E recebi os poemas da minha mãe”.

Sobre os poemas, reunidos em livro e lançado pela editora mineira Polvilho, em 2016, ele enxerga uma autora que estava desenvolvendo uma sensibilidade aguda, “que tinha motivos para viver e para morrer”, demonstrando uma capacidade de síntese surpreendente para a idade dela. “Não são extensos, em sua maioria. Por isso incluímos músicas que meu pai tocava e ela gostava”, assinala Matheus, que se autointitula um mestre de cerimônia para a ressurreição poética da mãe. “Não fico desgastado ou deprimido. Fico feliz”.

20 anos de cinema
A entrevista com o Hoje em Dia aconteceu minutos depois de o ator pôr os pés em sua casa, no Rio de Janeiro, após semanas em Pernambuco, quando filmou “Piedade”, novo longa-metragem de Cláudio Assis. “Foi como uma foda bem dada. Estamos naquele momento em que você vira de lado e fuma um cigarro. O filme é um novo passo no trabalho de Cláudio. Ele é mais desejo, um drama psicológico. A carne é menos protagonista”.

O ator de filmes marcantes como “O Auto da Compadecida” e “Cidade de Deus” é lembrado pela reportagem que está completando 20 anos de cinema, desde a sua participação em “O Que é Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto. 

“Gosto do que eu faço. Não consigo imaginar alguém prisioneiro de seu trabalho. Preciso pagar minhas contas e dos 12 cachorros que tenho em casa, mas se eu fizesse algo só para ganhar dinheiro enlouqueceria. Iria para o hospício”, analisa.

Serviço: “Processo de Conscerto do Desejo”. De 2 a 27 de março, de quinta a segunda, às 20h, no Teatro I do CCBB (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Ingresso: R$ 20 e R$ 10 (meia).