“Aqui é trabalho, meu filho!” A chance de ler ou escutar esta frase e não remetê-la imediatamente a Muricy Ramalho é quase nula entre os amantes do futebol brasileiro. Multi-campeão dentro das quatro linhas, como jogador e treinador, o paulista, de 62 anos, exercerá função diferente na Copa do Mundo da Rússia, marcada para a segunda metade de julho.

Comentarista nos canais Sportv, o ex-técnico elogia o trabalho de Tite, afirma que a Seleção Brasileira está preparada para o torneio e aponta três outros favoritos ao caneco: Argentina, Espanha e Alemanha.

Nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, Muricy Ramalho fala sobre a vitoriosa carreira, diz porque nunca trabalhou em Atlético e/ou Cruzeiro, e responde se até hoje sente saudades do tempo em que atuava à beira ou dentro do gramado.

Em breve, ele deve visitar a capital mineira, ao lado do ex-jogador Denilson, para apresentarem ao público o talk show “Aqui é trabalho e muita resenha”, no qual abordam histórias engraçadas e exclusivas do futebol.

Seu nome foi cogitado em vários momentos, pela imprensa, em Atlético e Cruzeiro. Chegou a receber alguma sondagem, algum contato? 
Recebi sondagens do Cruzeiro e proposta do Atlético. Acontece que eu sempre estava sempre empregado nos tempos de Cruzeiro e, no caso do Atlético, eu estava desempregado, mas já tinha dado minha palavra ao Flamengo. Minha palavra é super importante. Por isso não trabalhei em nenhum dos dois.

Gostaria de ter dirigido um dos grandes de Minas Gerais?
Claro. Trabalhei em times grandes em quase todos os estados do país. Trabalhar em Minas seria importante demais, mas todas as vezes que eu poderia ir, estava empregado. Com certeza faltou isso no meu currículo.

Em 77, você estava no time do São Paulo que foi campeão sobre o Atlético, invicto, nos pênaltis. O que lembra daquela conquista? O Galo era o grande rival a ser batido no país?
Nesta final de 1977, o Atlético tinha um timaço e era o grande favorito. O São Paulo estava muito desfalcado; eu, inclusive, estava machucado e nem viajei para Belo Horizonte. Nosso time levou a partida para os pênaltis - a verdade é essa - e conseguiu o título. Para ganhar do Atlético foi muito complicado. Por isso o São Paulo festejou muito.

A nossa Seleção está muito preparada. O Tite tem o time nas mãos, e isso é fundamental. Mas temos que tomar cuidado, pois é um torneio mata-mata” 



Você foi tricampeão brasileiro pelo São Paulo. Qual foi o segredo para que o grupo não se acomodasse no primeiro ou no segundo caneco? 
Ser tricampeão brasileiro com o mesmo técnico, no mesmo clube, é muito complicado e difícil demais de ser alcançado. Foi um feito que o São Paulo conseguiu. O segredo foi não deixar que todos se acomodassem (dirigentes, comissão técnica e jogadores). Era a vontade que eu tinha de vencer. Sempre fui muito determinado com as coisas, por isso todos os dias cobrava novamente, sem importar se tínhamos ganho um ou dois títulos. Essa pressão, necessária, tira os jogadores da zona de conforto. 

Imaginava alcançar tal feito?
Claro. Técnico e todos que trabalham com futebol têm que pensar todos os dias em ganhar.

Acha que, por tudo que fez, deveria ter sido reconhecido na Europa? Sentiu falta de trabalhar como treinador no Velho Continente?
Era muito difícil treinador brasileiro ir para a Europa, pelo problema da língua, da distância... Os europeus são muito fechados. Seria legal trabalhar lá, mas, na época, convite para sair do país era muito difícil porque eu aqui os meus contratos eram muito bons. Claro que trabalhar na Europa, para o meu currículo, seria muito importante.

Estamos nos aproximando da Copa do Mundo. Acha que nossa Seleção está preparada para brigar pela taça? Quais os maiores concorrentes na sua visão?
A nossa Seleção está muito preparada. O Tite é um grande gestor de craques, tem o time nas mãos, e isso é fundamental. Temos jogadores importantes, que são acostumados a decidir na Europa e o Brasil tem muitas chances. Contudo, temos que tomar cuidado, pois é um torneio de mata-mata. Tem várias seleções que concorrem com a nossa, como Alemanha, Argentina e, principalmente, Espanha, são as equipes que, para mim, podem complicar a vida do Brasil na Copa.

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Acredita que jogador derruba técnico?
Não se derruba, mas até ajuda a derrubar. O que derruba técnico realmente são os resultados e às vezes os jogadores colaboram para não ter este resultado.

É muito diferente de 10, 20 anos atrás?
Não. É basicamente igual. Jogadores pensam praticamente da mesma forma e quem derruba técnico são os resultados. 

Como tem encarado o desafio de ser comentarista? Já levou algum “puxão de orelhas” de alguém que não tenha gostado de alguma análise ou “ainda” não?
O desafio de ser comentarista foi muito grande. Fui convidado e até o momento não levei puxão de orelhas. O pessoal tem gostado das minhas análises. Procuro ser criterioso para analisar, principalmente o trabalho dos técnicos.

Telê foi um espelho e professor. Ele não era só disciplinador; era um dos melhores do mundo; é claro que daria muito certo no futebol de hoje”


Sente saudade de estar à beira do campo? Quando coloca a cabeça no travesseiro pensa no passado e como seria hoje?
Não sinto tanta saudade de voltar à beira do campo e voltar a treinar um time de futebol. Mas é claro que quando coloco a cabeça no travesseiro, penso sim no passado. Penso nas conquistas. Foi muito difícil conseguir e, por isso, é muito legal treinar. Penso também em como seria hoje; em que tipo de treinamento teria que dar, que tipo de jogo teríamos. Futebol a gente não esquece nunca. Pensamos todos os dias.

Acredita que Telê, um dos seus espelhos no futebol, daria certo no futebol de hoje? Ainda mais por ser tão disciplinador...
Ele realmente foi um espelho e professor. Foi ele que me deu a oportunidade de ser treinador e me ensinou muito. É claro que ele daria certo hoje. Ele daria certo sempre. Telê não era só disciplinador; era um dos melhores do mundo e, por isso, daria muito certo no futebol de hoje.

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