Um jogo festivo no interior, dois olheiros e a grande chance da vida. Assim começou a carreira de Hamilton de Souza, mais conhecido como Careca, camisa 10 do Cruzeiro no fim da década de 1980 e começo dos anos 1990. Chamado até hoje pelos torcedores da Raposa de “carrasco dos clássicos”, o ex-ponta de lança, que chegou à Toca com 14 anos, marcou gols importantes com a camisa celeste, inclusive decidindo títulos importantes para o clube, como os Campeonatos Mineiros de 1987 e 1990.

Em conversa com o Hoje em Dia, Careca, atualmente auxiliar-técnico do sub-17 do Cruzeiro, relembrou os momentos de sucesso, falou de seu grande parceiro de ataque e relembrou duelos memoráveis com os atleticanos que tentavam marcá-lo nos clássicos.

Você foi um jogador que marcou o seu nome em partidas clássicas e fez gols decisivos em finais de Campeonatos Mineiros. Até hoje os torcedores lembram muito disso. Você curte essa fama?
Para mim é muito bom ter essa fama de carrasco. E isso ficou marcado desde minha época de juvenil. Cheguei à Toca I com 15 anos de idade e no meu primeiro ano de clube fomos campeões em cima do Atlético, e eu fiz gol, em 1984. Isso teve sequência no profissional, essa fama de carrasco. O torcedor quando encontra comigo nas ruas, lembra bem daqueles dois gols que fiz, um em 1987, quando ganhamos de 2 a 0, e aquele em 1990, um gol de cabeça, gol de título em um ano divisor de águas para o clube.

Naquela época você era muito visado em passeios nas ruas. Tem saudade daquele protagonismo, de decidir um clássico e sair às ruas no dia seguinte?
O jogador que atua em um clássico, sua equipe ganha e ele vai bem no jogo, faz gols, no outro dia ele é carregado pela multidão de torcedores do clube. Isso aconteceu várias vezes comigo, jogar bem em clássicos e fazer gols, senti esse gosto maravilhoso. Qualquer jogador que faz isso ganha muita moral.

Como você compara os clássicos antigos com os da atualidade?
A torcida é diferente, ficava dividida, era muito bom, motivador para ambas as equipes e jogadores. Era maravilhoso. O jogador entrar em campo com a torcida dividida é fantástico, motiva demais. Isso interfere até na competitividade. O clássico mexe com a cidade, com o povo todo, mas a torcida dividida empolga mais. Cheguei a jogar no Mineirão com 100 mil pessoas. Isso era uma motivação enorme. A rivalidade, para mim, na época era muito maior do que hoje.

Você foi jogador de base do Cruzeiro e hoje trabalha nas categorias inferiores do clube. Como você compara sua época e o trabalho realizado atualmente?
A estrutura nem se compara. Na minha época tínhamos três refeições apenas. Hoje os meninos têm cinco refeições,  psicólogos, escola e uma orientação enorme. O jogador hoje é blindado, o clube forma mais do que o atleta, forma o homem. Até uma certa idade o jogador é obrigado a ir à escola e terminar o segundo grau. Costumo dizer que aqui o jogador não joga apenas se não quiser. Tem uma estrutura enorme a seu favor. A base hoje era o que o profissional da minha época tinha.

Quem eram os grandes marcadores do Careca?
Nos grandes clássicos, o Batista era difícil de passar, o Vander Luiz, volante muito bom, Éder Lopes, outro que marcava forte e tinha qualidade na saída de bola. Esses três jogadores davam muito trabalho para desenvolver meu futebol, mas eu consegui fazer bons jogos mesmo com a marcação deles.

E o seu grande parceiro no Cruzeiro, quem foi?
Meu grande parceiro foi o Hamilton. Formamos a dupla de xarás, o Hamilton Souza, eu, e o amigo Hamilton Lima. Tive a felicidade enorme de atuar ao lado dele, nos entendíamos muito bem. Pegamos uma sequência boa juntos, quase cinco anos. Tínhamos um bom entrosamento e um complementava o outro. O Hamilton era o homem de referência no ataque, mas tinha qualidade técnica muito boa, era ambidestro. O principal de um atacante, na minha opinião, é o cabeceio. E ele tinha também esse fundamento, além de finalizar com a esquerda e com a direita. Fizemos muitos gols no Cruzeiro e demos alegrias ao torcedor.

Você veio de Passos, no interior do Estado. Como foi a chegada do Careca ao Cruzeiro?
Fui descoberto em Passos, quando tinha 13 anos. Quem me viu jogar foi o Rossi, o treinador do time júnior à época, e o Ary da Frota Cruz, um diretor. No interior o futebol amador é muito forte, aí juntaram uma seleção da cidade contra os juniores do Cruzeiro para inaugurar o estádio local. Joguei na preliminar desse jogo e o Ary gostou de mim.

Você acredita que os problemas que teve quando jogador, certos desvios de conduta, fizeram com que o seu protagonismo como atleta fosse menor do que poderia ter sido?
Acredito que se tivesse a estrutura de hoje a meu favor, teria conquistado mais. Me prejudiquei bastante, pois tinha qualidade para jogar em alto nível em times grandes por muito mais tempo. Pelas decisões erradas, acabei encerrando a carreira antes do que imaginava. Eu tenho consciência disso, mas é passado. Como atleta, no período que estive como profissional, minha carreira foi extremamente brilhante.

Quem foi o seu grande ídolo, sua inspiração quando você era jogador de futebol?
Eu me inspirei muito no Zico, meu grande ídolo no futebol. Me espelhei muito nele, um jogador de extrema qualidade técnica. Dentro e fora de campo ele teve muito sucesso. Um jogador que deu muito exemplo e dá até hoje.

O que o Cruzeiro representou na vida do jogador Careca e o que o clube representa para você como cidadão?
Representa tudo, aprendi tudo e fui criado no Cruzeiro. Minha educação foi toda moldada aqui, era um menino quando cheguei. O Cruzeiro tem todo o meu respeito por ter me ensinado e ter dado a oportunidade de ser o que sou hoje, para chegar onde cheguei. Sou eternamente grato ao clube por me acolher.

* No próximo sábado/domingo, confira o Papo em Dia com um ídolo atleticano.

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Nas décadas de 1980 e 1990, o então camisa 10 ganhou fama de carrasco alvinegro