MOSCOU - A mesquita Kul Sharif vivia momentos de agitação ao lado da vizinha igreja ortodoxa russa. Era dia de Copa do Mundo na cidade de Kazan, lotada de turistas. Do lado de fora dos tempos muçulmano e católico, dois amigos judeus, vindos de Israel, posam para fotos. 

Num torneio que reúne “apenas” 16% dos países da Terra, as arquibancadas estão abertas para todas as bandeiras, etnias, religiões e ideologias políticas. A maior festa do futebol não se restringe apenas às 32 nações classificadas (veja a galeria abaixo).

A maioria dos visitantes, inclusive, veio dos Estados Unidos, não representados dentro de campo nesta edição do torneio – apenas a torcida anfitriã comprou mais ingressos que os norte-americanos.

Tenho ido às Copa desde 1998, na França, pulando apenas 2014, no Brasil, por causa do nascimento da minha filha. Para mim, é o máximo da experiência que um fã de futebol pode ter. Provavelmente, nunca verei a minha seleção numa Copa. Mas já planejo ir ao Catar e à América do Norte depois”

Timothy Johnson, 
Turista da Malásia

“Israel jogou uma única Copa, em 1970. Nem éramos nascidos. Para nós, a Copa do Mundo é mais do que torcer pela própria nação. É conhecer novos povos e celebrar a paixão pelo futebol”, diz Liach Fainer. 

Como turistas de um Estado judeu, rival da Palestina e outros países do Oriente Médio, os israelenses temem ter dificuldades para estar na Copa do Catar. Por outro lado, daqui a oito anos, na América do Norte, o Mundial abrirá mais 16 vagas e verá crescerem as esperanças de outras seleções como o Panamá, que emocionou o planeta ao estrear e marcar seu primeiro gol no torneio.

“Se Israel não foi bom o suficiente para se classificar, não quer dizer que não podemos vir e desfrutar deste momento tão lindo do esporte. Acredito que o futebol é um momento de esquecer qualquer tipo de problema político ou religioso. É a chance de poder comemorarmos juntos a alegria de um gol”, afirma Nevo Weintroub, que carrega com orgulho a única vez que o país balançou a rede num Mundial, contra a Suécia, na edição que rendeu o tricampeonato ao Brasil.

Sonho distante

Ainda em Kazan, uma camisa azul, vermelha e branca poderia ser confundida como sendo dos EUA. Mas o quadrante celeste ao lado das faixas alvirrubras contêm uma lua e um sol, ao invés de estrelas. Timothy Johnson, apesar do nome britânico, é da Malásia.

“Tenho ido às Copa desde 1998, na França, pulando apenas 2014, no Brasil, por causa do nascimento da minha filha. Para mim, é o máximo da experiência que um fã de futebol pode ter. Provavelmente, nunca verei a minha seleção numa Copa. Mas já planejo ir ao Catar e à América do Norte depois”, ressalta.

A Malásia jamais disputou uma Copa. E dificilmente o fará, assim como Cazaquistão, Macedônia, Emirados Árabes, Paquistão, Omã, Nepal e Venezuela. Outros poderão participar num futuro distante, ou de maneira fortuita, como a África do Sul, única seleção anfitriã eliminada na fase de grupos, em 2010. 

Com o aumento do número de vagas e o incremento também na quantidade de sedes – México, Estados Unidos e Canadá em 2026, e possivelmente Uruguai, Argentina e Paraguai em 2030 –, a Fifa pretende disseminar a festa para todos os lados. Um efeito colateral, no entanto, poderá ser uma perceptível redução na qualidade técnica do futebol praticado em seu principal evento.

Sul-americanos não arredam pé

As seleções da América do Sul deram adeus à Copa ainda nas quartas de final. Torcedores de Brasil, Uruguai, Argentina, Colômbia e Peru, contudo, seguiram na Rússia para colorir os estádios. As cores latinas estão representadas ainda por Equador, Chile e Bolívia.

Quem realmente não deu as caras em Moscou e nas outras cidades-sede, nem mesmo com torcedores, foram Itália e Holanda. Principais ausências dentre os participantes do torneio, a tetracampeã mundial e a vice de 2010, respectivamente, falharam nas Eliminatórias Europeias.

Frustração que tirou o azul de Savóia e o laranja da dinastia Orange-Nassau do circuito. Nas ruas da capital russa, por exemplo, foi possível encontrar apenas alguns estrangeiros vestidos com uniformes de clubes italianos, como Juventus e Milan, ou com casacos da Holanda, chamativo pela beleza.

“Sou fã do futebol holandês por causa do Cruyff, e presenteei meu filho com a camisa de 1974. Foi uma pena a Holanda não vir para a Rússia, porque definitivamente seria meu segundo time depois do Brasil”, explica o advogado Carlos Moreira, acompanhado do filho Marcos, que usava a emblemática camisa da Laranja Mecânica.