Mais do que acostumado às arriscadas manobras no ar, o hexacampeão mundial Sandro “Mineirinho” Dias tem se adaptado a novos desafios desde outubro do ano passado, quando assumiu a diretoria esportiva da Confederação Brasileira de Skate (CBSk).

Presidida pelo também multicampeão Bob Burnquist, a nova gestão assumiu o comando da entidade em um momento bastante conturbado, após o Comitê Olímpico do Brasil (COB) ter apontado a Confederação Brasileira de Hockey e Patins (CBHP) como representante do skate nacional na preparação para os Jogos de 2020.

Com a resolução da crise que colocou em risco a presença das principais estrelas das rodinhas em Tóquio, o atleta de 42 anos projeta o Brasil disputando o lugar mais alto do pódio em todas as categorias, tanto no masculino quanto no feminino.

Dono de três medalhas de ouro, três de prata e uma de bronze nos X-Games (a “Olimpíada” dos esportes radicais), Mineirinho revela neste Papo em Dia o desejo de concorrer a uma vaga na edição de estreia do skate nos Jogos, mesmo reconhecendo uma grande concorrência com a nova geração.

 

Você integra hoje a diretoria “menos engravatada” do Brasil. Como tem sido lidar com esse outro lado do esporte?

Para mim, é tudo novidade. Quando recebi o convite, agradeci ao Bob e disse “olha, eu não entendo nada dessa parte”. Aí ele respondeu “eu também não” (risos). Mas tem pessoas lá para nos ajudar, que já conheciam muito bem a burocracia e o funcionamento das federações. Precisamos comprar umas gravatas para as reuniões mais importantes (risos). Brincadeira. Nós vamos do nosso jeito, com o skate debaixo do braço. Não adianta querer mudar, tentar ser diferente. Temos é que chegar lá e ter uma conversa produtiva, com embasamento. Estamos sendo bem recebidos pela maioria.

Quando recebi o convite, agradeci ao Bob e disse ‘olha, não entendo nada dessa parte’. Aí ele respondeu ‘eu também não’. Precisamos comprar umas gravatas para as reuniões (risos)”

A disputa com a CBHP foi a motivação para montarem essa diretoria?

A nossa confederação sempre trabalhou muito, por amor e, principalmente, sem receitas. E isso já rolava há quase 20 anos. Nós sabíamos que iriam aparecer oportunistas nessa hora (entrada na Olimpíada), só que isso aconteceu até rápido demais. Por mais que a nossa antiga diretoria fosse muito respeitada pela galera do skate, não tinha um nome forte para bater na porta do COB. Por isso, resolvemos mudar e colocar nomes que têm uma importância. Com o Bob é diferente, ele chega lá e fala “eu sou o presidente da confederação”. Na primeira semana, ele já estava reunido com o governador de São Paulo. Se não fizéssemos isso, não pegaríamos de volta nunca. Quem vive do skate era contra a CBHP. Quem é da minha geração para a frente sabe que eles nunca fizeram nada pelo esporte.

Você tem vontade e se vê em condições de tentar disputar os Jogos de Tóquio, aos 45 anos?

Apesar de não ser a minha especialidade (vertical), a Olimpíada terá o park. Vamos ver como será a classificação. Temos uma nova geração muito forte, mas acho que eu teria condição de tentar e talvez até de disputar de igual para igual com a molecada. Vontade eu tenho. Participei da cobertura dos Jogos de Inverno de Vancouver (2010), pelo portal Terra, e pude sentir o tal espírito olímpico. É realmente uma sensação diferente, mesmo se comparada aos maiores eventos do mundo.

 

 

Já é certo que o Brasil terá 12 vagas em Tóquio?

Estamos esperando saírem as regras e o sistema de classificação, porque isso vem lá de fora (Comitê Olímpico Internacional e World Skate). Nem nós sabemos ainda como vai funcionar a seleção. A princípio, teríamos 12 vagas, mas isso também está indefinido, porque Brasil e Estados Unidos têm muito mais representantes, então eles podem aumentar o número de vagas para esses dois países.

A torcida brasileira pode apostar em pódios?

Se a Olimpíada fosse neste ano, o Brasil disputaria a medalha em todas as categorias, no masculino e no feminino. E, quando eu digo medalha, é a de ouro. Temos muita gente boa. Pedro Barros, Luan Oliveira, Kelvin Hoefler, Ivan Monteiro, Carlos Ribeiro, Murilo Peres, Italo Penarrubia... Leticia Bufoni e Pamela Rosa entre as meninas... Mas, como eu disse, se fosse hoje. Daqui a dois, três anos, tudo pode mudar. Acredito que podem aparecer muitas caras novas até lá. Só espero que as classificatórias sejam bem democráticas, dando oportunidade para todo mundo poder tentar.

Se a Olimpíada fosse neste ano, o Brasil disputaria a medalha em todas as categorias, no masculino e no feminino. E, quando eu digo medalha, é a de ouro”

Como a comunidade do skate reagiu à entrada na Olimpíada? Houve resistência também, não é?

Fiz parte da primeira formação do Comitê Olímpico para o skate, por volta de 2003, representando a América do Sul. A ideia era colocar já nos Jogos do Rio, por causa da grandiosidade do skate no Brasil, e desde aquela época apareceu gente contra, falando que iria estragar, tirar a essência do esporte. Mas quem fala isso são pessoas que não dependem do skate para viver, que não pensam como profissionais. Eu, por exemplo, já tive loja, tenho uma marca e um camp de esportes radicais para crianças. Tudo que faço é relacionado ao skate. Então, sempre acreditei que os Jogos trariam coisas positivas, mídia, patrocínios, público, praticantes... E o mercado, consequentemente, iria melhorar com isso. É lógico que, se a Olimpíada viesse para interferir e mudar o esporte, seríamos os primeiros a pular fora. Vai ser legal.

Já pôde perceber alguma dessas mudanças positivas desde o anúncio? Ainda vê algum preconceito com o skate?

Logo que anunciaram (em junho de 2016), aumentou a procura dos pais ligando, querendo mandar os filhos para o meu acampamento, por exemplo. Esse tipo de coisa dá uma credibilidade a mais para o esporte. Mas, se é que ainda existe algum tipo de preconceito, isso deve acontecer com pessoas totalmente desinformadas, que não sabem que o skate é o segundo esporte mais praticado do país há mais de dez anos.

Sandro Dias Mineirinho skate

Desde outubro de 2017, Mineirinho exerce o cargo de diretor esportivo da Confederação Brasileira de Skate

 

Você mora atualmente na Califórnia (Estados Unidos), no “olho do furacão” do skate. Existe muita diferença em relação à prática do esporte no Brasil?

Realmente, em um raio de 10 milhas (16 km) da minha casa, tem seis half pipe e mais umas dez pistas. Estou no centro da cena do skate vertical, a cinco milhas da casa do Bob, do Elliot Sloan e do Tony Hawk. Tem uma comunidade até boazinha aqui (risos). Mas, sendo bem sincero, o half pipe que eu tenho no Brasil não deixa nada a desejar em comparação aos do exterior.

Você nasceu em Santo André (SP). De onde veio o apelido “Mineirinho”?

Meu pai é mineiro, por isso um tio me chamava assim. Quando fui participar do meu primeiro campeonato, tive que preencher uma ficha e colocar um apelido. Eu disse “não tenho”, aí minha mãe falou “coloca Mineirinho mesmo”. No segundo campeonato, o apelido já tinha pegado.

Você “divide” esse apelido com o Adriano de Souza, do surfe. Já houve algum caso curioso devido a essa coincidência?

Eu sou uns dez anos mais velho. Conheci o Adriano quando ele tinha uns 12, e ele já tinha o apelido desde pequeno também. Sempre foi engraçado. Quando ele foi campeão mundial (2015), aconteceu de pessoas chegarem até mim achando que estavam falando com o Mineirinho do surfe. Já perguntaram também se éramos irmãos, dizendo que nos achavam parecidos (risos).

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