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Dirigida por Gabriel Paiva, a peça “Uma Espécie de Alasca” tem uma trama baseada nos estudos do neurologista Oliver Sacks

 

 

 
Poucas horas antes de estrear a temporada paulista da peça “Love, Love, Love”, pela qual ganhou o prêmio Shell de melhor atriz– um dos mais importantes do meio teatral– a mineira Yara de Novaes passa rapidamente no supermercado para, enquanto conversa com a reportagem do Hoje em Dia, comprar uma flor que adornará o camarim do Teatro Vivo.
 
A ação faz parte de um ritual que acontece antes de entrar no palco. Aliás, bem antes, já que tanto ela como Débora Falabella, sua parceira em vários espetáculos, costumam chegar ao local de apresentação cerca de três horas antes do início da peça. Orações, músicas e vestuário fazem parte desta preparação. 
 
“Eu e a Débora somos bastante rezadeiras. Cada espetáculo é diferente e a gente tem que ficar vigilante, pois vamos acrescentando coisas e vai ficando enorme. Sempre fui muito supersticiosa. Vem do berço. Está na minha constituição”, diverte-se Yara, que, além do prêmio recebido há duas semanas, fala nesta entrevista sobre a sua relação com o teatro e a necessidade de interpretar papéis que falem de nossa realidade.
 
Após receber o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), você acaba de ganhar outra importante premiação, o Shell de melhor atriz por “Love, Love, Love”. É mais uma prova de que o caminho que você escolheu, ao mudar-se para São Paulo, montar um grupo e focar no teatro, foi o mais certo?
Na verdade, como estou indo para 52 anos, se eu precisasse de prova poderia desistir da vida (risos). Fiquei feliz com as premiações, mas elas servem mais para ratificar minhas escolhas. Elas conseguiram dialogar com esse destaque feito pela crítica. Tudo passa pela ideologia do ator, das escolhas de vida que ele faz, sobre o seu jeito de estar no mundo. E isso vem muito antes da profissão. É uma necessidade que temos. Já estou em São Paulo há tantos anos, minha carreira está tão sólida, graças a Deus. Claro que esses prêmios vêm colorir mais.
 
E eles ajudam a abrir portas, especialmente em relação a patrocínios, cada vez mais difíceis em tempos de crise?
Não sei, cara. Sempre tive uma receptividade muito boa, mesmo em São Paulo e no Rio de Janeiro (locais onde são concedidos, respectivamente, os prêmios APCA e Shell). Então realmente não vi muita diferença. São os dois prêmios mais importantes do Brasil, é óbvio, o que lhe dá um certo grau... Mas no dia a dia, na dureza de ser ator no país, não vejo diferença.
 
Além de serem feitos pela mesma companhia (o Grupo 3 de Teatro), comandada por você, Débora Falabella e Gabriel Paiva, “Contrações”, pelo qual ganhou a APCA, e “Love, Love, Love” têm em comum o mesmo autor: o dramaturgo inglês Mike Bartlett, que trata das relações de trabalho e de poder. Não é comum, nas companhias teatrais, repetir o mesmo autor em tão pouco tempo, não é verdade?
Quando se tem uma companhia e se escolhe determinados textos para fazer, eles respondem aos anseios daquele grupo. Desde o início do Grupo 3 de Teatro, propomos falar destes dramas super contemporâneos. Bartlett dialoga muito com essa proposta que buscamos. O grande barato dele é aprofundar essas discussões, com diálogos diretos com o público. Ele não é hermético. Muito pelo contrário. Bartlett estabelece um debate na própria cena, aproveitando a cena sob vários pontos de vista. Ter o espectador como interlocutor é, para nós, uma condição para as nossas escolhas. Felizmente, está dando bastando certo. Talvez não ganhássemos prêmios, mas é o que queremos falar.
 
Em “Love, Love, Love”, dirigido por Eric Lenate, uma família convive com as mudanças políticas e comportamentais estabelecidas durante mais de quatro décadas
 
No caso de “Love, Love, Love”, vocês dialogam com vários gerações.
É interessante apresentar uma personagem, ou algumas personagens, e acompanhá-la por mais de 40 anos, e aí você vê o que aconteceu com ela, como foi se modificou com o sistema de coisas e se relacionou com as circunstâncias. Tem um filme do Nikita Mikhalkov, “Anna dos 6 aos 18”, em que ele faz as mesmas perguntas à filha todos os anos, mostrando com as respostas dela a história da União Soviética. O filme “Boyhood” traz isso também de forma incrível. Quando se acompanha uma personagem por tanto tempo, (o resultado) é de uma qualidade humana muito grande. Discutir essa diacronia é o que nos interessa. Assim percebemos de fato a origem de todas as coisas. Por que o rapaz ficou daquele jeito? Por que a mulher deixou os seus ideias para trás? As respostas nunca são objetivas, porque estamos falando de gente, mas vamos dando um pouco mais de pistas.
 
Quando você fala dos anseios do grupo, está incluindo, claro, a Débora Falabella, com quem tem uma parceria de mais de dez anos nos palcos...
E tem o Gabriel Paiva também. A gente começou em 2005, com a peça “A Serpente”. Apesar de diferenças muito salutares, a gente tem em comum, em primeiro lugar, um amor responsável pelo teatro. A gente sabe que o teatro é um espaço em que nós estamos testemunhando o nosso tempo. Somos muito trabalhadores, sobretudo, com uma vontade muito grande de aprender no encontro com outras pessoas, absorvendo novas linguagens.
 
Diferentemente da Débora, que trabalha muito em cinema e TV, você vem focando cada vez mais no teatro. Por que?
Eu atuo, dirijo e dou aula de teatro na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). Acabo muito absorvida e, quando os convites chegam, normalmente já estou envolvida com algum espetáculo. Claro que tudo é fruto de uma escolha, uma circunstância que foi criada por mim. Gosto muito de teatro, é o meu lugar, onde tenho liberdade. Tenho constrangimento com a câmera, não sei lidar com ela. Ainda não aprendi.
 
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A mudança para São Paulo foi importante para essas escolhas?
Acho relativo, porque muita gente boa está aí, fazendo trabalhos importantes, como o Galpão, o Luna Lunera, a Grace Passô, o Espanca, o Corpo. Talvez não tivesse ido (para São Paulo) se uma situação familiar não me levasse a isso. Fui casada com o Fernando (Rocha, apresentador do programa “Bem Estar”) e ele  saiu de Belo Horizonte para trabalhar em Recife e depois São Paulo. Claro que, em São Paulo, rola mais possibilidades, há uma oferta maior de trabalho, mas acredito que o trabalho de pesquisa feito em BH é até mais profundo que aqui. Acho que é preciso dissolver um pouco essas fronteiras. Veja que ganhei um prêmio no Rio, mesmo não morando no Rio. Essas coisas acabam ficando menos importantes.
 
No Festival de Teatro de Curitiba, iniciado na semana passada, Yara de Novaes assina a direção da peça “A Ira de Narciso”, monólogo baseado em texto do dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco e protagonizado por Gilberto Gawronski. O espetáculo será apresentado na quinta e sexta, no Teatro Sesc da Esquina
 
Um traço marcante em vários de seus personagens – e incluo o curta “Samba Canção”, de Rafael Conde – é a mescla de um lado meio sinistro com o humor. Você enxerga essa semelhança também?
Acho que todo ator tem um temperamento em cena. Gosto deste tipo de personagem que, de tão ruidoso, ao expor sua falha, chega a ser risível. Personagens mais angulosos acabam levando ao humor, com uma vida tão desgraçada que podem gerar um pouco de amor. As coisas não podem ser vistas de uma só maneira. Ele não precisa ser sentenciado, julgado. O humor representa um momento em que o espectador começa a ter uma relação amistosa com o personagem. Isso me atrai.
 
Marcantes também são as leituras políticas que as suas peças podem gerar.
Não tem como não falar disso. Não tem como não enxergar o nosso centro. Temos vivido tempos difíceis e em épocas assim as distopias se tornam um traço presente na dramaturgia. Ao imaginar uma realidade, a gente consegue entender de fato o que está acontecendo. Nas artes, isso é muito potente, podendo, inclusive, prever o que vai acontecer. A arte, quando tem uma voz política, realmente pode modificar as circunstâncias.
 
Outra característica importante de seus trabalhos é o fato de terem, geralmente, mulheres em primeiro plano.
Não é por acaso. Sendo mulher, após ver o Brasil no ranking dos países que mais matam mulheres, deixa de ser uma opção. Temos que levar as pessoas a pensarem sobre a nossa condição, sobre a questão do gênero. Quando eu estava fazendo “Casa de Bonecas” (texto de Ibsen), algumas alunas ficaram impactadas com as cenas em que a nora resolve virar o jogo ao quebrar a relação de poder na casa, numa história passada no século 19. Estamos no século 21 e as pessoas ainda se indignam sobre o que é falado ali, considerando a personagem uma pessoa desagradável, fazendo coisas que não deveria fazer. Precisamos ainda falar muito sobre a condição da mulher. Muito mesmo.