*Colaborou Cristiano Martins

 

Quase quatro anos, 170 jogos disputados e nenhum gol. Números importantes marcam a passagem do volante Pierre pelo Atlético, entre agosto de 2011 e abril de 2015. Nenhum deles, porém, chama tanta atenção quanto o de títulos conquistados no período. Foram ao todo cinco taças pelo Galo, incluindo as inéditas Libertadores, Recopa Sul-Americana e Copa do Brasil.

Neste Papo em Dia, o jogador de 35 anos (atualmente no Fluminense) fala sobre o curioso jejum com a camisa alvinegra, revela a participação direta nos bastidores de uma das conquistas e garante não ter qualquer mágoa em relação ao técnico Levir Culpi pela saída do clube, entre outros temas.

 

Você fez 170 partidas com a camisa do Atlético e, mesmo defendendo o Fluminense, recebe o carinho dos atleticanos. Inclusive, com uma bandeira em sua homenagem na volta ao Independência. Como é ser ídolo do Galo e o que o clube representa na sua vida?

Fico feliz por todo esse carinho que recebo da torcida do Atlético. O que vivi no meu retorno ao Horto foi algo muito emocionante, o carinho da Massa. O meu carinho por eles será eterno. O que vivi no Galo foi forte, intenso, o clube representa muito para mim. Foi o melhor momento que vivi em toda a minha carreira. Então, tento retribuir esse carinho e esse reconhecimento. A minha gratidão será eterna.

Meu retorno ao Horto foi algo muito emocionante. O que vivi no Galo foi forte, intenso. Foi o melhor momento que vivi em toda a minha carreira”

Você ganhou títulos por todos os times em que passou. Mas foi no Atlético que você conquistou a Libertadores, o seu troféu mais importante. É por isso que considera a passagem pelo Galo como o auge da carreira?

Desde que saí do interior da Bahia, sonhava em ser atleta profissional. Deus me deu além. Por onde passei, tive a honra de levantar troféus. Sem dúvida alguma, o mais importante deles foi o da Libertadores. Foi o auge da minha carreira. Ser considerado pela torcida atleticana como um dos ícones daquela campanha, que começou desde a fuga do rebaixamento em 2011 até a conquista de todos os títulos, vejo que foi uma trajetória muito importante. Sei que já passaram grandes jogadores pelo Atlético, reconhecidos mundialmente, então poder ser incluído neste grupo seleto é algo surreal.

A torcida chegou a fazer campanha para que você batesse um pênalti, mas o gol com a camisa alvinegra não aconteceu. Te incomodava ou era uma situação até divertida?

Isso nunca me tirou o sono. Costumo brincar com os companheiros que eu compensava a falta de gols com títulos. Eles davam risada junto. Não foi algo que diminuiu o brilho da minha passagem pelo Atlético. Só o fato de vestir esta camisa e ganhar o que ganhei foi algo maravilhoso.

 

Pierre Atlético final Copa Libertadores 2013

 

Como tem encarado a reserva no Fluminense e este momento da carreira no qual não tem tido tantas oportunidades?

A questão da reserva aqui no Fluminense é uma situação nova na minha carreira. Nos clubes pelos quais passei, tive oportunidade de jogar, com números expressivos, sempre com regularidade. Mas é claro que há o respeito com os treinadores. Quando eu estava atuando, fui campeão da Primeira Liga e da Taça Guanabara. Esse ano de 2017 foi difícil, fiquei cinco meses sem atuar por causa da lesão no tornozelo, mas o coração está cheio de alegria por causa da recuperação.

Quando você saiu do Paraná para ganhar projeção nacional no Palmeiras, foi por um pedido pessoal do técnico Caio Junior, que infelizmente faleceu no trágico voo da Chapecoense. Quais as principais lembranças dele e o quão importante ele foi para você?

Tenho um carinho enorme pelo Caio. Ele tinha uma extrema confiança em mim e no meu trabalho. Me lembro que estava retornando para a Bahia quando colocamos o Paraná na Libertadores. Aí foi anunciado o nome do Caio no Palmeiras. Eu estava na estrada ainda, indo descansar, quando meu telefone tocou. Era ele, falando que iria assumir um grande clube e o primeiro nome que anunciaria seria o meu. Estou sentido demais com a tragédia, mas tenho certeza que Deus guardou um lugar especial para ele. 

Fizemos o nosso papel. A dupla (com Donizete) se encaixou de uma maneira maravilhosa, dentro de um grupo de jogadores ofensivos e bastante técnicos. Tinha que ter os famosos ‘carregadores de piano’. Tivemos sucesso, o Cuca teve méritos nisso, e o torcedor reconhece a nossa luta”

O Leonardo Silva nos contou, no Papo em Dia da semana passada, que você foi fundamental no intervalo da final do Campeonato Mineiro de 2013. Lembra o que disse no vestiário de tão importante para motivar o time rumo ao título naquele momento da derrota parcial por 2 a 0?

Tínhamos ganhado o jogo de ida da final por 3 a 0 no Horto, e o Cruzeiro jogava por dois resultados iguais. Tomei o terceiro cartão e estava suspenso, assisti o jogo na arquibancada do Mineirão com o pessoal da comissão técnica. Entramos apáticos e sonolentos, e o Cruzeiro abriu 2 a 0. No intervalo, desci para o vestiário. O Cuca falou tudo e perguntou se alguém queria falar, aí eu levantei a mão. Disse que o nosso time não era aquele e que precisávamos mudar a nossa postura. Que éramos um time de guerreiros e que eu não aceitava perder aquele título para o Cruzeiro. Graças a Deus, todo o grupo deu aquela motivada e conseguimos ser campeões. Fiquei muito feliz por poder dar minha pequena parcela de contribuição, mesmo estando fora do jogo.

No vídeo dos bastidores da Libertadores 2013 divulgado pela TV Galo, há vários trechos em que você aparece motivando os jogadores, pedindo raça, paciência, inteligência... É um papel que você exercia com frequência naquele grupo?

Todos tinham essa função. A gente tinha um fato na minha opinião que, além da qualidade técnica do grupo, era a união. Era um grupo que se conhecia pelo olhar, muito unido, nas vitórias e nas dificuldades. Tinha o dia que um estava mais para baixo, mas os outros conseguiam trazer juntos. Foi preponderante para alcançarmos tudo que conquistamos. Eu tentava ser apenas um referencial de perseverança e de luta.

Você e o Leandro Donizete se sentem injustiçados pela marca de terem sido os “volantes destruidores” em um time tão técnico quanto aquele Atlético da Libertadores?

Creio que não. Temos o reconhecimento do torcedor atleticano. Claro que, dentro das nossas características, fizemos nosso papel. A dupla se encaixou de uma maneira maravilhosa, dentro de um grupo seleto de jogadores ofensivos e bastante técnicos. Tinha que ter os famosos ‘carregadores de piano’. Tivemos sucesso nisso. O Cuca teve méritos nisso. E o torcedor reconhece o nosso papel naquela luta pela conquista da Libertadores.

 

Pierre e Levir Culpi

 

Você teve algum ressentimento com o Levir Culpi, por ter virado a quinta opção no elenco em 2015 e deixado o clube mesmo tendo o carinho da torcida? Como foi trabalhar com ele depois, no Fluminense?

De jeito algum. Sempre respeitei todas as decisões dos treinadores durante a minha carreira e também a hierarquia do clube. Nunca fui também de sentar em cima de contrato. Eu estava sem jogar, não era nem relacionado. O Fluminense me fez uma proposta bacana, apresentei ao Daniel Nepomuceno, ele me deu total liberdade, e segui a minha vida. Ressentimento nenhum com o Levir. Tanto que trabalhamos juntos também no Fluminense. Na época, o coração pedia para ficar no Galo, mas isso faz parte do futebol. Hoje, estou feliz aqui.

Sempre respeitei as decisões dos treinadores e nunca fui de sentar em cima de contrato. O Fluminense fez uma proposta bacana e eu segui a minha vida. Ressentimento nenhum com o Levir. O coração pedia para ficar, mas isso faz parte do futebol”

Com quase 36 anos, você já vislumbra a aposentadoria ou ainda tem muitos planos para os próximos anos? Cogita viver em Minas depois de pendurar as chuteiras?

Ainda tenho muita lenha para queimar. Amo o que faço e tenho algumas perspectivas dentro do futebol. Eu não estipulei uma data para pendurar as chuteiras, vou deixar as coisas acontecerem. Tive um ano um pouco complicado devido à contusão no tornozelo, mas já estou 100%, finalizando o ano totalmente recuperado. O que me motiva a permanecer no futebol ainda é fazer o que eu amo. Sobre o futuro, nunca vou descartar um retorno a Belo Horizonte, porque a minha família ama esse lugar. Criamos raízes e amigos aí. Quem sabe um dia...

Você é um amante dos cavalos. Morando no Rio de Janeiro, consegue tirar um tempinho para ir à fazenda e cuidar dos seus bichos?

Uma das minhas paixões é esse contato com o campo e com os animais. Nas oportunidades que eu tenho, vou para o interior da Bahia, onde recarrego as minhas baterias e tiro toda a correria do ano. Fui poucas vezes para lá em 2017, umas três apenas, mas já estou me preparando para retornar com a família neste fim de ano.

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