“Por mais que estivésse[/TEXTO]<CW-35>mos vivendo momentos difíceis, era um período rico. Tinha uma coisa muito lúdica, muito bonita no coração das pessoas. Hoje o mundo inteiro está passando por dificuldades, mas as pessoas estão ficando mais endurecidas. Antes, existia uma leveza”. A comparação dos tempos que vivemos agora com a década de 60 é de uma das protagonistas da cultura nacional naquele período: Wanderléa.

E de leveza, a Ternurinha (apelido da cantora nos tempos de Jovem Guarda), entende. Carregando este espírito, a cantora dá vida a si mesma no espetáculo “60! Década de Arromba – Doc. Musical”, em cartaz de hoje a domingo em Belo Horizonte.

Embora a música seja a principal ferramenta para falar sobre os “anos rebeldes”, o espetáculo não se insere nos moldes tradicionais de um musical: na obra, entram como aliados do documentário elementos como fotos, vídeos e depoimentos reais.“A peça traz todos os momentos mais importantes do período. Acontecimentos no Brasil e no mundo, como a saga dos Kennedy, a ida do homem à lua, a história política do Brasil, o início de Brasília”, conta Wanderléa. “As pessoas nunca conseguem ver uma vez só, porque é muita informação”, “vende” a cantora.

Wanderléa aproveita a deixa e rasga elogios à produção. “São 24 atores e cantores maravilhosos, minha filha inclusive está entre eles. Uma orquestra de 10 músicos, e tudo acontece ao vivo, sem playback, com mais de 300 perucas, um figurino enorme. São três caminhões de 11 metros só com material”, enumera. “É uma big produção, as pessoas dizem que é algo que não perde em nada para a Broadway”, comemora.

“E assim como o público viaja, se diverte e relembra fatos, eu também. É uma reflexão sobre tudo que vivi naquela época. Tem sido muito significativo ver que marquei tanto na alma do brasileiro. Não esperava isso na minha vida. Imaginava que aquela época seria uma coisa efêmera da juventude”, revela.

Produtividade

Apesar da resposta positiva do público, ela conta que não foi fácil ser convencida a participar da montagem: foi quase um ano de “namoro”, até aceitar o convite do produtor e diretor Frederico Reder. “Achava que era um compromisso muito árduo e nunca tinha feito um musical”, admite. “Mas quando ele me mostrou o roteiro e eu vi que representaria a mim mesma, acabei aceitando. Achei que íamos circular por quatro meses e agora estamos comemorando quase dois anos”, conta.

Para inserir o projeto na agenda, foram feitas concessões. “Tive que ficar praticamente à mercê do espetáculo. Em algumas situações especiais, eles me liberam e as apresentações param, porque não tem como elas acontecerem sem meus números”, explica.

Ainda assim, com grande parte da semana dedicada à montagem, a cantora de 71 anos consegue encontrar tempo para outras atividades. No fim de 2017, ela publicou a autobiografia “Foi Assim” (Record) e agora prepara um disco de inéditas e um livro de poesias, que devem ser lançados juntos.“Não há previsão (para o lançamento), porque eu ainda não posso entrar em estúdio por causa do espetáculo”, diz. “Mas ontem foi meu dia de folga e fiz uma música que a Marina Lima me mandou. Estamos começando a trabalhar, fazendo uma prévia para facilitar a gravação oficial”, adianta.
E no campo pessoal, Wanderléa ainda tem de incluir outras prioridades. “Estou com uma netinha agora, de cinco meses, uso meu tempo para curti-la também”, diz, orgulhosa.

Serviço: “60! Década de Arromba – Doc. Musical”, hoje e amanhã, às 20h30, e domingo, às 18h, no Sesc Palladium (Av. Augusto de Lima, 420 – Centro). Ingressos de R$ 25 (meia plateia III) a R$ 140 (inteira na plateia I)