Quando Joãozinho pisava nos gramados Brasil afora, o tapete verde dos estádios praticamente se transformava em pista de dança. Eterno ponta-esquerda do Cruzeiro entre 1973 e 1984, o “Bailarino da Toca” colocava seus marcadores para dançar. No seu entrelaçar de pernas, com velocidade concatenada, movimentos rápidos e passos certeiros, o ídolo celeste, também conhecido por “John Travolta da bola” – em referência ao ator norte-americano e seus papéis dançantes no cinema –, foi um dos pioneiros daquilo que conhecemos hoje como “futebol moleque”. 

Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia em sua passagem recente pelo Brasil, Joãozinho, atualmente morando em Boston, nos Estados Unidos, relembra momentos marcantes de sua carreira, a conquista da Copa Libertadores de 1976, o erro do árbitro que tirou o título Brasileiro da Raposa 1974 e suas eternas amizades advindas do futebol. 

Você foi uma das grandes revelações do futebol mineiro. Por que o futebol local vive grande crise na revelação de bons jogadores?

Os melhores jogadores saem da base, torcem para o time, amam o clube e jogam com amor. Hoje há uma grande dificuldade dos clubes, principalmente Cruzeiro e Atlético, que revelam pouco. É preciso olhar melhor para a base, pois é de lá que surgem os craques. Tem que haver profissionais gabaritados para trabalhar na base, alguém que jogou, participou e tenha a competência de treinar. Assim os clubes vão retomar essa característica de revelar atletas formidáveis, como aconteceu no passado. 

Atualmente, muitos profissionais que trabalham na base nunca jogaram futebol profissional. Isso prejudica o processo de revelação de novos talentos? 

É diferente uma pessoa que joga bola a vida toda em relação àquela que não teve toda essa vivência. A competência desse profissional que viveu o futebol é muito mais acentuada do que a de alguém que nunca deu um chute na bola. Cobro do Cruzeiro, que temos que fazer mais bons jogadores na base. Hoje, comprar jogador é muito caro, não se sabe se dará certo, o cara vem de longe e ganha salário milionário. É uma incógnita. O Cruzeiro revelou vários atletas impressionantes, Douglas, Carlinhos Sabiá, Eduardo Lobinho, Geraldão, Gomes. Atletas que fizeram parte de times espetaculares. Se tem um cara que é gabaritado, jogou bola a vida toda, esse tem mais visão e capacidade do que o outro que aprendeu futebol na internet ou na escola.

Você não quis seguir carreira no futebol após a aposentadoria. Qual a sua relação com o esporte hoje? 

Sou apaixonado com futebol, não deixo e nunca deixarei de acompanhar. Assisto o futebol inglês, norte-americano, o próprio futebol brasileiro. Atualmente, o Campeonato Espanhol é o que mais encanta pela beleza, assisto muito. Deixei de ver com frequência o Italiano. Futebol é tudo para mim. 

Qual a grande diferença do futebol atual para o jogado na sua época?

Hoje o futebol é de correria, de entrega física e psicológica, e evoluiu bastante. No meu tempo não era corrido assim. Ficou com regras firmes. Hoje temos cartões, antes não existia. Antes podíamos voltar a bola para o goleiro, ele defender com a mão e cair. Hoje não.Atualmente é diferente.

Você teve muitas propostas para deixar o Cruzeiro?

Todo mundo critica a Lei Pelé e eu vivi de perto, participei disso tudo. Naquela época nós fazíamos contratos de gaveta e os clubes ram donos dos nossos passes. Sofri com isso. Só era possível sair dos clubes quando os dirigentes da época quisessem, tínhamos contratos por tempo indeterminado. Nos obrigavam a assinar contrato. No meu caso, o ex-presidente Felício Brandi e o Carmine Furletti, que depois também presidiu o clube, eram apaixonados comigo. Eles não me vendiam de jeito nenhum. Quando o Roberto Dinamite foi vendido para o Barcelona, um dirigente do Vasco veio a Belo Horizonte querendo me comprar. Mas o Felício pediu aos cariocas o dobro do valor que o Vasco arrecadou com a venda do Dinamite. Era muito dinheiro. O empresário Juan Figger também quis me tirar do Cruzeiro. Recebi milhões de propostas, o Paris Saint-Germain, da França, quis me contratar. Mas não saí e sou feliz por ter feito minha vida no clube. Foi tudo espetacular. 

Você fraturou a perna, em um lance com o Darci Munique, zagueiro do Sampaio Corrêa, em 1981. Você teve contato com o Darci depois?

Ele me ligou várias vezes, me pediu desculpas. Eu vacilei no lance, nunca imaginei que ele daria um carrinho. Esperei ele agir para dar o toque e sair carregando a bola, mas fiquei com a perna direita apoiada na grama. Essa foi a minha infelicidade. Se eu dou o toque e levanto a perna não haveria problema. Eu estava com muita vontade de ir para o gol e o Darci era o último homem. Aí, acabei machucando e isso me atrapalhou demais, fiquei um ano e meio parado. Depois disso o Cruzeiro me vendeu para o Internacional.

cruzeiro, joãozinho, papo em dia

Joãozinho em um treino na Toca da Raposa nos anos 80



Seu filho, também conhecido como Joãozinho, teve lesão parecida com a sua quando atuava pelo sub-20 do Cruzeiro. Como foi para você participar desse momento.

Eu estava no Independência naquele dia, foi duro assistir aquilo. No meu caso, o Telê Santana havia me dito que eu seria o ponta-esquerda dele na Copa do Mundo de 1982, um ano antes eu quebrei a perna e o sonho da Copa terminou. Passou na minha cabeça um filme, vi uma história se repetir. Mas acreditei na medicina, que já era muito diferente do que na minha época. O Joãozinho não teve lesão tão grave como a minha. Eu que o levei para o hospital, tirei ele do campo. Foi muito difícil.

O futebol atual é mais violento do que o disputado na sua época?

Não. Hoje o mundo todo assiste, são várias câmeras espalhadas no estádio. Eu lá dos Estados Unidos assisto jogos do futebol brasileiro. Antes, a gente chegava na Argentina, “tá doido”, os caras davam soco, brigavam e diziam que bateriam mais na gente. Amedrontavam mesmo. Soltavam os cachorros da polícia nos jogadores, os bandeirinhas sumiam na hora de buscar a bola perto dos cães. Era ruim demais. Foguetório em hotel existia com muito mais intensidade que hoje, era uma loucura. Não deixavam a gente dormir. 

Na final do Campeonato Mineiro de 1977 o Atlético era o favorito, mas o Cruzeiro foi campeão. Aquela história do Toninho Cerezo pegar a taça e falar depois do primeiro jogo que enquanto ele e o Reinaldo jogassem no rival vocês não ganhariam nada motivou vocês? 

Eles perderam aquele campeonato por causa do Cerezo. Ele mexeu com os brios dos jogadores do Cruzeiro, e ninguém pode fazer isso. O momento era deles, que tinham um time fabuloso em vista do nosso. Estávamos em transição, tinham saído o Zé Carlos, Jairzinho, Palhinha. Estávamos em crise, mas o Cerezo nos motivou demais. Entramos com muito gás. Chegaram a dizer que houve entregada do Ortiz (goleiro do Atlético à época), bobagem. Eles jogaram para ganhar.

O Cruzeiro foi roubado no Brasileiro de 1974?

Na final contra o Vasco houve invasão de campo por parte de dirigentes do Cruzeiro no Mineirão. Na época disseram que não haveria condições de fazer mais jogos no estádio. Por causa disso levaram a partida para o Maracanã. Os diretores do Cruzeiro menosprezaram o adversário, diziam que a gente ganharia do Vasco até no Japão. Teve menosprezo e no futebol não pode ter isso. E o árbitro Armando Marques foi o grande culpado. Anulou um gol legítimo do Zé Carlos, que saiu vibrando, mas o gol foi anulado. O Armando tirou o título do Cruzeiro, o bandeirinha tinha confirmado para o Nelinho que o gol havia sido legal. 

Em 1975 o Cruzeiro perdeu o Brasileiro para o Internacional. Em 1976 deu o troco na Libertadores. Foi como uma vingança? 

Não teve vingança, o que teve foi foco e persistência. Tínhamos pela frente um time com Figueroa, Falcão, Caçapava, Valdomiro, um time fabuloso. Conseguimos eliminá-los, e seguimos até o título. Fiz ali a maior exibição da minha carreira.

Além do Cruzeiro você também passou pelo Palmeiras, e em São Paulo fez dupla com o Reinaldo. Foi a reunião de dois grandes jogadores que tiveram muito destaque em Minas Gerais.

Tenho uma amizade incrível com o Reinaldo, relação que construí nessa época de Palmeiras. Depois do nosso período no futebol, o Reinaldo morava em Nova York, eu moro em Boston, tínhamos bastante contato por lá. E ainda temos esse contato. Cheguei ao Brasil e fui convidado a ir à casa dele, uma cobertura na Savassi, fizemos churrasco. Somos muito amigos. 

O Nelinho foi seu companheiro de muitos títulos no Cruzeiro. Depois vocês viraram rivais. Rolava resenha antes dos jogos?

Não tinha conversa. Na hora do jogo era diferente, entrávamos cada um para defender a camisa do seu clube. Nos cumprimentávamos e era só. Para você ter ideia, em um jogo ele me deu um carrinho e eu tive que tomar 30 pontos na perna. Era desse jeito.