Comentarista, palestrante, coordenador de projeto social, youtuber, presidente da Comissão de Atletas da Federação Internacional de Voleibol e, agora, diretor de um novo time profissional. A versatilidade e intensidade características da carreira de Giba seguem acompanhando o medalhista de ouro três anos após a despedida definitiva das quadras.

Hoje aos 40, o lendário camisa 7 não se vê longe do esporte, no qual tem o nome eternizado com mais dois pódios olímpicos, seis prêmios de melhor jogador do mundo e dezenas de títulos ao longo de duas décadas defendendo a Seleção Brasileira.

Neste Papo em Dia, o ídolo fala sobre os projetos atuais, a campanha em Atenas-2004, a hegemonia do Sada/Cruzeiro e a passagem vitoriosa pelo Minas Tênis Clube, entre outros temas.

O seu envolvimento direto no projeto do novo time Madero/CWB é só mais uma prova de que não pretende, ou não consegue, ficar longe do vôlei?

Fora do vôlei, definitivamente, eu nunca estive. Antes mesmo de parar de jogar, já estava desenvolvendo o ‘Gibinha’, meu projeto social contra a obesidade infantil. E, no ano passado, assumi a presidência da Comissão Mundial dos Atletas. Só estava afastado do vôlei profissional. Voltei a morar em Curitiba, e aí surgiu o convite do Clésio Prado (técnico) e da Gisele Miró (coordenadora). Conseguimos engajar a cidade, outros patrocinadores, e todos abraçaram de prontidão esse projeto. Aceitei o convite porque é um desafio muito grande, e eu continuo chegado a um bom desafio (risos).

“Naquele time (Atenas-2004), todos eram referências. Quando íamos para os clubes, ninguém ganhava nada. Mas, quando a gente se juntava, ninguém conseguia nos parar. Juntos, formamos o time perfeito”

Como se sentiu ao acompanhar a Seleção nos Jogos Rio-2016, por ser a primeira Olimpíada após a sua despedida?

Foi sossegado. Como comentarista da TV Globo, eu estava ali próximo, mesmo não estando dentro da quadra, e isso fez com que eu não sentisse tanto. Preparei bem a minha cabeça antes de parar, a minha aposentadoria foi planejada. Aconselho isso a todos os atletas, pois, se você não parar, vão parar com você. Fica feio para o atleta, começa a não ter contrato mais, a te empurrarem para lá e para cá. O atleta deve ser lembrado como ele era no auge, porque todo mundo vai ficar velho, não adianta.

Qual era o segredo daquele time de 2004? E, individualmente, o que te dava confiança para ser a ‘bola de segurança’ e referência em quadra?

Na verdade, naquele time, todos eram referências. Teve campeonatos em que eu não estava bem, aí o André Nascimento se destacava, ou o Gustavo... O Gustavo teve 100% na Olimpíada. Então, eu discordo um pouquinho. Usando uma frase do próprio Gustavo, quando íamos para os clubes, ninguém ganhava nada, mas quando a gente se juntava, ninguém conseguia nos parar. Éramos uma unidade, e juntos formamos um time perfeito, o melhor dos últimos tempos.

 

Em entrevista recente ao site Esporte Ponto Final, você elegeu o Top 5 do vôlei mundial com Carlão, Giani, Kiraly, Renan e Cantagalli. Se fôssemos acrescentar um nome para completar a ‘seleção de todos os tempos’, seria o seu?

Ah, até poderia. Mas, para formar um time de verdade, a gente precisaria ter uns dois centrais aí, porque só tem ponteiro, pô (risos)! O Carlão ainda poderia jogar de oposto e central... O Bas Van de Goor também foi um jogador excepcional, ficou de fora... Mas pode ser, eu agradeço. A gente nunca costuma achar ou dizer que é bom, precisamos sempre buscar e demonstrar.

Qual é a lembrança mais especial da sua passagem por Belo Horizonte, entre 1999 e 2001?

Eu estava vindo de duas finais com derrotas na Superliga, e os dois títulos brasileiros que tenho foram pelo Minas, então foi um momento muito especial da minha carreira. Lembro com carinho. Fiz grandes amigos em Belo Horizonte, mantenho alguns até hoje. Eu costumo falar que a torcida mineira é impressionante, pois ela é capaz de discutir voleibol como discute futebol. A gente sentia muita diferença, não tem isso no Brasil. As pessoas discutiam posicionamentos, táticas... Isso é muito gratificante para o atleta.

“Os meus dois títulos brasileiros foram pelo Minas, então foi um momento muito especial da minha carreira. A torcida mineira é impressionante, pois ela é capaz de discutir voleibol como discute futebol”

Atualmente, temos aqui o fenômeno Sada/Cruzeiro. Acredita que o time vai manter a hegemonia nesta temporada?

O Mendez (Marcelo, técnico) faz um trabalho absurdo, e não é de hoje. Comparando, eu costumo falar que a nossa geração chegou porque todos estávamos juntos em 1993, na Seleção Infanto. A gente sofreu junto. Esses meninos do Sada Cruzeiro também passaram por muito perrengue antes de serem os campeões que são hoje, então eles dão muito valor. O Mendez sempre demonstrou isso para os mais novos e sempre soube misturar experiência com juventude. É por isso que continua mantendo essa hegemonia, com três títulos nos quatro últimos Mundiais. Só por isso você já vê como o trabalho é bem feito, desde a base.

Vê algum time em condições de fazer frente?

Acho que sim. Tivemos jogos duros, outros times também tiveram a chance. A experiência e a união do Sada Cruzeiro é que não deixaram. Isso demonstra ainda mais que os outros times precisam trabalhar bastante para vencê-los. Isso é nítido. Era assim com a gente na Seleção. Faziam bolão para ver quem ia para a final com o Brasil. Hoje, na Superliga, é mais ou menos assim. Chega uma hora que esse domínio acaba, é natural. Mas espero que o Mendez continue fazendo um bom trabalho. A hegemonia pode acabar, mas o importante é ele continuar provando que o trabalho bem feito vale a pena.

Giba no Minas Tênis Clube

Ponteiro (à frente) foi bicampeão da Superliga Masculina pelo Minas Tênis Clube (1999 e 2000)

 

Isso vale para a Seleção também, agora sob comando do Renan?

Exato. É o que está acontecendo com o Brasil. Fez de novo a final da Liga Mundial, depois foi campeão Sul-Americano. Perdeu para a França, tudo bem, mas estava lá na final de novo. O nosso voleibol sempre foi gerido por pessoas como o Nuzman (Carlos) e o Ary (Graça), que vieram da iniciativa privada, então o trataram como uma empresa. Isso fez com que se mantivesse tanto tempo no topo.

Quem é o ‘sucessor do Giba’ na Seleção?

Ah, eu não gosto de fazer essas comparações. Mas algumas pessoas já me comparam ao Lucarelli. É um jogador com a total condição de despontar e ser até mais do que o Giba, não tenha dúvida disso.

Você se filiou ao PSDB em 2013. Tem alguma pretensão de concorrer a um cargo político?

Não, nenhuma, zero, zero. Me filiei por um pedido do meu pai, que é filiado, foi só isso. Não tenho a mínima vontade. Hoje, só penso em me dedicar ao vôlei e à parte burocrática do vôlei, para que o esporte melhore cada vez mais.

Para concluir, qual é a principal mensagem que você tenta passar nas suas palestras?

Eu não faço a mesma palestra para todas as empresas, pois elas têm realidades e demandas diferentes. Mas, resumindo, costumo falar bastante da importância de sair da zona de conforto e do trabalho em equipe. No mundo corporativo, assim como no esporte, o individual nunca vai prevalecer perante o coletivo.

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