SÓCHI (Rússia) - O calor brasileiro de Sóchi, no sul da Rússia, é administrado com sorvete de baunilha em volta de casca de chocolate numa dessas lojas de conveniência que vendem de tudo. Uma Araújo soviética. A marca "CCCP" não engana, mas diagnostica. Na Rússia capitalista, o socialismo da URSS (CCCP em soviético) é uma doce e refrescante lembrança.

Os letreiros de Mc'Donalds e Coca-Cola em alfabeto cirílico não fazem Vladimir Lênin revirar no túmulo. Pelo contrário, segue firme e forte em forma de estátua. Seja em Moscou, ou em cidades mais distantes, como Sóchi, o líder da Revolução Russa é um ídolo petrificado. Mas apenas indica um passado que vira antítese com o mundo atual no país "euroasiático".

Ao sediar uma Copa do Mundo que começa hoje ao meio-dia brasileiro - logo após uma Olimpíada de Inverno de 2014 - a Rússia de Vladimir, mas o Putin, abre as portas para o mundo. Entretanto, ainda com mãos agarradas na foice e no martelo , ao menos em simbologismos culturais.

Para se pegar um táxi, utiliza o aplicativo Yandex (responsável até por comprar o alemão Uber). As chamadas podem ser feitas pelo Telegram, criação russa e principal concorrente do Whatsapp. Na Rússia, o facebook perde para a versão local "VKontakte". Tudo isso no alcance de um dedo, talvez de um Iphone X, vendido pelo preço mais caro do mundo em terras de matrioscas e vodka. 

Na última terça-feira, comemorou-se o "Dia da Rússia", data que lembra a declaração de soberania do país em 1990. Um dos marcos que culminaram no fim da URSS. Feriado prolongado em todo o país, e a casa da Seleção foi invadida por turistas também russos, na praia acalorada longe dos poucos graus celsius da capital Moscou ou São Petersburgo (antiga Leningrado).

Para se chegar no balneário luxuoso à beira do Mar Negro, o melhor jeito é alçar voo em um dos três aeroportos internacionais de Moscou. Viagem de 1,6 mil quilômetros a bordo da companhia Aeroflot, que cruza o céu com sua logo: os velhos martelo e foice, mas alados.

Quem acompanhou o primeiro treino da Seleção em Sóchi, aberta ao público, foi até o estádio Slava Metreveli. Ao lado do complexo esportivo, uma homenagem em grafitti ao time campeão da Eurocopa 1960 (URSS 2x1 Iugoslávia), dois países que não mais existem. Vestido de vermelho, aquele time campeão leva ao peito o mesmo CCCP do sorvete de baunilha.