Revelado pelo Cruzeiro no início da década de 1990, Ramon Menezes teve carreira brilhante como jogador. Exímio batedor de faltas e conhecido como “Reizinho”, o mineiro de Contagem fez história também por Atlético, Vasco, Vitória e outros clubes.

Agora como treinador, o ex-meia de 45 anos vive o desafio de superar os rebaixamentos recentes com Guarani de Divinópolis e Joinville e levar o Tombense às semifinais do Campeonato Mineiro.

Neste sábado (17), a equipe encara o Tupi, em Juiz de Fora, para tentar avançar e terminar a competição, pelo menos, entre os quatro melhores colocados. O duelo está marcado para as 17h, no Estádio Mário Helênio.

Neste Papo em Dia, Ramon relembra os momentos vividos como atleta e fala sobre o desafio de se consagrar na nova profissão, repetindo o sucesso alcançado com a bola nos pés.

Você surgiu no Cruzeiro, no início da década de 1990. Como foi a chegada ao clube na época?

Foi uma época maravilhosa. Na verdade, tudo começou em 1983, quando fui levado pelo meu ídolo e meu maior incentivador, que é o meu pai, para fazer um teste na escolinha do Cruzeiro. Era uma segunda-feira, e havia mais de 200 meninos no treino, que foi no Barro Preto, na sede do clube. Chegando lá, deu tudo certo e fui aprovado pelo professor Lincoln Alves, com o qual tenho uma gratidão eterna. Aprendi muito com ele, pois me ensinou muito cedo a entender o que é disciplina. Então, o Cruzeiro tem uma importância gigantesca na minha carreira, na minha formação como ser humano, pessoa e como homem. Passei pela escolinha, pré-infantil, infantil, juvenil e juniores (Taça São Paulo de 1990), até que, nesse mesmo ano, fui integrado aos profissionais. Até esse período, disputei muitos jogos, várias competições dentro e fora do Brasil. E fiz muitas amizades, que, mesmo com a distância, carrego para a vida toda.

O Cruzeiro tem importância gigantesca na minha carreira, na minha formação como pessoa e como homem. Infelizmente, na equipe profissional, não consegui retribuir tudo que o clube fez por mim"

E o início no time profissional? Quais as principais lembranças?

Quem me deu oportunidade no profissional foi o mestre Ênio Andrade, a quem devo gratidão eterna. Gostaria muito nesse momento de agradecê-lo, por ter realizado o sonho de um garoto de 17 anos. ‘Seu Ênio’ estava muito à frente, pois era muito inteligente e tinha muita sabedoria em uma época com pouca informação, sem celular, sem internet. Era um absurdo o seu conhecimento tático, a leitura do adversário, os seus trabalhos. Infelizmente, na equipe profissional, não consegui retribuir ao Cruzeiro tudo que o clube fez por mim. Quando você é jovem, é mais fácil transferir responsabilidades do que assumi-las. Não consegui manter a regularidade no Brasileiro de 1990, quando fui titular em todos os jogos, tendo sido a revelação de Minas Gerais naquele ano. Hoje, com o passar dos anos, tenho certeza da dimensão de representar um clube com a grandeza do Cruzeiro, um gigante do futebol.

Ramon Menezes Atlético Cruzeiro

Revelado pela Raposa no início dos anos 90, Ramon também defendeu o Galo, uma década depoisa

 

No Vitória, você ficou conhecido como o “Reizinho” e fez sucesso por lá. Acha que, por esta idolatria, em breve pode ocupar o posto de comandante da equipe? Já houve algum ‘namoro’ neste sentido?

Cheguei ao Vitória em 1994, e foi um casamento perfeito, pelo reconhecimento rápido do meu trabalho e crescimento profissional. Em 1995, já me transferi para o Bayer Leverkusen. Só voltaria a defender o Leão em 2008, ficando até 2010, então foi um dos clubes em que mais atuei. Um orgulho ter sido referência de profissional, pela minha conduta dentro e fora de campo. Por isso, tenho o reconhecimento e a admiração dos torcedores. Sobre o posto de treinador, tudo na minha vida tem seu tempo e sua hora. Eu estou trabalhando muito, aprendendo, ensinando, buscando conhecimento, passando conhecimento e muito feliz com esse meu começo de carreira.

Tínhamos um time muito forte, tecnicamente falando. Faltou um título de expressão na passagem pelo Atlético. Tenho um carinho enorme pelo clube e pela torcida”

No Vasco você também se destacou, principalmente pelas cobranças de faltas. Em quem você se espelhava?

No Vasco, conquistei os títulos mais importantes da minha carreira. E sempre carreguei isso comigo no clube, a missão de ser uma referência na bola parada. Acho que tudo é estímulo, repetição, técnica e vontade de treinar. Sempre trabalhei muito para que as coisas acontecessem bem dentro de campo. Uma grande referência na batida de falta foi o Zico.

Você chegou a defender o Bayern Leverkusen. Por que a passagem pela Alemanha foi tão rápida? 

Talvez tenha faltado maturidade e calma naquele momento, porque, mais cedo ou mais tarde, as coisas iriam se encaixar, e a adaptação ia acontecer. É um clube sensacional e um país fantástico.

No Atlético, você participou daquela equipe do técnico Levir Culpi, que era a favorita ao título brasileiro em 2001, mas que acabou eliminada na “piscina” do estádio Anacleto Capanella, na semifinal contra o São Caetano. É uma das maiores frustrações da carreira?

Não sei dizer se a palavra certa é frustração, mas foi uma tristeza enorme, pelo time que o Atlético havia montado. Já estávamos com uma base desde 2000, e tínhamos um time muito forte, tecnicamente falando. Faltou um título de expressão na minha passagem pelo Atlético. Tenho um carinho enorme pelo clube e pela sua torcida.

Ramon Menezes Edmundo Romário Vasco

Exímio batedor de faltas, Ramon teve auge da carreira no Vasco, pelo qual foi campeão da Libertadoresa

 

Qual é o estilo do Ramon treinador? Em que perfil você se encaixa?

Atento, sempre ligado em tudo. É uma carreira que requer muita concentração, disponibilidade para estar sempre evoluindo. Meu perfil é o de sempre, buscando o equilíbrio dos setores, de construção, criação e finalização.

Você assumiu o Guarani de Divinópolis e o Joinville em situações praticamente irreversíveis e acabou rebaixado com ambos. Acredita que, mesmo livre da culpa pela queda, pode ser rotulado neste início de carreira como treinador?

Encaro tudo na vida como uma oportunidade. E, no futebol, tudo tem seu risco. Então, quando assumi tanto o Guarani quanto o Joinville, sabia de tudo isso. No Guarani, era uma situação dramática, com 12 pontos a serem disputados, faltando quatro rodadas. Naquele momento, o time tinha só cinco pontos na competição, sendo que um jogo era contra o Cruzeiro no Mineirão. Foi um risco, sabendo que futebol é construção, tendo um mês para tirar o time dessa situação. Fizemos um ótimo trabalho, com o time jogando bem. De 12 pontos disputados, conseguimos sete (58% de aproveitamento), enchemos o torcedor de esperança, levamos até a última rodada. Mas, naquele momento, dependíamos de outros resultados.

E no Joinville?

Quando cheguei, peguei o clube com 30% de aproveitamento. Número de rebaixamento em Campeonato Brasileiro de Série B. Sabia do risco, mas é um clube em que joguei no fim da minha carreira, no qual havia sido campeão da Série C (2011), e da Série B (2014), como auxiliar técnico. Já tinha essa identificação. Poderia, naquele momento, não aceitar o convite. Mas conseguimos fazer um ótimo trabalho. Faltando 12 jogos, conseguimos quatro vitórias, quatro empates e quatro derrotas, um aproveitamento para meio de tabela (44%). Fizemos o Joinville jogar de igual pra igual contra qualquer adversário. Se tiverem coerência, analisarem os números e entenderem o que se passa, não tenho preocupação nenhuma com rótulo.

No Tombense, com tempo para trabalhar, você tem feito um trabalho bom, e a equipe tem brigado na parte de cima da tabela. Acha que essa é sua grande chance de mudar essa imagem ‘arranhada’ pelos dois rebaixamentos?

Tenho muita confiança no meu trabalho e, aqui no Tombense, estou mostrando isso com o campeonato (Mineiro) que estamos fazendo em 2018.

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