Fim de uma era, a que trouxe o maior número de vitórias e títulos para o vôlei masculino brasileiro, e início de um novo ciclo. O que já se especulava desde a conquista do ouro olímpico em casa se confirmou ontem, numa entrevista convocada pela Confederação Brasileira de Vôlei, que não contou com a presença do principal personagem. Depois de 16 anos, três mundiais (conquistas inéditas), duas Olimpíadas, sete Ligas Mundiais e o domínio total na América do Sul, Bernardo Rezende não tira totalmente o time de campo, mas assumirá uma função menos estressante, a de coordenador-técnico, priorizando o trabalho com as meninas do Rexona, na Superliga Feminina, e as atividades extra-quadra.

Não por coincidência, mas de forma surpreendente, o comando da seleção passa às mãos de um colega de time de Bernardinho na geração de prata em 1984: o gaúcho Renan dal Zotto, que já integrava a comissão técnica como diretor de seleções da CBV. Nas mãos dele, a missão de dar prosseguimento a um período de ouro, marcado por uma reviravolta a caminho do alto do pódio no Maracanãzinho: até então acostumado a contar com o talento individual acima da média, simbolizado em atletas como Ricardinho, Nalbert e Giba, o agora ex-treinador fez, da força coletiva, o segredo para superar rivais de peso, como França, EUA e Rússia. O que, salvo surpresas, seguirá sendo o caso no ciclo rumo a mais um ouro olímpico, em Tóquio-2020.

Ficou clara a preocupação da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) em apostar na continuidade, tanto assim que, da atual comissão técnica, apenas o fisioterapeuta Fiapo deve deixar o grupo. Renan tem uma carreira consolidada como treinador conquistando o título da Superliga de 2006 com a equipe da Unisul, da qual se tornou gestor esportivo, além de uma passagem à frente do Sisley Treviso, da Itália. Desde então, vinha atuando nos bastidores, o que, acredita, não será obstáculo para dar prosseguimento ao trabalho do amigo.

bernardinho

O desfecho do futuro de Bernardinho na Seleção foi acertado terça-feira, numa reunião com o presidente da CBV, Walter Laranjeiras, o Toroca, quando o treinador comunicou o desejo de deixar o posto, aceitando permanecer ligado à equipe em outro cargo. Imediatamente, o dirigente fez o convite a Renan, que admite ter perdido o sono até aceitar

Pelas redes sociais, jogadores e ex-jogadores desejaram sorte ao novo comandante, embora alguns tenham manifestado surpresa. "Imaginei que seria o Rubinho (auxiliar-técnico de Bernardinho) ou um treinador da Superliga, mas desejo tudo de bom e acredito que o Brasil tem tudo para fazer uma temporada muito boa", comentou o ponteiro Murilo, eleito melhor jogador no Mundial da Itália-2006, sob o comando de Bernardinho.

Estilo único

Com a "aposentadoria", sai de cena um estilo inimitável que ganhou legiões de fãs e admiradores pelo mundo. As feições sempre tensas, o foco total no trabalho e as expressões de um vocabulário próprio – os adversários de menor tradição eram sempre tratados com a frase "temos que ter cuidado, pois vamos enfrentar uma mina vagante". E o jeito particular de comemorar as vitórias – a festa não durava mais do que alguns minutos, para dar lugar ao planejamento e ao estudo dos próximos adversários.