Robertlandy Simón poderia ter se tornado jogador de beisebol. Ou decidido não deixar a ilha de Cuba. Para sorte do Sada/Cruzeiro, porém, o gigante sacrificou a chance de disputar uma Olimpíada pelo país e optou pela carreira internacional, com passagens por Itália, Coreia do Sul e Catar.

Contratado com o status de melhor central do mundo, o atleta de 29 anos fez valer a fama. Em uma primeira temporada praticamente perfeita no clube mineiro, o cubano de 2,08m contribuiu de maneira decisiva para os cinco títulos alcançados no período, com destaque para o tricampeonato no Mundial de Clubes e o penta na Superliga.

O desempenho rendeu ainda o prêmio de melhor jogador da posição no Sul-Americano e a presença na seleção ideal do principal torneio nacional.

Neste Papo em Dia, Simón faz um balanço da primeira Superliga pelo time celeste e relembra a difícil decisão de sair do país natal para jogar profissionalmente no exterior.

Você acaba de conquistar o primeiro título na Superliga Brasileira. Como avalia o nível da competição?

É uma liga com bons jogadores, tanto que é a base da atual seleção campeã olímpica. Mas penso que não é muito competitiva. No ano que vem, talvez seja mais parelha. Fizemos uma temporada praticamente impecável, perdendo somente dois jogos. Então, chega um momento em que ela se torna entediante, porque não há um rival forte que faça o enfrentamento direto. Tivemos o mérito de manter a concentração e a confiança, mas sabíamos que a final seria a única partida incerta.

A diferença é muito grande em relação aos outros países onde jogou?

Na Itália, principalmente, a competitividade é muito mais alta. Existem sempre pelo menos quatro ou cinco times muito fortes. Civitanova, Trentino, Modena, Perugia, Verona, Piacenza, Vibo Valentia... São todos mais ou menos iguais, então a disputa é interessante. E, mesmo contra as equipes que estão atrás, é difícil jogar fora de casa. Quando você está disputando um playoff, vai sempre muito tenso, porque o risco de perder é grande. Na Coreia, as finais têm sido entre os mesmos times [o país tem apenas três campeões em 13 edições], mas os jogos são sempre decididos pela diferença mínima. Aqui no Brasil, não. Sesi e Taubaté são os únicos com alguma força além do Cruzeiro. Como está, para mim, não é uma liga forte.

É uma liga com bons jogadores, tanto que é a base da atual seleção campeã olímpica. Mas penso que não é muito competitiva. Chega um momento em que ela se torna entediante”

Você enfrentou o Cruzeiro no Mundial de 2014, em Belo Horizonte, pelo Al-Rayyan (Catar). Aquele torneio te influenciou a vir jogar no clube?

Não. Na verdade, o que influenciou foi a presença do Leal aqui. Sempre mantivemos contato, e eu via que eles tinham uma maneira de jogar diferente, e que eram praticamente uma família. Eles perderam esse Mundial, mas, nos outros (2013 e 2015), jogaram bem e ganharam. Lá da Coreia, eu os assistia nas competições importantes e acompanhava constantemente os resultados. Era difícil ver a liga brasileira, até mesmo pela internet, mas os torneios internacionais, sim. Quando me ofereceram de vir jogar no Cruzeiro, conversei com o Leal. Ele falou que continuaria no time, então eu disse ‘tá bom, vou jogar com você aí’.

Já se sente bem adaptado à cidade?

Sim, estou gostando muito. A comida é super boa, sempre muito boa (risos). O que mais gosto é de sair para jantar, pois tem muitos bons restaurantes. Mas acabo ficando muito tempo em casa, descansando.

Simón

Campeão americano e vice mundial, central abriu mão de disputar Olimpíada e não atua por Cuba há sete anos

 

Você veio para um clube que tem originariamente um grande time de futebol. Gosta do esporte?

Sim, gosto muito. Não conheço o futebol brasileiro, porque em Cuba nunca se transmitia nada. Mas eu tinha o costume de ver os jogos do Barcelona. Lá, passava praticamente só futebol espanhol, italiano e inglês. Na Itália, cheguei a ir conhecer os campos de Milan, Juventus e Gênova. Aqui em Belo Horizonte, gosto do time, mas não assisto muito, por isso não me considero um torcedor.

Chegou a praticar outras modalidades na infância e adolescência em Cuba?

Minha mãe dizia que eu seria um esportista frustrado, porque sempre estava jogando beisebol por lazer (risos). Basquete e futebol também, bastante. Acho que joguei todos os esportes que têm uma bola. Gosto de todos por diversão, mas me dediquei mesmo somente ao vôlei.

Sente saudade de atuar pela seleção do seu país?

Sinto falta, sim, porque jogar pela sua seleção é uma coisa muito bonita. Representar o seu país é algo sempre muito significativo. E, além disso, pelo impacto que tem na carreira de qualquer atleta. Uma disputa de Liga Mundial, por exemplo, te leva a jogar em vários outros países, contra times de alto nível. Foi sempre muito bonito.

Se eu decidir permanecer aqui no Brasil ou em outro país fora, não será por qualquer questão política ou econômica. Não tenho nenhum problema em relação a Cuba”

Deixar Cuba para jogar no exterior foi uma decisão difícil?

Sim, dificílima. Primeiramente, por ter que deixar minha família para trás e ir viver sozinho em algum lugar. Depois, pela decepção de deixar a seleção nacional e, com isso, não poder mais disputar uma Olimpíada. Eu já havia jogado o Mundial e praticamente todas as competições possíveis, mas nunca os Jogos Olímpicos. Então, foi ainda mais difícil por isso.

[*Cuba só aboliu em 2014 o veto a atletas em clubes do exterior. A regra antiga os obrigava a ficar dois anos afastados do esporte e, ao deixar a ilha, abrir mão da seleção.]

Já pensou em fazer como o Leal e se naturalizar por outro país?

Não. Aqui no Brasil, inclusive, seria impossível jogar pela seleção. Mas eu nunca pensei nessa possibilidade, por qualquer país que seja.

[** Cada país só pode registrar um jogador naturalizado que tenha atuado por outra confederação. No Brasil, Leal foi inscrito no início deste mês e poderá atuar pela seleção a partir de 2019.]

Onde você pretende viver após encerrar a carreira? Pensa em voltar para Cuba após esses anos fora do sistema socialista?

Ainda não sei onde vou morar depois. Mas, se eu decidir permanecer aqui no Brasil ou em outro país fora, não será por qualquer questão política ou econômica. Não tenho nenhum problema em relação a Cuba.

Sente muitas diferenças entre aqui e lá?

É difícil comparar, mas tem muitas coisas boas e muitas outras ruins lá, exatamente como é no Brasil. Em Cuba, você tem o consumo limitado em algumas coisas. Por outro lado, tem toda a medicina gratuita e a qualquer hora, e o nível de violência é praticamente zero. As armas de fogo são controladas, você deixa o seu filho na rua brincando sem se preocupar, porque ninguém vai mexer com ele. Aqui, vocês têm esse problema grave da segurança. Então, nesses aspectos, por exemplo, lá é melhor.

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