O pretendente certo para levá-la ao altar ainda não apareceu. Porém, não há nada que mude uma decisão da ex-ginasta Daiane dos Santos para quando isto acontecer. “Brasileirinho”, canção composta por Waldir Azevedo e tema de grandes momentos da gaúcha no esporte, fará parte do repertório da cerimônia.

Única brasileira a se tornar campeã mundial nas ginástica artística – feito conquistado em 2003, na cidade de Anaheim, nos Estados Unidos –, Daiane virou exemplo para as gerações seguintes. Aos 34 anos, sendo quase cinco deles fora do esporte, a porto-alegrense “mudou de lado” e, como comentarista de televisão, atualmente treina para analisar atletas em atividade. Contratada pela Rede Globo há três anos, Daiane passou a enxergar o mundo com o olhar de jornalista e senti-lo com o coração de ex-atleta.

Neste Papo em Dia, ela fala sobre a história construída na ginástica artística, comenta o descaso do poder público com o Parque Olímpico do Rio de Janeiro após os Jogos e relembra momentos importantes dos 18 anos em que se dedicou ao esporte.

Você se adaptou à vida de comentarista de televisão? Após três anos na área, entende de outro jeito as críticas dos jornalistas, agora seus companheiros de equipe?

Tenho feito muitas coisas agora. Hoje, entendo muito mais. Tenho tido o prazer de trabalhar com pessoas excelentes nessa área, tenho aprendido muito e vejo o esporte de uma outra forma.

O Parque Olímpico está em estado de abandono em determinadas áreas. Como você enxerga esse descaso com a casa do esporte mundial em 2016?

A situação é realmente muito complicada. É um lugar muito grande, que precisa ser utilizado da melhor forma possível. Tinha um destino traçado para as áreas esportivas, mas pode ter atrasado por conta da crise no Rio de Janeiro e também a troca no governo. Tenho a esperança, a mesma dos atletas e ex-atletas, de que possam reutilizá-lo.

É impossível falar da ginástica sem citar o seu nome. Como você lida com isso? Concorda que a sua geração mudou o patamar da modalidade no país?

Tudo foi uma crescente. As gerações antes da minha fizeram um caminho para chegarmos aonde chegamos. Elas não tiveram investimento e nem apoio da mídia, como nós tivemos. O formato novo da seleção, dando a possibilidade de as atletas treinarem da mesma forma, ajudou muito. Isso gerou uma competitividade saudável entre todas. Eu olhava para a Laís (Souza) e me inspirava nela, e queria ser tão boa quanto ela. A gente tinha o Oleg (Ostapenko) e outros grandes treinadores brasileiros, e isso dava uma qualidade muito grande ao trabalho. Isso nos trouxe resultados. Pudemos competir lá fora. A minha geração foi um divisor de águas. O que me deixa mais feliz foi que tudo isso continuou.

Uma das maiores honrarias do atleta é ter o nome na história do esporte, e isso eu tenho. Ver atletas do mundo inteiro executando elementos que levam meu nome é gratificante. Vi isso de perto nos Jogos do Rio. Acho bacana ouvir o 'Dos Santos'. É uma homenagem para minha família e todos os brasileiros, porque é o sobrenome mais comum do país"

A vida do ginasta às vezes é ingrata. Um segundo de erro pode custar vários anos de trabalho. Como você lidou com os momentos de queda?

É a vida do atleta. A gente treina para acertar, mas os erros acontecem. Competimos com atletas do mundo todo. Um dia você ganha, no outro você perde. A derrota serve para que você reavalie seus erros e veja onde pode mudar e fazer diferente na próxima competição.

Você tem três Olimpíadas no currículo. Atenas, por ter sido a primeira da história com a equipe completa, foi a mais especial?

Todas elas tiveram algo especial. Em Atenas, a gente era muito nova e, como você disse, foi a primeira vez que estávamos com a equipe completa. Em Pequim, a gente estava em ascensão, pois tinha conquistado o quinto lugar no Pré-Olímpico, na Alemanha. Foi a primeira vez que entramos numa final por equipes. Londres foi a minha última como atleta. Ali (em uma edição de Olimpíada) estamos entre os melhores do mundo e podemos nos considerar campeões.

“Brasileirinho” foi seu tema durante um bom tempo. Depois da aposentaria, essa música continua no seu playlist?

Foi a primeira música brasileira que eu usei. Nos lugares que eu vou, as pessoas ainda tocam. Até no meu escritório a gente escuta. Eu brinco que, quando casar, vai ter que ter Brasileirinho. Não sei em que momento, vai ter que ter.

Leia mais:
Confira outras entrevistas publicadas no especial Papo em Dia

Em 2009 veio o doping, que te tirou de ação por cinco meses. Foi o momento mais complicado da sua carreira? Como conseguiu superá-lo?

Na época eu não podia nem treinar, pois estava lesionada desde 2008. Só fui liberada da cirurgia no comecinho de 2011. Então, além da suspensão, eu fiquei um ano e meio de molho. É uma situação chata, incômoda, em que a gente fica imaginando o que as outras pessoas estão pensando. Quando você é um atleta correto, você reage diferente. Graças a Deus, tenho uma família boa, amigos incríveis e outras pessoas. Com isso, conseguimos mostrar a verdade.

Como você vê a renovação da ginástica no Brasil? Os projetos sociais existentes podem revelar novas Daianes? E os clubes? Eles têm cumprido bem o papel?

Deixar este papel apenas para os clubes realmente é pesado. Ainda estamos bem atrás da Europa e da Ásia. Temos muita coisa a aprender. Os projetos sociais têm o papel de dar oportunidade e usar o esporte como uma ferramenta educativa. A partir do momento que você dá esta chances, principalmente em regiões mais carentes, vai descobrir novos talentos. É um trabalho de parceria, a iniciação em projetos e o alto rendimento, para que esta pessoa seja transferida para um grande clube, como o Minas e o Pinheiros, por exemplo.

Como se sente vendo ginastas do mundo inteiro tentando executar o duplo twist carpado e o duplo twist esticado?

Eu fico muito feliz! Uma das maiores honrarias do atleta é ter o nome gravado na história do esporte, e isso eu tenho. Ver outros atletas do mundo inteiro executando elementos que levam meu nome é muito gratificante. Vi isso de perto nos Jogos do Rio. Acho muito bacana ouvir o “Dos Santos”. É uma homenagem para a minha família, que sempre esteve comigo nas alegrias e nas tristezas, e também para todos os brasileiros, porque é o sobrenome mais comum do país.

Faltou uma medalha olímpica para coroar essa bela carreira?

Não posso dizer que não gostaria de ter ganhado uma medalha olímpica. Inclusive, trabalhei 18 anos da minha vida para isso. Mas eu sou muito grata por tudo que conquistei na minha carreira. Não posso ser ingrata, pois tive muitas conquistas e muito mérito em cada uma delas. Não levar isso em conta desmerece tudo que eu fiz e também quem trabalhou comigo.

Daiane dos Santos