No primeiro dia de reunião do Comitê Executivo do Comitê Olímpico Internacional (COI), em Lima, capital do Peru, o presidente da entidade, o alemão Thomas Bach, teve que dar uma entrevista coletiva nesta segunda-feira e admitiu que pode ter havido compra de votos para a eleição do Rio de Janeiro para ser sede dos Jogos de 2016, realizada em 2009 na cidade de Copenhague, na Dinamarca. O dirigente revelou que o COI já faz parte das investigações do caso tanto no Brasil como na França.

"Desde esta manhã (de segunda-feira) que os nossos advogados estão em contato com as autoridades judiciais brasileiras. Uma vez provada alguma evidência, nós vamos agir", afirmou Thomas Bach, que disse não ter tido qualquer contato com Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Rio-2016 e do Comitê Olímpico do Brasil (COB), um dos investigados pelos Ministérios Públicos do Brasil e da França.

"Há alegações sobre o Sr. Nuzman. Ele não foi acusado até agora. É preciso deixar tudo às claras e então uma ação será tomada pelo Comitê de Ética do COI", disse o dirigente alemão. "Poucos dias depois das evidências mostrarem a culpa de Diack (Lamine, ex-presidente da IAAF - Associação Internacional de Federações de Atletismo, na sigla em inglês -, e outro dos acusados), o Comitê Executivo do COI entrou em ação e ele perdeu o seu cargo (em 2015)".

Thomas Bach disse ser uma "parte interessada" na resolução do caso. "Queremos descobrir tudo, tudo o que pode nos afetar. Por isso somos parte nos inquéritos no Brasil e na França. Cada um tem um julgamento sobre a imagem de alguém. Você pode gostar de alguém e seu amigo, não. Não podemos atuar com base no julgamento da imagem de uma pessoa, mas sim em evidências", comentou.

O dirigente alemão lembrou que a credibilidade é a chave de tudo para o COI. "Acho que fomos claros na declaração de que a credibilidade é extremamente importante. Não só nas competições, mas também na organização das competições. Isso faz parte da agenda 2020. Mudamos o processo de candidatura, temos novas regras, mas isso não nos faz imune. Nenhuma organização é, nenhuma lei é perfeita. Temos regras, mas qualquer lei pode ser quebrada", afirmou.

A entrevista coletiva de Thomas Bach aconteceu horas depois de o COI abrir pela primeira vez uma brecha para reconhecer que votos podem ter sido comprados para sediar Jogos Olímpicos no passado. "O Comitê Executivo do COI reafirma hoje que é claro que violações ocorridas no passado também serão lidadas", disse a entidade, por meio de um comunicado. "Com relação às investigações sobre o ex-presidente da IAAF, Lamine Diack, e seu filho, procuradores franceses declararam que existem indícios de que pagamentos foram feitos em troca de votos "sobre a designação de cidades sedes para os maiores eventos esportivos do mundo".

Lamine Diack está no centro do escândalo brasileiro, depois que procuradores franceses e brasileiros identificaram pagamentos em seu nome a partir de operadores da campanha do Rio de Janeiro. Entre os suspeitos está Carlos Arthur Nuzman, considerado pelo presidente do COI como seu "grande amigo".

A nova postura do COI foi interpretada por dirigentes da entidade como um sinal claro ao COB de que o está abandonando e que não mais o protegerá. Em meados do ano, quando Carlos Arthur Nuzman pediu mais dinheiro para preencher o rombo financeiro dos Jogos de 2016, a entidade em Lausanne, na Suíça, também havia se recusado a fazer um novo pagamento.