"Bicha! Bicha! Bicha! Bicha!" O grito, vindo de parte da torcida do Sada Cruzeiro, em 4 abril de 2011, causou revolta no central Michael, na época jogador do Vôlei Futuro,  e resultou na punição do clube mineiro, com perda de mandos de jogos. Porém, passados seis anos do acontecido, o atleta, homossexual assumido, não guarda mágoas de quem o insultou.

Temeroso em revelar sua orientação sexual ao público e de tratar do assunto na imprensa, Michael evitava render para fugir de qualquer possível polêmica. No meio do voleibol, porém, sua opção não era segredo para atletas e dirigentes. Amigos e familiares sabiam desde que ele tinha 15 anos. A mãe, Kate, inclusive, também é homossexual.

Aos 34, o jogador, atualmente sem clube, garante ser uma pessoa extremamente feliz. Nesta quarta-feira (17), sem saber que era o Dia Internacional do Combate à Homofobia, andou normalmente pelas ruas de Araçatuba, no interior paulista, sem insultos ou qualquer manifestação preconceituosa.

"O mundo hoje anda sem amor, sem paz e sem respeito. Acho que, antes de aponta, discriminar, ofender, temos que nos colocar no lugar do outro, rever conceitos, abrir a mente. Somos um mundo onde ninguém é igual a ninguém, e será sempre assim. Esse ódio gratuito é desnecessário. Só queremos ser felizes, como todos querem", comenta Michael.

michael

Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, Michael falou sobre a importância de se debater o tema, ainda mais num país extremamente intolerante.

Como é lidar com o preconceito das pessoas? Dentro dos ginásios é mais doloroso?

Hoje em dia esta situação mudou um pouco, acho que até por causa do episódio em Contagem. Mas independente de onde o preconceito aconteça, é sempre muito doloroso você ser julgado pela sua opção sexual. Queremos ser respeitados como profissionais, não importa se no esporte ou numa empresa. Estamos em pleno século 21 e as coisas precisam mudar cada dia mais. Somos o país que  mais mata e violenta homossexuais e transgêneros. Este quadro precisa mudar.

Quando você decidiu assumir sua orientação sexual? Pediu conselhos?

Na verdade, nunca precisei assumir esta posição; na verdade, dentro do vôlei, todo mundo sempre soube. Graças a Deus, nunca sofri nada relacionado a preconceito ou homofobia. Sempre tive relacionamento maravilhoso com quem joguei e por onde passei. Por isso me assustei tanto com aquele episódio. Nunca me preocupei com esse quadro, até que aconteceu comigo, me assustei, me intimidei, foi um jogo de TV, meus amigos e familiares estavam assistindo. Tive muito apoio da equipe e patrocinadores, o que fez grande diferença. Foi um momento de mudança na vida de muitas pessoas.

Como seus companheiros de clubes reagem? Sofre ou sofreu com piadinhas por ser gay?

Dentro dos times onde joguei tive um apoio muito grande dos meninos. Sempre fui muito respeitado dentro do vôlei, então nunca teve piadinhas. Sempre tive muito apoio e me parabenizaram pela coragem.

Como foi a reação dos familiares com o preconceito das pessoas e o julgamento da sociedade?

Minha mãe é lésbica. Dentro de casa não se assustaram quando assumi, mas ficaram preocupados com aquela situação. Queriam que eu ficasse bem. Me deram muito apoio. Voltei para Araçatuba e me deram muito carinho e conselhos. Como saí de casa com 15 anos, sempre fui muito responsável. Nunca perguntei nada, pois tinha muita coisa formada na cabeça. Não tinha medo de falar sobre minha orientação sexual.

O que mudou na sua vida desde o dia que assumiu publicamente ser gay?

É sempre muito difícil fazer essa avaliação, mas pesando por todos esses anos, eu amadureci muito. Antes ainda tinha uns momentos de ficar chateado com o que as pessoas pensavam a meu respeito, mas hoje isso já não existe mais. Hoje muita gente pensa duas vezes antes de falar ou fazer algum ato homofóbico, muitas pessoas me conhecem por eu ser apenas eu , sem máscara e sem rótulo, e que eu continuo a mesma pessoa...e que muita gente me Adimira por isso. E respeita!

Acha que portas se fecharam?

Eu sei que muita gente sofre preconceito todos os dias , em todas suas formas. Morria de medo que depois que assumi , as portas se fechassem , mas graças a Deus isso não aconteceu , tive uns momentos difíceis , até achei que fosse relacionado a isso, mas realmente era um momento de mercado ruim , onde muita gente ficou desempregada , mas nunca fiquei sem time , realmente as portas não se fecharam pra mim.

Por que não vemos mais tantos casos parecidos? São raríssimos no Brasil.

Isso vem mudando, esse tabu vem sendo quebrado... Se olharmos para trás, mesmo que a passos minúsculos, temos conquistado alguns direitos; mas muito tem que ser feito ainda. Nós que somos pessoas públicas , podemos fazer ainda mais.

O que você acha do grito de "Ô bicha", utilizado no futebol, por torcedores, quando o goleiro vai bater o tiro de meta? Muitos dizem ser apenas uma brincadeira do mundo da bola e rechaçam ser um grito homofóbico.

O preconceito começa em brincadeiras, quem olha, quem escuta, acaba achando isso coisa normal. É uma coisa que incendeia. Se a gente aceita isso, mesmo como brincadeira, também somos preconceituosos.