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Atualmente um dos maiores do país, o carnaval de rua de Belo Horizonte “refloresceu” a partir da contestação política aos desmandos do poder público, com blocos e movimentos como a Praia da Estação. A partir dali, a folia cresceu exponencialmente, abarcando diferentes estéticas, lutas e perfis – e encontrando, também, novos desafios. Um dos criadores da Praia, o antropólogo e carnavalesco Rafa Barros conversou com o Hoje em Dia sobre as origens, transformações e novos rumos da folia momesca na capital.

O "reflorescimento" do carnaval de rua data de 2009, com blocos como Tico Tico Serra-Copo, Peixoto e Approach, e ganha força em 2010, com o surgimento de outros, como o Filhos de Tcha Tcha e a Praia da Estação. Como foi esse início? Naquele momento, BH experienciava, há alguns anos, uma política pública voltada para a lógica administrativista e mercadológica. Os ato de Fernando Pimentel a frente do município, intensificaram ações e programas urbanísticos retrógrados que promoveram uma série de remoções forçadas, tamponamento de cursos d'água, construção desmensurada de viadutos e alargamento de vias, requalificação de espaços públicos que resultaram em processos de higienização urbana etc. Na mesma linha, a política habitacional do município, assim como a sua política cultural, que já tinham sido referência no cenário nacional, viviam um esgarçamento significativo. A eleição de Márcio Lacerda em 2008, fruto de uma aliança entre o então prefeito petista e o governador Aécio Neves, de partido opositor, resultou na condução de um empresário para a prefeitura e na intensificação dessa política fria, calculista e asséptica. A capital mineira, um dia berço de um carnaval pulsante - fruto sobretudo das vivências comunitárias periféricas negras e que assistiu seu arruinamento ainda na década de 80 do século passado graças a deliberadas intervenções do poder público -, seguia repetindo esses desmandos. Podemos citar o deslocamento dos desfiles das Escolas de Samba e Blocos Caricatos do centro da cidade para a via 240, por exemplo. Todo esse histórico impulsionou, em 2009, um grupo de amigos e desconhecidos a fazer da festa carnavalesca, ou melhor, do seu esvaziamento e também desse esvaziamento da experiência urbana na cidade, um experimento lúdico e desproposital de ressignificação da apropriação do espaço público a partir de cortejos mambembes e da execução desajustada de marchinhas de carnaval. Fantasias, propriamente ditas, não haviam, a não ser as utopias imaginadas. No final do mesmo ano, Lacerda sacramentaria o impulso reflorescedor do carnaval com a imposição do decreto que proibia a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação. Berço da cidade, local de encontros e de grandes atos políticos, festivos e culturais, ponto de expressão da cultura e da vida marginais, a praça, território de todas, na base da canetada, tornava-se campo de exceção. Por esse motivo, desaguava nas margens do ribeirão Arrudas, já transformado em avenida, a Praia das Alterosas. E foi graças a força imagética e estética da Praia da Estação, no início de 2010, que provocou uma grande tsunami política na cidade, que o embrião carnavalesco de 2009 ganhou fôlego e a cidade.

Como foi a primeira Praia da Estação? O que te marcou naquele dia? Lembro-me com frescor e ainda com a sensação da boia envolta na cintura daquele 16 de janeiro de 2010. A Praia da Estação, ainda tímida, apresentava-se para BH a partir de um chamado anônimo e não direcionado e após uma chuva de ideias que brotou em um grupo de e-mails criado para organizar atos-protestos contrários ao fatídico decreto do prefeito de merd**. A adesão ainda modesta já anunciava as potencialidades e os limites daquela experiência. Importante que se diga, seu impulso, desde sua maré mais baixa, já revelava seu caráter horizontal, plural e não utilitário. Pessoas com trajes de banho, sombreiros, cadeiras de praia, cangas, caixas de isopor e até mesmo pranchas de surf despontavam feito alegorias do cimento. Conhecidos e desconhecidos se reconheciam no louco desejo de experimentar uma outra cidade. Em meio a areia praiana, inimaginável semanas antes, mas extremamente real a partir daquele instante, sensações e imagens impregnaram nossos seres e nossos horizontes. Citaria a transformadora experiência estética e comportamental dos trajes de banho (sungas, biquínis e maiôs) a contornar os corpos à mostra em pleno centro da cidade e diante da recatada moral mineira, estética também associada a um potente significante político a desorientar e transformar as ações e intervenções políticas em Belo Horizonte a partir dali. O banho do caminhão pipa, nosso mar mineiro, foi intuitivamente antevisto diante a possibilidade imaginada de que as fontes da praça, por boicote, pudessem ser desligadas. Para tê-lo, vaquinha coletiva e generosa a propiciar fonte de água tão viva. Não poderia não mencionar, já nos primeiros mergulhos, o encontro com a alteridade radical, corporificada na relação com as moradoras e os moradores e de rua e as trabalhadoras ambulantes que, mesmo desconfiadas, abraçaram com dadivosidade aquele despudor praiano.

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Nos anos seguintes, os blocos se multiplicaram, com diferentes estéticas, bandeiras e ritmos, e a cidade começou a respirar carnaval. Como percebe o crescimento desse envolvimento da população, tanto no que toca a festa e a musicalização quanto o desejo de ocupar as ruas e experimentar outras vivências? Toda festa, assim como toda magia, age, se manifesta e se propaga por meio do contágio. Mencionaria, primeiramente, essa força invisível, difusa e inebriante que nos enfeitiça e nos alucina. Impossível, depois de riscado o pavio, que essa experiência não se propagasse. Por outro lado, e não tenho dúvidas disso, havia sim um desejo represado, uma vontade de viver e experienciar a cidade, em toda a sua diversidade e com todas as suas possibilidades e potencialidades. Possibilidades reiteradamente negadas por intervenções públicas e mercadológicas. E a fórmula disso é bem simples: tudo aquilo que é confinado sem válvula de escape, sem pontos de fugas, um dia, inevitavelmente, explode, transborda! Há também toda a musicalidade mineira que encontrou no carnaval espaço para criar e brincar e a força da alegria enquanto afeto pulsante a nos religar. Lembro-me de um professor que dizia sobre as semelhanças e diferenças entre os sentimentos: a tristeza, a gente quer que passe, a alegria, a gente quer fique.

Na sua visão, quais conquistas políticas e sociais o carnaval de rua conseguiu, efetivamente, para a cidade ao longo desses anos? Difícil enumerar e separar os legados deixados e tantas outros, importantes e potentes, que podemos vislumbrar. Numa lista rápida e precária enumeraria, primeiro, nossa capacidade de fazer de quase toda a cidade uma grande festa! Retomar a experiência do carnaval, fundamento da socialidade brasileira, como marco de encontros, transbordamentos e transformações sociais. Segundo, o carnaval nos legou uma grande "fórmula" de articulação e intervenção políticas. Um "dispositivo" eficiente não apenas para as questões relativas à realização do próprio carnaval, mas a possibilidade de uso do carnaval enquanto um instrumento de luta política em diversas situações. 

Hoje, como avalia essa relação entre PBH e carnaval? O diálogo melhorou? A força da festa na cidade impôs ao poder público uma necessidade de escuta e diálogo incontornáveis. O carnaval em Belo Horizonte foi ganhando dimensão colossal e atuar a partir da repressão ou de estratégias de cooptação, como ocorreu na administração Lacerda, seria assinar o fracasso. O carnaval é feito pelo e para o povo. O estado entra como uma esfera mediadora e, diante tudo o que ele gera, deve também atuar como uma entidade distribuidora. Essa quase uma década obrigou o poder público a adotar concepções e procedimentos oriundos dos foliões e antes combatidos, como oficiais. Um exemplo é a apreensão dos blocos de rua enquanto manifestação/expressão popular e cultural. Inevitavelmente, foi se estabelecendo uma relação mais dialógica e, principalmente, o corpo de funcionário efetivos da Belotur foi criando vínculos e sensibilidades com os realizadores da festa. Hoje, percebo avanços significativos nessa relação e em como isso reverbera em ganhos mútuos. O edital de sonorização de blocos de rua, com seus critérios de classificação e fomento, é um importante exemplo. Mas não podemos deixar de mencionar os critérios de patrocínio. Neste ano, Belo Horizonte entrou para a história do país estabelecendo condições de financiamento para a festa que romperam com a lógica do monopólio, garantiram a liberdade do folião e do ambulante e preservaram os espaços de circulação dos blocos de rua. Tudo isso tendo um ganho de praticamente seis vezes o valor do financiamento anterior. Uma prova de que não podemos ser subservientes aos mercado. 

Atualmente, temos vários carnavais na cidade. Blocos de diferentes perfis, dos ainda espontâneos aos mais comerciais. Como observa essa pluralidade? Na sua opinião, o componente político se perdeu nesse crescimento do carnaval ou ainda segue como norte? Carnaval é diversidade! Não haveria carnaval se a característica fosse a homogeneidade. Assim como as cidades são várias, são vários também os carnavais. É preciso aprender a conviver e compreender essa diversidade. Contudo, penso, alguns atributos fundamentais não podem se perder. Carnaval é festa aberta e popular. Restrição do espaço público e confinamento de abadás contradizem o princípio fundante da festa. Esse tipo de procedimento, na minha opinião, deve ser combatido. Com relação ao conteúdo político do carnaval, não o consigo ver dissociado de sua efetivação. Todo carnaval é político por essência. Costumo brincar que, como toda revolução é uma festa, toda festa comporta em si também uma revolução! No caso específico de Belo Horizonte, nossa história, seja a mais tradicional história do carnaval, seja a mais recente retomada da festa, nos confere um contorno político muito relevante que não consigo vislumbrar dissociado de sua realização, pelo menos tão cedo.

Ainda nesse contexto, como avalia a importância da criação dos blocos afro e também de blocos ligados a temáticas sociais, como as lutas LGBT, feministas e anti-manicomial? Eles confirmam e potencializam não apenas o caráter político da festa, mas a diversidade enquanto sua dimensão fundante. Mais, cumprem também um papel fundamental ao explicitar e problematizar conflitos e processos de segregação ordinários que se naturalizaram no tecido social. Não podemos negligenciar a conexão que esses blocos mantém com as lutas afirmativas históricas e contemporâneas.

Assim como o carnaval, a Praia também foi mudando de cara, incorporando outras pautas, agregando a participação da periferia. Como observa o movimento hoje? Com alegria e entusiamo! Seria frustante ver o carnaval crescer apenas na região centro-sul, com um recorte branco, de classe média e com inserção de turistas. O carnaval sempre esteve ligado as camadas populares, aos territórios periféricos e aos poderes não instituídos. O não pertencimento por parte dessas comunidades, grupos e localidades poderia significar, de certo modo, a própria negação da festa. Nunca duvidei que esse movimento cada vez mais se ascendesse, uma vez que diz repeito a uma natureza própria e particular a eles. Na verdade, durante todos esses anos, de lacunas, vazios e ataques deliberados, foi justamente na esfera comunitária e familiar, nas vilas e aglomerados, sobremaneira, que a festa insistiu em existir.

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Um desafio que ainda persiste no carnaval de rua é o da descentralização. Como atingir outras camadas territoriais e populações da cidade? Sempre acreditamos e investimos num processo de descentralização do carnaval. Esse ímpeto está intimamente ligado ao estimulo primeiro do dito "reflorescimento" da festa lá nos idos de 2009... Enraizar, capilarizar, pulverizar diz desse movimento de experimentar, de experienciar a cidade e seus espaços públicos. Diria mais, diz respeito a um deslocamento não apenas geográfico, mas existencial, em direção ao outro, à alteridade, à diferença. Uma possibilidade de conhecer não apenas espaços desconhecidos e marginais, mas de reconhecer outras possibilidades de vida, experiencias comunitárias etc. Há também uma questão fundamental relacionada ao fortalecimento e à legitimidade de lutas já estabelecidas. A possibilidade de que o carnaval possa ser instrumento de visibilidade e potencialização de espaços de resistência e de lutas históricas, contribuindo para a quebra de estigmas e preconceitos.

Outra questão é a viabilidade financeira dos blocos, que têm, ano após ano, recebido cada vez mais ofertas de patrocínio de cervejarias. Como observa esse dilema, principalmente com relação aos blocos grandes, que têm custos altos e que, ainda assim, vêm buscando outras alternativas de financiamento? Ainda é possível ter um carnaval independente em BH? Percebo essas situações a partir de uma perspectiva de escolhas. Há um momento quando funda-se um bloco (e isso pode partir já de sua concepção) que o grupo de amigas e amigos opta por algo menor, menos visível e publicitário ou por uma intervenção de maior proporção. Isso traz questões distintas e responsabilidades distintas para cada bloco, de acordo com sua natureza. E aí, é obvio, que quando a coisa se torna grande as necessidades serão maiores. O patrocínio, nesse sentido, pode se tornar inevitável. E não o percebo enquanto um mal em si. É preciso saber construir em quais termos essa relação se dará. Na minha concepção, o mercado sempre será predador. Então, ficar à mercê dele é um grande equívoco. É necessário impor critérios na relação e sempre manter outras formas de construção e manutenção autônomas e coletivas que garantam a independência. O que ainda me deixa de certa forma frustado, e até mesmo triste, é que nessa equação financeira que se constitui, os mais diversos segmentos do mercado sempre ganham, assim como o poder público, ficando o artista, mais especificamente o músico, na situação mais frágil, ressalvadas algumas exceções. Há também aqueles, grupo no qual me incluo, que não estabelecem com o carnaval qualquer relação de ganho profissional ou adicional. Se lançam no jogo da dádiva.

Sobre o decreto regulatório, quais pontos positivos ele pode trazer para o carnaval de rua? O decreto padeceu de um mal inicial: não foi fruto de uma ampla e aberta discussão pública. Essa é uma questão fundamental e deve ser reivindicada. No entanto, seu conteúdo é positivo e traz avanços significativos. Eles vão desde o contorno conceitual da festa, seu caráter público e gratuito, sua dimensão cultural e a proteção da sua diversidade até as obrigações inerentes ao poder público como as questões relativas à segurança, saúde, infraestrutura, campanhas educativas etc. A exclusão da diversidade sexual e de gênero é algo grave e diz respeito uma relação política de subserviência que o executivo municipal vem mantendo com setores retrógrados e conservadores da cidade. Investidas já realizadas na política educacional e no âmbito da Câmara Municipal. Inadmissível pensar no carnaval sem contemplar essas camadas da sociedade. Do ponto de vista das trabalhadoras ambulantes, abre-se um precedente importante na luta pela regulamentação da atividade, bem como, conquista-se um grande avanço com a liberdade de venda de vários produtos.

Na sua opinião, quais desafios ainda persistem ou estão por vir com relação ao carnaval de rua de BH? Como o poder público, em suas diferentes esferas, pode auxiliar a construção da folia daqui para frente? Não há nada acabado e perfeito. Sempre haverá imperfeições e coisas a serem construídas e corrigidas. Mas, com certeza, a partir de processos de diálogo e escuta as construções tendem a se equacionar de forma mais efetiva e saudável. Nessa direção, do meu ponto de vista, faz-se necessária a criação do Conselho Municipal do Carnaval, ou qualquer instância de mesma natureza, que garanta a participação plural da sociedade na concepção e estruturação da festa na cidade. Um ponto importante, inclusive, a ser debatido numa instância dessa natureza, e certamente junto à cidade, são os marcos legais da festa que, diante da magnitude atual, possam regular a intervenção do capital e garantir suas características culturais, públicas e populares. Uma relação mais próxima e articulada com a Secretaria Municipal de Cultura pode garantir um acompanhamento continuado da expressão e seu fortalecimento enquanto dimensão cultural. Fundamental que haja uma construção paulatina e efetiva junto aos órgãos de segurança para uma proteção cidadã, com respeito às diversidades e com orientação mais educativa e comunitária. Finalizaria dizendo que é fundamental que o poder público continue na linha da mediação com o capital em relação aos formatos de patrocínio e na concepção de uma carnaval mais descentralizado, bem como contribua, a partir da experiência carnavalesca, com o processo de regulamentação permanente da atividade ambulante na cidade. O carnaval, gostamos de brincar (e brincar é coisa séria) pode ser apreendido enquanto experiência de uma cidade fabulada, uma cidade ideal. Seria maravilhoso conseguirmos implementar projetos e ações durante as festividades de Momo, como a própria Tarifa Zero, para que, posteriormente, possam ser pensadas com mais seriedade perenemente. Não custa acreditar quem nem todo carnaval precisa ter um fim.