Assumir a gestão comercial do Mineirão e tornar o Gigante da Pampulha uma referência nacional – e não só devido ao futebol – é missão bem executada nas últimas três temporadas por Samuel Lloyd, 35, natural de Nova Lima.

Nesta entrevista concedida ao Hoje em Dia na última segunda-feira (23), o ex-chefe de marketing do VisitBritain (Londres) avalia o 2017 do estádio, comenta o estreitamento dos laços com o Cruzeiro, projeta os possíveis impactos da “Arena do Galo” no Mineirão e faz previsões para a próxima temporada no Gigante.

Como foi o 2017 do Mineirão? Já é possível fazer um balanço, mesmo ainda estando em outubro?
Na verdade, 2017 nos surpreendeu. Esperávamos um ano mais difícil do que o anterior, em função das projeções econômicas que eram apresentadas. Projetamos um Mineirão muito parecido em termos de exploração comercial, mas, para nossa grata surpresa, conseguimos fazer até setembro o que havia sido feito em todo ano passado, em relação aos jogos, número de eventos e exploração de patrocínios.

Qual a expectativa da Minas Arena em melhorar o diálogo com o Cruzeiro, tendo em vista a mudança na presidência e nas diretorias?
Já existe uma relação mais próxima, sim. E esperamos que, com o passar dos anos, todas as diferenças fiquem para trás e que possamos construir uma parceria mais forte.

O Atlético aprovou a construção de um estádio próprio. Quando o Mineirão foi reaberto, a intenção do Governo do Estado era que os dois grandes clubes de Minas Gerais rentabilizassem o estádio, o que não aconteceu. O que pode ser feito para o Gigante da Pampulha se tornar ainda mais viável mesmo sem contar com o Galo?
Isso muda o planejamento no longo prazo da concessão. Planejávamos, com a concessão iniciada pelo governo, cerca de 60 a 66 jogos por ano, com o Cruzeiro e algumas partidas do Atlético e também do América. Hoje, conseguimos uma média de 40 a 45 jogos por ano. Em 2016, tivemos 54 partidas, em função dos Jogos Olímpicos. Mas a construção do estádio do Atlético, com certeza, muda o planejamento para os vinte e poucos anos que ainda restam da concessão.
 

“O Mineirão com torcida dividida é a nossa alegria, mesmo nos atrapalhando financeiramente.
A divisão é feita nas nossas áreas. Mesmo assim, somos favoráveis”

O que pode ser feito?
Muda o planejamento financeiro. Podemos substituir essas datas que estariam voltadas para os jogos de futebol por outros tipos de eventos. O Feirão de carros, por exemplo, que já iniciamos, é um deles. E estamos intensificando também a captação de grandes eventos, o que traz benefícios para a cidade.

O Mineirão hoje sobreviveria sem o futebol?
A prioridade do Mineirão, até mesmo no contrato com o governo, é o futebol. Então, não sobreviveria. Financeiramente, é até possível, mas não é a lógica de funcionamento e nem o que queremos. Desejamos cada vez mais jogos, por isso todos os clubes são bem-vindos.

É viável transformar o anel inferior num “miniestádio” para receber jogos e clubes menores? Qual seria a capacidade e o impacto no custo?
Isso é importante destacar. O Mineirão foi construído de uma forma com a qual é possível fazer de várias maneiras. É extremamente viável ocupar apenas o anel inferior do estádio, para cerca de 20 mil pessoas. Podemos também fechar outros setores. Dá para modulá-lo de maneiras diferentes. Isso foi executado, inclusive, no jogo de futebol americano em 2016. Foi um grande sucesso. Temos um cálculo de que o custo do Mineirão fica entre R$ 5 e R$ 8 por torcedor. O que sai caro é a cadeira vazia, quando você projeta um jogo para 60 mil pessoas e comparecem apenas 15 mil, por exemplo.

No total, quanto o Cruzeiro vai pagar ao Mineirão nesta temporada?
Toda a operação do Cruzeiro fica, por ano, em cerca de R$ 4 milhões. É extremamente vantajoso para o clube.

Como gestor, o que você acha da situação dos outros estádios construídos ou reformados para a Copa do Mundo? Foram mal aproveitados?
Vejo que o Mineirão está realmente num patamar muito diferente em relação aos 12 estádios da Copa. Acho que é mérito de do próprio governo, que estabeleceu a PPP (Parceria Público-Privada), desde o início, com regras muito bem estabelecidas. Isso atraiu o investidor que pudesse reformar e operar o estádio por 25 anos. A boa gestão e o aprendizado ao longo desse tempo nos ajudou muito. Não estamos no patamar em que a operação se paga, ela ainda é deficitária, mas o horizonte dos três próximos anos é muito promissor. Constantemente recebemos gestores de outras arenas. Nos últimos seis dias, tivemos dois grandes shows internacionais e um clássico, recebendo aproximadamente 100 mil pessoas.

“Vejo que realmente o Mineirão está num patamar bem diferente em relação aos 12 estádios da Copa do Mundo. Aprendemos muito durante este período”
 

A elitização nos estádios após a Copa é uma tendência mesmo? Ou acredita que a população de baixa renda voltará a ocupar as cadeiras?
Se analisarmos o custo do Mineirão por torcedor, é um dos baixos do Brasil. Se você compensar o preço por torcedor em outro setor do estádio, pode, sim, aumentar o espaço popular. Vale lembrar que quem define preço de ingresso no Mineirão é sempre o clube mandante.

A Minas Arena já tentou alguma estratégia para retomar os clássicos com torcida dividida, ou é uma questão que depende apenas dos clubes e da Polícia Militar? Na visão da empresa, qual é a melhor fórmula de divisão?
A Minas Arena é apaixonada pelo futebol e por remontar tradições. O Mineirão com torcida dividida é a nossa alegria, mesmo nos atrapalhando financeiramente. A divisão é feita exatamente nas nossas áreas (entre 1,5 mil e 2 mil assentos), mas, mesmo assim, somos totalmente favoráveis. A gente sempre tenta, porém essa definição é feita entre os clubes, e raramente há acordo.

Pensam em alguma estratégia para diminuir as confusões nos camarotes, principalmente em dias de clássicos?
As nossas áreas de hospitalidade são de torcida mista. Separamos apenas nos clássicos. Sempre ficamos na esperança de algum dia fazer um jogo entre Cruzeiro e Atlético com torcida mista, mas, infelizmente, pela questão da educação de alguns torcedores, ainda não conseguimos fazer uma partida com zero incidência de conflitos. É um sonho nosso, e a sociedade pede isso. Dentro de casa tem atleticano e cruzeirense, por que aqui não? Nos camarotes, os convidados são chamados pelos donos, eles escolhem quem entra.

Como está o calendário para 2018? Jogos, shows? Teremos mais grandes novidades? Surpresas?
O ano que vem é um ano de Copa do Mundo, que nos traz muitas oportunidades. Naquele período sem jogos, algumas atividades devem acontecer no estádio, para movimentar a economia da cidade. Vamos aproveitar esse tempo para que as pessoas possam curtir o Mineirão em coisas que não tenham ligação com futebol. Mas não descartamos algo como a transmissão dos jogos.

Qual é a sua expectativa para o “Jogo dos Sonhos” protagonizado por Ronaldinho Gaúcho, marcado para o dia 8 de dezembro?
Ainda não abrimos a venda das nossas cadeiras. Mas, em relação ao número de patrocinadores, está indo muito bem. Será um evento para a família, de entretenimento, que fechará muito bem o nosso ano. Será um ótimo presente para os 120 anos da cidade de Belo Horizonte.

samuel lloyd