SÃO PAULO – “Isso ainda vai ser grande no Brasil”, dizia uma cômica campanha publicitária lançada pela fornecedora esportiva Topper, em 2010, para promover o rúgbi no país. Desde então, o grande público provavelmente só ouviu falar da seleção masculina do esporte uma vez, com a última colocação nos Jogos Olímpicos Rio-2016. Engana-se, no entanto, quem acha que o slogan era tão somente uma piada.

Obviamente, as pretensões da Confederação Brasileira de Rugby (CBRu) são mais realistas que a propaganda. A avaliação da própria entidade, inclusive, é que são mínimas as chances de classificação dos “Tupis” para os Jogos de Tóquio-2020 (no Rio, o time verde e amarelo participou como convidado).

O desenvolvimento da modalidade, contudo, é notório. Entre as metas definidas estão a entrada no Top 20 do ranking mundial dentro de cinco anos e uma vaga na Copa do Mundo de 2023, além da classificação para a Olimpíada de 2024.

Não é por acaso que, em janeiro, o Brasil foi escolhido pela World Rugby (federação internacional) como prioridade estratégica de investimentos, ao lado da Alemanha. A partir deste ano, a CBRu receberá incentivos financeiros de forma progressiva, começando com R$ 1,9 milhão e chegando a R$ 9,7 milhões em 2021, com possibilidade de prorrogação em caso de ida para o Mundial.

Simultaneamente, a modalidade dribla a crise que atinge os principais esportes no país, com a fuga de grandes patrocinadores desde o fim da Rio-2016. Em fevereiro, os Correios firmaram contrato de R$ 2 milhões até 2018 com a confederação, depois de terem reduzido os repasses para desportos aquáticos, tênis e handebol. Há uma semana, a rede AccorHotels também anunciou apoio à entidade (valores não revelados) por um período de dois anos, renovável por mais dois, até 2020.

Estamos formando uma base com foco em 2024. Atualmente, são atletas de 16 a 18 anos, todos com um potencial muito bom”

Agustín Danza, chefe-executivo da CRBu

Evolução

A guinada para o esporte no país aconteceu justamente em 2010, com o fim da antiga Associação Brasileira de Rugby e a fundação da CBRu, com gestão profissional e submetida a um conselho administrativo.

Foi também nesta época que o esporte passou a contar com os patrocínios do Bradesco (máster) e da Topper, principais parceiros da modalidade desde então – a entrada no portfólio olímpico havia acontecido no ano anterior. Desde então, o orçamento anual da entidade subiu de R$ 30 mil para R$ 20 milhões em 2016.

A CBRu avalia que o crescimento do mercado acompanha a evolução nos resultados e vice-versa. “Em 2014, perdíamos do Paraguai. Em 2016, ganhamos dos Estados Unidos”, exemplifica o chefe-executivo da CBRu, Augustín Danza. Contra os americanos, o Brasil registrou um recorde mundial no esporte, com a maior diferença entre o ganhador (44º no ranking) e o perdedor (17º).

Um dos principais investimentos da confederação foi na criação, em 2014, de academias para treinamento dos atletas de alto rendimento, nas categorias juvenil e adulta. Nelas, os jogadores complementam o trabalho feitos nos clubes, sob supervisão de profissionais da confederação. Atualmente, existem três unidades, em São Paulo, São José dos Campos (SP) e Florianópolis (SC).

BH Rugby

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Popularização

Para um país que há menos de dez anos sequer aparecia no ranking mundial (atualmente, é o 31º), encher estádios parecia impossível, mesmo em jogos da seleção. Mas isso aconteceu em dezembro de 2015, quando 10.480 torcedores assistiram à derrota por 31 a 7 em amistoso contra a Alemanha, no Pacaembu, com entrada gratuita.

“Esse jogo é um marco para nós. Até aquele dia, nunca havíamos tido mais de 5 mil pessoas no campo. E, a partir dele, sempre tivemos mais, com só uma exceção”, destaca Danza, referindo-se aos 4.015 presentes (1.018 pagantes) no histórico triunfo por 24 a 23 sobre o Canadá, em março deste ano, pelo Campeonato Americano.

Nesse intervalo, a seleção masculina disputou nove partidas oficiais em solo brasileiro, com cobrança de ingressos, sendo três no Pacaembu, um no Canindé e um no Allianz Parque, grandes palcos do futebol nacional.

Amadorismo

Por outro lado, a realidade nos clubes é de amadorismo e falta de apoio. Em Minas Gerais, por exemplo, o campeonato estadual possui até uma Segunda Divisão desde 2013, mas ainda não existem times profissionais.

“É tudo amador. Todos, inclusive os dirigentes, têm outras atividades e se dedicam paralelamente ao rúgbi. Alguns times têm parcerias com marcas, prefeituras ou universidades. Mas é uma minoria, e ainda são apoios pontuais”, conta o presidente da Federação Mineira, Breno Castilho.

No cenário nacional, o rúgbi mineiro ainda ocupa uma posição secundária, sem atletas na seleção nem equipes no Super 8 (Primeira Divisão). Na última temporada, o BH Rugby e o Nova Lima disputaram a Taça Tupi, referente à Segundona, mas não se classificaram para as semifinais.

Em todo o Brasil, segundo a CBRu, existem hoje cerca de 300 clubes, 11 mil atletas federados e 60 mil praticantes de rúgbi.

*O jornalista viajou a convite da organização do Troféu Brasil Rugby