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O ano de 2017 foi frutífero para a música de Minas Gerais. Esperados lançamentos e boas surpresas deram o tom da nova safra de discos, que teve representantes dos mais variados gêneros: do rap ao instrumental, da MPB ao eletrônico, do rock ao experimental.

Para o DJ e produtor musical Luiz Valente, proprietário do selo Vinyl Land Records, o grande destaque foi “Heresia”, primeiro álbum do rapper Djonga. “O Djonga foi praticamente o único que apareceu em listas de melhores, mesmo sem gravadora, só na força espontânea da internet, dos cyphers (vídeos de músicas em que vários MCs, de diferentes estados, cantam juntos)”, reflete.

"Apesar da diversidade de estilos, com certeza o rap foi quem tomou a cena de assalto esse ano”, afirma. “Além de toda a 'rapa' da Geração Elevada (a crew de Djonga), como a Clara Lima, teve o Matéria Prima, com seu trabalho solo e os projetos Zimun, Tetriz e Bala da Palavra”, completa.

Valente destaca, ainda, os discos de Veronez, Luiz Gabriel Lopes e Dedé Santaklaus. “O Dedé foi uma ótima surpresa. Estou ouvindo direto e ‘aplicando geral’”, afirma. “Tem muito material que sai ‘picado’, toda uma geração que não está nessa de lançar disco fechado e que, por isso, acaba ficando de fora. A produção está cada vez melhor, com destaque para o conteúdo das letras”, pontua.

Acertos e desafios

Dono de um dos mais elogiados discos do ano, Veronez se alegra com o ritmo frenético da produção autoral mineira, mas guarda preocupação com relação à permanência dos projetos e carreiras. “Hoje, com toda essa efemeridade, o prazo de duração da carreira de um artista pop é muito curto. Temos um desafio que é fazer com que esses discos sigam tocando no ano que vem e nos próximos”, defende o cantor, que destaca o disco de Claudia Manzo e o recém-lançado single de Marcelo Tofani e Dedé Santaklaus, “Não Sei o Que Falar (Só Lazer)”.

“Temos que pensar formas de dar vazão a toda essa produção, de fazê-la reverberar para fora de Belo Horizonte”, continua Veronez. “A Rádio Inconfidência cumpre um papel importante, mas, sozinha, não consegue escoar essa produção. Ainda não existe uma força coletiva que faça circular essa música, que crie uma demanda nacional pela cena mineira, que está tão aquecida”, diz.

Para Veronez, o intérprete tem um papel importante nesse contexto. “Meu disco, por exemplo, é fruto de uma curadoria de compositores mineiros dentro do tema carnaval e liberdade. Junto ao meu trabalho, apresento o de vários outros artistas, o que amplia as possibilidade de quem escuta”, afirma, citando compositores como Milena Torres, Brisa Marques, Luiz Gabriel Lopes e Di Souza, que assinam canções gravadas pelo cantor em seu álbum de estreia. 

Valente concorda que o “sair de BH” segue como um entrave, mas que o rap tem conseguido driblar a questão. “Chegar mais longe, como sempre, é o desafio. Acho que essa conexão que rappers como o Djonga fazem, participando de músicas de vários artistas de outros estados, podem ficar de dica para a turma. Mas não sei se vale para todo mundo, porque o formato enxuto do rap ajuda a circular sem demandar muita estrutura”, reflete o produtor. 

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Djonga, “Heresia” – O título do álbum de Djonga é um substantivo que pode ser aplicado em vários dos vértices que o rapper tensiona. A começar pela capa, uma homenagem/trollagem explícita com o Santo Graal da música mineira, o disco “Clube da Esquina”. Segue no conteúdo sonoro: batidas tensas, pesadas, como se fossem acusações e dedos em riste ao rap que ocupa a cultura pop contemporânea. Finaliza em sua força lírica, ao não dispensar a necessidade do gênero, hoje, em se despir de velhos preconceitos. 

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Veronez, “Narciso Deu Um Grito” – O autoconhecimento, a liberdade e as transformações pessoais e coletivas marcam o disco de estreia de Veronez. É de frente ao grito de Narciso que o multiartista se afirma, de vez, como cantor e traça um panorama instigante da composição contemporânea mineira. Abraçando o papel de intérprete com coragem, Veronez inventa e reinventa pérolas de nomes como Marku Ribas, Milena Torres, Luiz Gabriel Lopes e Di Souza, abarcando participações de luxo em sua caminhada (de Iconili a Thiago Delegado), e “soltando o espartilho” com a Corte Devassa para fechar o passeio com muito brilho.

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Nobat, “Estação Cidade Baixa” – O disco de Nobat soa como um rolê sonoro-imagético do músico por esta nova Belo Horizonte. No trajeto, temos o Duelo de Mc's, a jovem boemia do Maletta, a carnavalização nas ruas e praças da capital mineira. As canções, divididas em três lançamentos, registram questões que antes pareciam apenas sugeridas na obra do músico, em particular certos mergulhos africanos via a Minas de Milton. Como sugere a capa, Nobat desenha um espaço imaginário, mas que se faz existir por afetos e discursos. 

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Claudia Manzo, “América por una mirada femenina” – É difícil ouvir Claudia Manzo cantar sem se arrepiar. Mas o talento da chilena, radicada em BH há cinco anos, vai além da voz potente e cristalina. Em seu primeiro álbum, ela mostra-se uma artista completa: compositora de mão cheia, instrumentista sagaz e figura humana atenta ao trabalho de seus pares e às questões de sua época. Seu disco, essencialmente feminino e feminista, bagunça deliciosamente ritmos latinos e brazucas, dando textura sonora a temas confessionais que marcam sua caminhada em terra brasilis.

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Dedé Santaklaus, “HAHAHA” – Um álbum que é sintomático já em seu título: um tipo de risada que não sinaliza alegria nem sarcasmo. Ou melhor: pode até significar tudo isso, mas sob uma lógica simples, do descompromisso, mas na mais deliciosa das intenções. Dedé Santaklaus aportou em Belo Horizonte há algum tempo, vindo de Sete Lagoas, para fazer (bom) rock clássico com o Absinto Muito. Mas parece ter desencanado de acumular poeira; correu pra rua e foi filtrando dados de uma BH novíssima, desorientada em certa fritação eletrônica e libertária.
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Clara Lima, “Transgressão” – Clara Lima é “bicho solto”, cria da rua, lapidada pelo mundo-cão. Aos 15 anos, chegou sem pedir licença no rap, ganhando consecutivas batalhas no Duelos de MCs e se afirmando como uma das grandes rimadoras de freestyle de BH. Hoje, aos 17, já subiu de patamar. Fez-se compositora junto ao coletivo DV Tribo e seguiu novos voos lançando seu primeiro disco solo. Denso e cru, o trabalho é um aperitivo da potência criativa da rapper, que irrompe barreiras, subverte conceitos e coloca em evidência uma juventude negra e periférica que não aceita arrego. 

 

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Semreceita, “Semreceita” – O mito de que a música instrumental é “difícil”, “sofisticada”, “elitista” e/ou “para poucos” é brilhantemente dissolvido pela turma do Semreceita em seu primeiro disco. Formado por jovens e talentosos músicos da cena mineira, o grupo funde o erudito ao popular sem tropeços, em temas autorais que bebem de fontes rítmicas como baião, maracatu, carimbó, guitarrada, frevo, rock, jazz e choro. Com produção de Antonio Loureiro, o álbum traz, ainda, uma inspirada versão de “Meia Lua Inteira” (de Carlinhos Brown, conhecida na voz de Caetano Veloso).

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Luiz Gabriel Lopes, “Mana” – Mais que um acerto musical, “Mana” é um disco necessário para esses confusos tempos de ódio e descrença. Autodenominado “jardineiro energético”, o cantor e compositor mineiro catalisa o otimismo e renova a esperança em canções de apelo pop e psicodélico. Com uma nova trupe de instrumentistas, LG afasta-se dos arranjos rebuscados do antecessor “Fazedor de Rios” (2015) para buscar uma sonoridade mais enxuta e simples, que dá destaque às belas letras e melodias.

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Devise, “Petricor” – Erra rude quem diz por aí que a produção autoral de rock estagnou em Minas Gerais. Discos como “Petricor”, o segundo da Devise, são provas cabais do contrário. Nas oito faixas do álbum, o quarteto mineiro destila um som nostálgico e atual, na mesma proporção. Se as influências noventistas do grunge e do rock britânico ficam claras no canto de Luís Couto e nos timbres de guitarra, as texturas, ambientes e cadências remetem ao stoner e o pop neo-psicodélico. Tudo isso cantado em português e com frescor contemporâneo que chama atenção.

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Maíra Baldaia, “Poente e outras paisagens” – É da terra de Drummond que vem uma das vozes mais marcantes da nova geração de cantoras mineiras. Inspirada pelos tambores do congado, a itabirana Maíra Baldaia destila potência vocal e retrata questõe sociais urgentes em seu primeiro disco. Ao lado de nomes como Nath Rodrigues e Maurício Tizumba, ela canta o feminismo, o orgulho negro e a espiritualidade em canções que desenham paisagens fortes e afirmativas.

OUTROS DESTAQUES

Affonsinho – “Certeza?”
Alexandre Andrés e Rafael Martini – “Haru”
Aline Calixto  "Serpente"
Arthur Melo – “Agosto”
Bernardo Bauer – “Nem Com Querosene Essa Alma Acende”
Cadelas Magnéticas – “Encruzilhada”
César Lacerda – “Tudo Tudo Tudo”
Daniel Saavedra – “No Delírio”
Dudu Nicácio – "Oceano Brilhante" 
Duzão Mortimer – “Homem de Laboratório”
Enzo Banzo – “Canção Escondida”
Fernando Motta – “Desde Que o Mundo é Cego” 
Francesco Napoli – “Cavalo e Catarse”
Gui Hargreaves – “Volta”
Irene Bertachini e Leandro César – “Revoada”
Jonathan Tadeu – “Filho do Meio”
Kill Moves – “Transition”
KKFOS – “Klownstrophobia”
Leandro César – “Marimbaia”
Lineker – “São Yantó”
Luli – “Deserto”
Madame Rrose Selavy – “Festinha”
Mamute – “Epidérmico”
Marcos Frederico – “Carnaval Cigano”
Matéria Prima – “2 Atos”
Matheus Fleming – “O Estado das Coisas” 
Ménage –“Terra”
Miêta –“Dive”
Minimalista – “Banzo”
Oceania – “Beneath the Surface”
Octávio Cardozzo – “Âmago”
Pequeno Céu – “Praia Vermelha” 
Porcas Borboletas – “Momento Íntimo” 
Rafael Martini – “Suíte Onírica (Sexteto)”
Rodrigo Negão –“Registro Experimental”
Siso – “Saturno Casa 4”
Sol Bueno – “Poeira Dançante”
Túlio Araújo – “Moduland”
Vinikov de Morais – “Babyloliness”
Zimun – “Sobre o Bom Senso e o Senso Comum”