Jornalista, radialista, deputado estadual (PDT) e presidente do América. Polivalente, falastrão – no bom sentido do termo – e personagem marcante no futebol mineiro, Alencar da Silveira Júnior se prepara para deixar a cadeira mais importante do clube de coração e se diz orgulhoso do legado de sua gestão.

Após o título do Campeonato Mineiro de 2016, encerrando um jejum de 14 anos, e dois acessos para a Primeira Divisão do Brasileiro, possivelmente com o título da atual edição da Série B, o dirigente tem a convicção de que o Coelho está maduro para não ser rebaixado novamente.

Nesta entrevista ao Hoje em Dia, Alencar faz um balanço do mandato, projeta as próximas temporadas alviverdes e revela detalhes do novo Centro de Treinamento que está prestes a sair do papel.

O América será campeão da Série B?
Claro! Desde o início do ano, trabalhamos para isso. Na verdade, desde que cheguei à presidência, deixei bem claro que não deixaria o clube do jeito que encontramos. Quando chegamos, encontramos o clube para baixo, numa situação difícil, e entramos para fazer uma administração moderna e eficiente. Dividimos as funções entres os membros do Conselho Administrativo para tal. Chegar hoje neste patamar e desta maneira é um sonho realizado. Mesmo com toda dificuldade do último ano (rebaixamento), nunca esquecemos que existe um ano depois. Disputar a Série A com um orçamento de R$ 18 milhões é cruel, enquanto Atlético e Cruzeiro têm R$ 250 milhões. 

Qual foi o maior erro cometido em 2016? A troca de treinadores?
Na minha opinião, não tínhamos que ter demitido o Givanildo naquela hora (quinta rodada do Brasileiro), mas temos um Conselho que deve ser respeitado. Se acertamos juntos, erramos juntos também. Erramos ao trazer um diretor de futebol (Sidiclei Menezes) que não tinha tanta vivência na Série A, mas que, por outro lado, nos ajudou muito a profissionalizar o clube com suas dicas. Demoramos também a demitir o Sérgio Vieira. Aquela era a hora de trazer um treinador brasileiro que conhecesse mais os jogadores.
 

“Lançaremos em breve o grande projeto que é o Planeta América. Teremos o melhor Centro de Treinamentos não só de Minas, mas da América do Sul. Haverá dez campos, um pequeno estádio, hotel e concentração”
 

 

E o maior acerto?
Com certeza, as chegadas do Enderson Moreira e do Ricardo Drubscky. O Ricardo, inclusive, foi contratado para ser apenas diretor de futebol, e nunca treinador em caso de necessidade. Deixamos isso bem claro para ele, e deu certo. 

O que fazer em 2018 para não passar por um novo rebaixamento à Segunda Divisão nacional?
Temos que usar toda a nossa experiência. Eu não estarei mais na presidência, mas o Marcus Salum terá condição de fazer um bom futebol sem se preocupar com a parte financeira. Temos pessoas capacitadas em todas as funções. Não teremos dinheiro para esbanjar, mas poderemos fazer um campeonato honesto. As dívidas estão equacionadas, e não teremos surpresas negativas quanto a isso.

Quanto deve o América?
A dívida não chega a R$ 20 milhões. Está tudo equacionado, diferente de outros clubes.

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O planejamento para 2018 já está sendo feito?
Estamos começando a conversar. Vamos falar disso quando o juiz apitar o final do jogo contra o CRB-AL (última rodada da Série B). Vamos passar por uma transformação (na diretoria) e teremos uma nova dinâmica. Mas conseguimos fazer uma família. Isso é o grande trunfo para o futebol. Trouxemos jogadores que quiseram vestir a camisa do América. Ninguém faz favor nenhum de estar aqui.

Enderson fica?
Tenho conversado muito com o Enderson. Ele está tranquilo e não fala nada. Se não ficar, teremos que trazer um treinador com o mesmo pensamento e metodologia.

Você não cumpriu algo que prometeu?
De tudo que falei, só não acertei que disputaríamos a Libertadores. Contudo, tenho certeza que em breve o América estará disputando uma competição internacional. Estamos muito mais encaixados e sabendo o que fazer na Série A. Aprendemos no ano passado e isso foi muito valioso para o que vai acontecer nos próximos anos. Deixando claro que não fiz nada sozinho.

E fora de campo? Alguma grande novidade?
Lançaremos até o final do ano o grande projeto que é o Planeta América, que deverá ser lançado este ano ainda. Teremos o melhor Centro de Treinamentos, não só de Minas Gerais, mas da América do Sul. O planejamento foi feito com muito vigor, aproveitando tudo o que tem de bom nos CTs de outros grandes clubes. Vamos trazer as categorias de base para o Lanna Drummond. Em dois anos estará tudo pronto. Vamos ter dez campos, um pequeno estádio, hotel, concentração e outras coisas. Só dependemos de questões burocráticas na prefeitura de Contagem.

 

De tudo que falei, só não acertei que disputaríamos a Libertadores. Contudo, tenho certeza que em breve o América estará disputando uma competição internacional. Nós estamos mais encaixados e sabendo o que fazer na Série A. Aprendemos no ano passado, 
e isso foi muito valioso”

 


Na sua gestão, o América foi campeão estadual após 17 anos de jejum e, agora, pode levantar o caneco da Série B, vinte anos após a primeira conquista. O que isso representa para você?
É um sonho realizado; não só meu, mas de todo o Conselho Administrativo. Fomos muito criticados, mas ninguém pode mais falar nada. Ficamos muito felizes por termos conquistado o que vários presidentes que passaram sonharam.

Em que o jeito “doido” do Alencar nos microfones ajuda dentro do grupo de jogadores? 
Ajuda muito com os jogadores. Na terça-feira (antes do duelo contra o Juventude) eu cheguei no vestiário e falei: “puta que pariu, nosso campeonato começa agora!”. O Enderson falou que o time estava muito cansado e que o objetivo principal já estava conquistado, que era o acesso. Disse que se o título não viesse não tinha problema. Eu deixei ele acabar de falar e disse que não tinha ninguém cansado e que entramos no campeonato para ganhar. Foi uma farra danada. Todos riram.

O baixo público na maioria dos jogos é uma decepção? A torcida precisa abraçar mais o time?
A torcida tem que começar a imaginar que precisa ir mais. Precisamos renovar. Estamos tentando descobrir uma fórmula de fazer torcedores. Temos uma torcida fiel, que cobra muito, mas pequena. Ela sabe respeitar e sofrer como sofremos. Ser americano é torcer para um time de pai. O meu me levava ao campo, assim como faço com meu filho. 

“O futebol feminino é uma coisa que deu certo. É o charme e a alegria de toda a torcida. Fomos campeões, e tenho certeza que seremos novamente. A gente 
foi pioneiro deste projeto antes da obrigatoriedade. Daqui a pouco, todos os outros clubes terão que fazer o mesmo”


Com a construção da Arena do Galo, qual o futuro do Independência?
É só usar a criatividade. O América não tem que se preocupar com isso agora; quem tem que estar preocupado é o Governo, o principal culpado. Propus ao governador que passasse o Independência e Mineirão para os clubes (América, Atlético e Cruzeiro) administrarem. Se tivesse acontecido, o Atlético não faria um novo estádio. Jogos acima de 25 mil, todo mundo jogaria no Mineirão. No futuro, quando o Atlético sair de lá, com o custo do Mineirão, o Cruzeiro vai querer jogar no Independência. Quando vier para o América, ele terá escritórios e um funcionamento diário. Vimos isso na Europa. Tudo gera renda. Falta boa vontade e administrar com criatividade. 

O futebol feminino será mantido? O clube seguirá apoiando a modalidade?
Claro. É uma coisa que deu certo. É o charme e a alegria de toda a torcida. Fomos campeões e seremos novamente. Fomos pioneiros antes da obrigatoriedade. Daqui a pouco todos terão que fazer.

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