O caminho entre os bairros Mirantes de Periperi, no subúrbio de Salvador, e Les Corts, na badalada Barcelona, foi longo e cheio de percalços para Fabiana.

Antes de vestir uma das camisas mais famosas do futebol mundial, a lateral-direita da Seleção Feminina passou por vários clubes do Brasil e viveu as mais diversas experiências em outros quatro países (Estados Unidos, Rússia, Suécia e China, além de uma passagem anterior pela própria Espanha).

Essa história, no entanto, poderia ter sido interrompida de forma precoce devido a um drama enfrentado na adolescência em Belo Horizonte, onde tentou dar os primeiros passos rumo à carreira profissional, conforme relata neste Papo em Dia.

Hoje aos 28 anos, ela é uma das referências da equipe canarinho e sonha em tatuar a quarta participação numa Olimpíada. Para isso, tentará ajudar o Brasil a confirmar a classificação para os Jogos de Tóquio-2020, por meio da conquista da Copa América, disputada em abril, no Chile.

 

Veja alguns lances de Fabiana pela Seleção Feminina:

 

Você já participou de três Olimpíadas, sendo a primeira delas ainda aos 19 anos. Buscar a classificação para uma quarta edição consecutiva dos Jogos é a sua motivação na Copa América, além, é claro, do tricampeonato?

Na verdade, eu já me sinto bastante motivada só por estar sendo convocada para a Seleção, independentemente de qual for a competição. Mas é lógico que a motivação aumenta, assim como a responsabilidade também, pelo fato de você estar representando o seu país na busca pelas vagas nas principais competições da modalidade, que são a Copa do Mundo e a Olimpíada.

A primeira tatuagem que fiz foi a de Pequim, justamente por ter sido minha primeira Olimpíada. Mesmo não sendo a medalha de ouro, tão desejada no nosso país, tenho muito orgulho”

A Formiga, que é recordista de participações (seis Olimpíadas), chegou a se despedir, mas está de volta à Seleção aos 39 anos. Ela é uma inspiração? Já pensou chegar até 2028 e igualar essa marca?

Acho que a Formiga é uma das maiores inspirações, se não a maior, para qualquer jogadora de futebol. Chegar à idade dela e ainda estar jogando em alto nível não é para qualquer uma. Eu gostaria de chegar a 2028, sim, e me cuido bastante para ainda jogar por muitos anos. Mas, realmente, nunca tinha parado para pensar sobre isso. Vivo um dia após o outro.

Você tatuou só a Rio- 2016 ou tem as Olimpíadas de Pequim-2008 e Londres-2012 marcadas também? Qual o sentimento que te levou a eternizar esses momentos?

A primeira tatuagem que fiz foi a de Pequim, justamente por ter sido a minha primeira Olimpíada e ter conquistado a minha primeira medalha (prata). Mesmo não sendo a de ouro, tão desejada no nosso país, tenho muito orgulho dela, porque uma medalha olímpica é algo que qualquer atleta gostaria de ter. Hoje, tenho todas as minhas três Olimpíadas tatuadas.

A Copa América também dá vaga na Copa do Mundo de 2019. Você, que já jogou Olimpíada e Copa, tem preferência por alguma delas? Qual é melhor de disputar e, se tivesse que escolher uma só para ganhar, qual seria?

São as duas competições mais importantes do esporte, então não, não tenho uma preferência. Gostaria muito de ganhar as duas para o nosso país e para a nossa modalidade.

Fabiana Simões Seleção Feminina

Lateral conquistou medalha de prata em Pequim-2008 e ainda disputou Jogos Olímpicos de 2012 e 2016

 

Você chegou ao Barcelona em junho de 2017, como a segunda jogadora brasileira da história do clube, depois da Andressa Alves. Vocês sentiram alguma expectativa ou responsabilidade a mais devido ao histórico de ídolos do país, como Evaristo, Rivaldo, Deco e Ronaldinho Gaúcho?

Falam bastante do Ronaldinho aqui. Ele é realmente um grande ídolo para o clube e a torcida, e também para mim. Não que eu não tenha boas referências dos outros que você citou também, mas tenho muitas boas lembranças do Ronaldinho jogando. Mas acho que não existe nenhuma responsabilidade ou expectativa a mais em relação a isso, não.

A Martens é uma jogadora fantástica, além de ser uma menina muito boa. Nem parece que é a melhor jogadora do mundo, com tamanha simpatia e humildade que ela tem"

No Barcelona, você joga e convive com a holandesa Lieke Martens (meia-atacante), atual melhor do mundo. Ela é diferenciada mesmo? O que pode nos contar sobre essa experiência de atuar ao lado dela?

Jogar com a melhor do mundo é sempre bom, não é (risos)? Quem não gostaria de ter uma jogadora assim do seu lado? Ela é diferenciada, sim, e a experiência de trabalhar com ela tem sido muito positiva. A Martens é uma jogadora fantástica, além de ser uma menina muito boa. Independentemente do idioma, ela tentar interagir com todas. Nem parece que é a melhor jogadora do mundo, com tamanha simpatia e humildade que ela tem.

Falando nisso, já tem a sua aposta para o próximo prêmio de melhor jogadora do mundo?

Tenho sim. Podia ser para mim (risos)! Brincadeira, ainda não tenho.

Fabiana Simões Seleção Feminina

Atleta busca terceiro título na Copa América, após conquistas nas edições de 2010 e 2014

 

É verdade que a sua primeira tentativa no futebol aconteceu aqui em Belo Horizonte, trazida por um olheiro? Como foi essa passagem pela cidade?

Sim, foi em dezembro de 2005. Um olheiro me viu jogando com os meninos na escolinha do bairro e conversou com a minha mãe para eu fazer um teste no Atlético Mineiro, dizendo que já estava tudo certo, só que na verdade não estava. Corremos um risco para tentar realizar o meu sonho. Minha mãe teve que pagar tudo, a minha passagem e a dele, a roupa de treino, hotel... Foi uma longa viagem de Salvador até Belo Horizonte. E, logo nos primeiros dias, tivemos problemas, porque eu era menor de idade e não poderia ficar hospedada com aquele homem, mesmo com a minha mãe tendo dado uma procuração a ele. Fomos parar no Juizado de Menores, e eu chorava bastante, explicando para a juíza que estava ali porque queria tentar realizar o meu sonho. Então ela me levou para a casa dela, e morei lá durante um mês.

Um olheiro disse que estava tudo certo com o Atlético, mas na verdade não estava. Fomos parar no Juizado de Menores, e eu chorava bastante, explicando que queria realizar meu sonho. A juíza me levou para a casa dela, e morei lá durante um mês”

E como foi parar no América-RJ, onde acabou sendo revelada?

Aquele rapaz ligou uns 20 dias depois dizendo que tinha um time no Rio precisando de atletas, mas que eu teria que ‘me virar’ se quisesse fazer o teste. Fui para a casa de uns amigos da minha família na cidade, fiz o teste e passei, em janeiro de 2006. O treinador Luiz Claudio conversou comigo e falou do meu potencial, e eu fiquei sem acreditar depois de tudo aquilo que eu tinha passado. Naquele mesmo ano, já fui convocada para a Seleção Sub-20.

Pensou em desistir em algum momento devido a essas dificuldades?

Logo depois dessa primeira convocação, meu avô faleceu, e eu era muito próxima dele. Naquele momento, quis desistir de tudo, mas minha mãe não deixou. Disse que eu precisava continuar buscando o meu sonho e que eu seria o orgulho da minha família e do meu avô. Ela sempre acreditou muito em mim e me deu todo o apoio para continuar tentando. Usamos as economias dela para eu me manter durante esse tempo no Rio de Janeiro, então segui no futebol graças a isso, porque ela nunca desistiu de mim.

Depois, você acaba voltando a Belo Horizonte em uma ocasião marcante, que foi a classificação nos pênaltis contra a Austrália nas quartas de final da Olimpíada. Tem alguma lembrança especial daquela partida?

Jogamos diante de 53 mil pessoas no Mineirão, foi um grande espetáculo. A torcida fez toda a diferença e nos apoiou até o fim. Foi um jogo muito difícil, uma partida em que aconteceram muitas coisas, mas no fim deu tudo certo para nós. Uma lembrança marcante foi que recebi uma entrada muito forte e me machuquei (aos 16 minutos do segundo tempo), precisei sair de maca, e vi que a Marta ficou bastante comovida, com os olhos cheios de lágrimas. Depois, ela acabou perdendo um pênalti, mas felizmente a Bárbara (goleira) salvou a gente (risos). Aquele jogo no Mineirão ficou mesmo marcado para todas nós.

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