Cidade do Galo, em Vespasiano-MG. Éder Aleixo de Assis se sente em casa, naturalmente. Na terra natal, no Centro de Treinamentos do clube do coração, o ex-ponta virou auxiliar fixo da comissão técnica do Atlético.

Figura histórica do clube, e também do futebol nacional, calçando chuteiras por mais de 20 anos profissionalmente. Famoso pelo temperamento explosivo na época de jogador, hoje só detesta ser chamado de senhor. Mas os cabelos brancos, os 61 anos batendo à porta (completa agora, no dia 25), e os 368 jogos pelo Galo impõem respeito. 

Bad boy, galã na década de 1980, pavio curto - acumulou 25 expulsões só no Galo -  e um dos chutes mais atômicos dos gramados brasileiros, o "Bomba" virou "Professor" no Atlético. Conselheiro dos atletas comandados pelo "menino que sabe das coisas" Thiago Larghi, referência para as faltas de Otero, exemplo para o controle mental de Róger Guedes, e cumprindo a intenção inicial de ser amigo do elenco. 

"Temos o mesmo objetivo que é o Atlético. Se precisar pegar uma bola ou uma chuteira para um jogador, eu vou. Não tenho frescura", decreta, nesta entrevista ao Papo em Dia.

A época na qual saía pra porrada em campo - algo que lhe tirou uma Copa do Mundo - ficou para trás. Histórias que poderiam virar facilmente um livro, que ele parece teimar em não levar adiante. Hoje, a missão é ser ajudante no Galo, enquanto fora do batente dedica seu tempo a cuidar da mãe, dona Zilda, perto dos 90 anos.

Ser recrutado para voltar ao Atlético, depois de tantos anos, significa o que pra você? Como tem sido respirar o dia o dia do clube que você fez 368 jogos? Como foi o convite da volta?
O convite foi através do Alexandre Gallo e do presidente (Sette Câmara), que é um amigo de muito tempo. Tudo isso facilitou. Estava acontecendo um projeto e me convidaram. Fiquei super satisfeito por trabalhar com Marques, Valdir, Edgar e outros ex-atletas. O projeto era de rodar todas as categorias, para garimpar a molecada e quando achar um jogador numa condição melhor, trazê-lo para o profissional. Aceitei porque a minha vida sempre foi o Atlético. Foram 10 anos como jogador, depois como auxiliar e gerente de futebol. Agora num recomeço de trabalho da base, fundamental no clube, para sustentar o profissional. Fica em casa fazendo porra nenhuma? Não né?

Você foi contratado pelo Atlético para ser parte de um projeto de excelência técnica da base ao profissional. Agora ocupa o cargo de auxiliar do Thiago Larghi. Que balanço pode fazer deste começo de trabalho no clube?
A própria diretoria, vendo meu trabalho e aparecendo esta vaga, aproveitou que eu já estava aqui. Foi um pulo, e uma surpresa muito agradável, mas não deixei de estar com o pessoal da base. Sempre que posso, passo lá para saber das coisas e observar alguém para trazer para cá (profissional). E agora auxiliando o Thiago, que independente de ser um cara novo, é muito experiente e estudioso. É um menino, mas um menino que sabe das coisas, é bom e o Atlético está bem servido.

No Galo você foi jogador e dirigente. Chegou a ser auxiliar do Procópio. Há pretensões de ser treinador principal?
Deixei bem claro que não quero ser treinador. Quero ajudar o Atlético sendo auxiliar permanente. Não gostaria. Numa emergência não teria problema. Quero estar aqui ajudando o Atlético e dar continuidade na base também. A base é onde dará frutos num grande clube como é o Galo. Temos certeza que vamos revelar grandes jogadores, muito mais do que antes. É claro que não será de uma hora para outra, começamos em dezembro. Esse ano não acredito ainda, mas a partir do ano que vem eu tenho certeza. A dificuldade que temos é que o Atlético, assim como Corinthians e Flamengo, é muito difícil aceitar. É uma cultura diferente da do Santos, por exemplo. A torcida precisa de um pouco mais de carinho e paciência com os meninos. Peço que nos apoiem. O menino precisa sempre ser aplaudido e ajudado.

Como auxiliar, você tem contato diário com os jogadores. E virou uma espécie de conselheiro para eles, por tudo que já viveu no futebol?
Eu sou um cara bem simples e comigo não tem frescura. No dia da minha apresentação no profissional, eu fui bem claro com eles. Disse que estou aqui como amigo deles. Temos o mesmo objetivo que é o Atlético. Se precisar pegar uma bola ou uma chuteira para um jogador, eu vou. Não tenho frescura. Por isso fui tão bem aceito e tenho grande carinho por eles. Às vezes tem jogador que não está jogando, então temos que motivá-lo todos os dias. Fui um cara iluminado, abençoado, mas fiz muita merda. Deixei de ir numa Copa do Mundo por uma expulsão. Eu falo da minha vida para eles. Eles brincam comigo. Eles me chamam para bater bola e ainda falam “professor”, mas não é “professor”, nem “Seu Éder”, é só Éder. É o clube do meu coração e, por isso, me revigorou. Estou fazendo academia, já fazia, até pela minha saúde, agora também para jogar bola com eles. 

Roger Guedes emplacou três jogos consecutivos e marcou três gols. Muito se fala de uma conversa que você teve com ele. Realmente aconteceu? Quais foram os conselhos?
Ele me chamou lá na Argentina (treino antes do jogo contra o San Lorenzo) e me falou que estava chateado. Falei para ele que é um menino; que tem um filhinho, uma mulher e a família. Deixei claro que estou aqui para tudo o que precisar, que é também para ficar mais calmo. E está aí, fez três gols em três jogos.

Surgiu um papo no qual ele seria devolvido ao Palmeiras...
Sempre falei nas reuniões (com a diretoria e comissão técnica) que é um cara que precisamos muito. Ele tem força, habilidade, é jovem... Tínhamos que esgotar todas as possibilidades. Que precisaríamos do Róger. Eu conversaria com ele. Na Argentina ele foi até mim e disse: “Éder, não estou feliz”. Disse para ele ter calma, iríamos conversar com o pessoal. O Fábio (Santos) também o ajudou muito. Meu trabalho é esse no dia a dia. Minha carreira foi muito boa para mim, e agora é legal ficar conversando com essa molecada, dar alguns conselhos para ele. Acho que a minha experiência vem sendo fundamental.

Éder em sua 2ª passagem pelo Atlético - 1989-1990

Éder em sua 2ª passagem pelo Atlético;1989-1990

Você sempre foi reconhecido pela potência na perna esquerda. Como tem visto de perto o desempenho do Otero, tão pequenino, mas com um chute tão forte? Podemos compará-lo com Marcelinho Carioca, por exemplo?
O estilo do Marcelinho Carioca era diferente do meu. Não posso falar pelo Nelinho. Mas acho que o Otero se assemelha mais com o Marcelinho. Até pelo pé, a batida da bola. Mas não foge muito. Eu aqui com o Otero, venho falado com ele, até porque ele não tem lado bom, ele bate dos dois lados. O meu lado era com a perna esquerda no canto direito. Até na Copa do Mundo eu batia para o gol. Falei com ele, até no último sábado, para ir treinando até sem goleiro. Vai batendo, batendo. Vai errar? Vai. Uma hora o Ricardo cabeceia, bate num zagueiro... É treinamento. Eu treinava demais, era o primeiro a chegar e o último a sair. 

Você percebe que eles conhecem a sua história? Se interessam e perguntam?
Eles conhecem sim. Fico só observando, ouvindo eles falarem: "Vi um gol seu hoje, assim..." . Claro que vão procurar saber, até pelas conversas que temos. Eles falam: “É, professor. Vi um gol seu”. Mas aí me enchem o saco quando pego uma bola ruim aqui - "É a idade, não aguenta mais..." . O Guedes mesmo é um vagabundo (risos). "É a idade né?". São 61 anos agora em 25 de maio. Mas o ambiente é muito bom e isso ajuda. Tivemos dois, três jogos que não ganhou. Tivemos o problema da torcida lá (no aeroporto, após o jogo de volta contra o Ferroviário). É normal, a torcida cobrar. Depois ganhamos do Vitória e Corinthians, quando jogou para caralho. 

É a favor da permanência do Larghi?
O Atlético deu sorte. É um cara sensacional, que trabalha muito e que tem sido muito respeitado. Independente de ser interino ou efetivado, tem trabalhado pra caramba e está bem. Aqui não é só o Thiago. Tem muitas pessoas envolvidas e isso ajuda. Ele está começando agora, lógico que tem coisas que assustam, mas está bem amparado. É muito bacana falar dele. A própria reação dos jogadores com ele. A diretoria toda está vendo o trabalho dele e não tem que pensar em outra coisa; que continue assim. Tenho certeza que ele vai até o final do ano.

O Atlético está numa política de conter gastos. É possível vislumbrar títulos em 2018?
Olha, rapaz. Nós estamos começando. Mas é um ano que eu vejo... Hoje mesmo, por um acaso que não vou falar o que foi, me veio aqui desse Campeonato Brasileiro para o Atlético este ano. Não sou místico, nada dessas coisas. Mas foi algo que aconteceu comigo, que liguei uma coisa com a outra... e conclui: "É, pode ser". Ambiente bom, treinador bom, turma boa, vontade e dedicação. A diretoria trabalhando, presidente tentando melhorar cada vez mais. O pensamento é esse, com humildade e respeito. Se tudo na vida, com respeito, as coisas melhoram". 

Você foi um símbolo na década de 1980. Naquela época havia o rótulo de "bad boy"? Você mesmo diz que fez muita merda...
Eu gosto de viver a minha vida. Até hoje não sou de encher a cara. Tomo minha cerveja e hoje sou mais de tomar vinho. Eu era menino, badalado, jogador de Atlético, Seleção, com a mulherada em cima. Quem é que não vai? Aproveitei a minha vida, cara. Hoje o futebol mudou e se profissionalizou muito. O cara não pode perder uma noite de sono, hoje. O trabalho é até menos do que na minha época, mas uma intensidade maior. Você vê a correria que é dentro de campo. Aproveitei a minha vida, e graças a Deus a levo de forma tranquila hoje. 

Graças a Deus não havia rede social naquela época?
Se hoje você vai num restaurante, com dois segundos você já está para milhões de pessoas. Na minha época não tinha isso. Jogador tem que ter mais cuidado. O futebol mudou muito de um tempo para cá. Se o jogador não se cuidar, não vai jogar. Vai ser lesão atrás de lesão. Eu achava que departamento de fisiologia era frescura, hoje vejo que não é. É coisa séria e tem que acompanhar a evolução do esporte.

Seleção Brasileira de 1982 - Éder na ponta-esquerda, num time que marcou uma geração

Seleção Brasileira de 1982 - Éder na ponta-esquerda, num time que marcou uma geração

Dos seus erros, o de 1986 foi o pior, com o soco no peruano Castro?
Foi. Porque eu deixei de ir numa Copa do Mundo. Era titular da Seleção e deixei de disputar a Copa no México. Já havia acontecido o mesmo caso com o Leandro e o Renato Gaúcho, que não preciso nem contar, e nos avisaram que qualquer outra indisciplina seria motivo de corte. E o babaca aqui não ouvi. Quem me expulsou foi o Arnaldo Cézar Coelho. Já sentamos, conversamos.. Já mandei ele tomar no c... Mas fazer o que? O errado fui eu. Ele não teve culpa. O cara primeiro... não me lembro mais... Mas cuspiu na minha cara. Aí eu: "Puta que pariu"... Era jogo amistoso! Dia 1º de abril (1986), lá em São Luis-MA. E depois o filho da puta veio e passou a mão na minha bunda. Sentei a mão na cara dele. Aí o Arnaldo me expulsou. Fudeu. Só liguei para a minha mãe e falei que seria cortado. Só pensei na minha mãe. Quis prepará-la, ouvindo da minha boca. Teve outras merdas dentro de campo. Fui expulso duzentas mil vezes na carreira, mas nunca fui de esperar passar o lance para depois pegar o cara, não era maldoso. A minha reação era imediata, eu brigava, e brigava também porque tinha mais outros 10 para me ajudar. 

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E era uma época sem tantas câmeras, havia mais "abertura" para agressões em campo. 
Não tinha nada. O jogo estava rolando num pedaço de campo, e do outro lado o jogador tava dando porrada no adversário. Hoje, se você cuspir no gramado aqui, todo mundo vê. Tem até que conversar com a mão na boca. Aí é foda...

Tem uma história no Grêmio que você chegou a se apresentar com o braço enfaixado, pois havia sido vítima de disparos de tiros... É verdade?
Eu levei um tiro. Estava de férias aqui, então estavam assaltando na Savassi... Eu estava com o Marcelo, o Marcelo Oliveira. Tínhamos voltado da praia e ele até iria dormir na minha casa. Fomos num barzinho na rua Paraíba. Já estava indo embora, eu estava no meu carro, ele no dele. Ouvi pedido de socorro dele, que estavam assaltando. Eu fui para cima dos caras e me deram dois tiros, pá! E correram... Quando eu fui levantar o Marcelo, senti o sangue. Tenho essas duas marcas no braço. Fui para o hospital, lúcido, me mostraram as duas marcas e fiz a cirurgia. Eu tinha 21 anos, foi em 1978, havia ficado na lista dos 40 jogadores do Cláudio Coutinho (para a Copa da Argentina), eu e Falcão. Jogava no Grêmio. O Telê chegou no hospital, era o meu técnico. Eu fiquei na enfermaria, ao lado de outras vítimas de um acidente num viaduto. Ele chegou querendo me tirar, me levar para um apartamento. Perguntou o que aconteceu, eu expliquei que estava de férias. Com o Marcelo, foram só três pontinhos na cabeça.