A medalha de prata conquistada nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foi heroica e inesquecível, com direito a vitória na semifinal sobre Kerri Walsh, considerada a melhor jogadora de todos os tempos. Mas não o suficiente para satisfazer os planos de Ágatha Bednarczuk Rippel.

Após o inesperado fim da parceria com Bárbara Seixas, três dias depois daquela final, a paranaense de 33 anos viu na jovem Duda Lisboa, de apenas 18, a companheira ideal para dividir o sonho de subir ao lugar mais alto no pódio do Vôlei de Praia em 2020.

Os resultados da nova dupla chegam a ser surpreendentes, com oito medalhas em oito competições disputadas (três ouros, três pratas e dois bronzes). Destaque para o título da etapa do Rio de Janeiro do Circuito Mundial, em maio, resultado que as colocou na liderança da competição.

Neste Papo em Dia, Ágatha avalia as chances de conquistar um título internacional já neste primeiro ano de parceira e revela ter adiado a maternidade para continuar jogando em alto nível, com a meta de faturar a sonhada medalha de ouro na Olimpíada de Tóquio.

Como avalia esse bom início de parceria com a Duda? Tantos pódios te levam a acreditar em um título mundial já neste primeiro ano da dupla?

São dois sentimentos ao mesmo tempo, sabe? De certa forma, o que nós temos mostrado como time, tanto no Circuito Mundial quanto no Brasileiro, já nos dá essa credencial. Mas, para mim, não deixa de ser uma surpresa. É um time novo, e a Duda é uma jogadora muito jovem. Eu imaginava que daria certo, mas não achava que esse entrosamento pudesse vir tão rápido dentro e fora de quadra.

Ainda é cedo para falar em manutenção da dupla e desses resultados pensando nos Jogos Olímpicos de 2020?

A nossa principal meta é Tóquio, com certeza! Mas ainda é apenas o começo de um novo ciclo olímpico. Temos muito a crescer como time, e estamos aprendendo juntas a nossa melhor forma de jogar. Eu me admirei com a resposta da Duda desde os primeiros torneios. Ela teve alguns momentos de dificuldade, mas segurou muito bem a pressão.

Ágatha e Bárbara

Ágatha subiu ao pódio no Rio após vitória sobre a lendária Kerri Walsh na semifinal do torneio olímpico

Como foi iniciar uma nova dupla com uma jogadora 15 anos mais jovem?

Nunca foi uma preocupação. Não tive o receio de que isso poderia nos afetar de alguma forma como time. Apesar da diferença de idade, nós estávamos muito abertas para essa novidade. Ela saiu de casa, da cidade dela no interior de Sergipe (São Cristóvão, na região metropolitana de Aracaju), para vir morar no Rio de Janeiro. Então sempre tivemos bastante tranquilidade. Eu sabia que seriam muitas mudanças e pressões, e que ela precisaria de um período para se adaptar.

E como é a convivência agora, passado esse primeiro momento?

Essa experiência tem sido muito boa. A Duda é uma menina quietinha, mais introvertida e séria. E eu sou o oposto dela nesse sentido. Sou toda brincalhona, tem hora que pareço até criança (risos). Talvez isso tenha nos aproximado e ‘diminuído’ essa diferença grande de idade.

Foi difícil, lógico, porque tive que correr atrás de uma nova parceira e montar uma outra equipe. Mas foi um mix de emoções. Ao mesmo tempo, eu estava muito feliz e realizada com
aquela medalha”

Você já esteve do outro lado, quando formou dupla com a Sandra Pires, que já era campeã olímpica (11 anos mais velha). Essa experiência te incentivou nesse novo projeto?

Na verdade, não cheguei a pensar nisso como uma inspiração. A vontade de jogar com a Duda veio pelo que ela é como jogadora. É uma menina, mas cheia de potencial e já muito vitoriosa desde nova. Eu via nela características importantíssimas, como determinação e vontade de treinar e melhorar sempre.

Sobre o período com a Sandra, qual é a lembrança mais marcante?

Olha, isso faz bastante tempo, já tem 12 anos. O que eu posso dizer é que ela tentava me ajudar muito nas coisas do cotidiano desde que cheguei ao Rio de Janeiro. Para você ter uma ideia, a Sandra me levava até para o salão onde fazia as unhas, por exemplo (risos). Ela fez questão de me apresentar e me mostrar tudo. Em matéria de quadra, eu nunca tinha disputado o Circuito Mundial e joguei pela primeira vez ao lado dela. Então essa foi uma grande porta que a Sandra me abriu como atleta.

O que mudou na sua vida após a conquista da medalha no Rio?

Principalmente, aumentou muito o número de fãs e torcedores. Muita gente não me conhecia. Apesar de o vôlei de praia brasileiro ser tão vitorioso, quem acompanha é um público específico, amante do esporte mesmo. A Olimpíada no Rio realmente foi uma vitrine. Dá para ver bem claramente pelo número de seguidores nas redes sociais. Dobrou, pelo menos. Até hoje, muitas pessoas ainda me param na rua e fazem questão de me cumprimentar, me parabenizar.

Ágatha e Duda

Com Duda Lisboa, jogadora alcançou oito pódios e lidera o Circuito Mundial da atual temporada

Qual é o tamanho do sacrifício que o esporte te exige hoje, aos 33 anos, considerando que ainda tem a meta de ser campeã olímpica?

Os desafios vão mudando com o passar da vida do atleta. Quando eu era mais nova, o mais difícil era estar longe dos meus pais. Hoje, o maior sacrifício é optar por deixar de ter filho para seguir atuando em alto nível. Eu também gostaria muito de fazer uma faculdade, mas não consigo, porque viajo muito em função do Circuito Mundial. Então, nessas horas, sempre penso no objetivo maior. Isso tudo tem que valer a pena. E eu sou apaixonada pelo vôlei. Quando não tiver mais amor no que eu faço, a balançar vai passar a pender para o outro lado.

A Duda é uma menina
mais introvertida e séria.
E eu sou o oposto dela
nesse sentido. Sou toda brincalhona, tem hora
que pareço até criança. Talvez isso tenha nos aproximado e ‘diminuído’ essa diferença de idade”

Você chegou a cursar parcialmente a graduação em Jornalismo. Pensa em retomar o curso?

Sim. Quando eu parar, pretendo seguir por esse caminho da televisão, seja na frente ou atrás das câmeras. Na verdade, mais na frente, porque gosto muito de falar, sabe? Se me derem um espacinho (risos)... Eu tenho uma facilidade muito grande de me comunicar, e sempre gostei de escrever bastante também, então acho que faz sentido.

Como é trabalhar com o seu marido (o preparador físico Renan Rippel)? Tem algum segredo para conciliar a vida pessoal com a profissional?

Acho que não tem receita. Não vou pintar aqui uma imagem perfeita, porque não é. Temos momentos de dificuldade também. Nem sempre é legal viver o mesmo mundo, a mesma rotina. Mas, na minha opinião, a parte boa ainda é muito melhor, porque a gente conquista as coisas juntos. Nós somos um casal olímpico (risos)! Passamos por muitas coisas para alcançar esses momentos, então na hora da conquista é muito gostoso olhar para o lado e ele estar ali, junto comigo. 

Você jogou com a Bárbara por cinco anos. Como reagiu ao fim da dupla após a Olimpíada e que sentimento ficou em relação ao ciclo anterior?

Eu só consigo pensar “nossa, como aquele pódio ficou marcado!”. Porque já tem quase um ano e as pessoas ainda falam sobre isso. Foi algo que me pegou totalmente de surpresa na época. Foi difícil, é lógico, porque eu tive que correr atrás de uma nova parceira e montar uma outra equipe, pois apenas o Renan veio comigo. Mas foi um mix de emoções. Eu estava passando por essa situação, de não saber o que fazer dali em diante, mas, ao mesmo tempo, muito feliz e realizada com aquela medalha, curtindo pra caramba aquele momento.

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