Roberto Rivellino aponta Pep Guardiola como o melhor treinador que já viu e tenta não soar muito saudosista ao falar sobre o futebol atual. Não consegue, porém, esconder o incômodo com a prevalência da marcação e a filosofia do jogo "por uma bola”.

Também, pudera. Foi um dos grandes entre os gênios ofensivos de sua geração e entrou para a história como um dos “cinco camisas 10” do Brasil tricampeão mundial em 1970, classificado por importantes veículos especializados como o melhor time de todos os tempos.

Com a serenidade de alguém que se considera “um privilegiado” e a autoridade de quem foi eleito para a Seleção da América do Sul no Século XX pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol (ao lado de Garrincha, Didi, Maradona, Di Stéfano e Pelé), o ex-meia de 72 anos fala neste Papo em Dia sobre a convocação de Tite, Copa da Rússia e grandes lembranças da carreira.

Gostou da lista do Tite para a Copa?

É o que tem, né? Não dá para questionar muito, um ou outro. Eu gostaria de ver o Luan, do Grêmio. É um jogador interessante. Quando ele entrou na Olimpíada, a Seleção mudou e foi campeã. Temos que dar esse crédito a ele. É um jogador que atravessa um grande momento. Mas o Tite conhece muito melhor o outro (Taison) e tem os seus motivos. Ponho o Brasil como um dos favoritos, mas até aí… Ganhar é outra história.

Por quê? Além das seleções tradicionais, acredita em alguma surpresa?

Copa do Mundo é detalhe, é momento. De repente, uma seleção que ninguém esperava encaixa e vai embora, porque é um tiro curto. Principalmente as equipes de tradição. Nós temos times interessantes neste ano, por exemplo a França e a Bélgica. Não sei se vão chegar bem coletivamente, mas se você analisar os nomes que têm, podem surpreender.

O Guardiola é o maior treinador que eu já vi. Ele tem a filosofia que eu gosto, que é o jogo bem jogado. Já estou de saco cheio de tanto escutar hoje em dia que o time vai jogar por uma bola. Puta que pariu, isso é muito pobre!"

A camisa ‘pesa’ mesmo numa Copa?

São essas que sempre chegam. A Espanha tem um conjunto muito forte, a Alemanha também não se pode descartar nunca. E você tem uma Argentina, que é sempre perigosa, cresce dentro das competições, e com o melhor jogador do mundo sabendo que é a última chance dele (Messi). Ele vai fazer de tudo, o possível e o impossível.

Seguindo essa lógica, Portugal não seria um candidato?

Eu não vejo Portugal. O homem é ‘programado para matar’, o que ele faz é brincadeira, mas está sozinho. Tem o Cristiano Ronaldo e mais quem? Não é como uma Argentina, que ainda tem aquele canhotinho da Juventus, o Dybala, ou o Di María. Mas tudo pode acontecer. Não sei se vamos ter um grande futebol nessa Copa. Tomara que tenhamos, tomara. Não estou muito otimista, porque a gente percebe que a preocupação é muito mais defensiva. Você tira três ou quatro seleções que buscam o resultado, então não sei se vamos ter um futebol bonito, bem jogado.

Qual o último time que trouxe algo novo e que realmente te fez parar para assistir com gosto?

Não foi exatamente uma novidade, porque ele mesmo disse que copiou o 4-3-3 da Seleção de 1970, mas o Guardiola é o maior treinador que eu já vi. Eu gosto de uma expressão que é a ‘ocupação de espaço’, e foi isso que a nossa Seleção e o Barcelona do Guardiola mostraram. Eu não era muito aberto, mas cumpria a função ali (ponta esquerda). O time dele é assim também. A bola não é nem roubada, ela é dada de graça. O Guardiola tem a filosofia de jogo que eu gosto, que é o jogo bem jogado. Eu já estou de saco cheio de tanto escutar hoje em dia que o time vai jogar por uma bola. Puta que pariu, isso é muito pobre!

Rivellino Copa Seleção

Adaptado na ponta esquerda, 'Patada Atômica' fez três gols no Mundial do México

 

Muito se ouve que a Seleção de 70 poderia ser campeã com qualquer técnico, mas o Zagallo mexeu bastante no time, não é? O que acha disso?

Taticamente, o Zagallo mudou muito. Botou o Piazza de quarto zagueiro, puxou o Clodoaldo para dentro... O dedo dele foi importantíssimo. O mérito é dele. Se não tivesse mudado, acredito que eu praticamente não iria jogar, porque o Saldanha (João, técnico anterior) tinha a formação dele e não mexia. Eram as 'Feras do Saldanha’. O Zagallo é um baita treinador, sabia o que queria, e nós em campo entendemos a filosofia dele.

A Seleção de 70 foi considerada a melhor equipe da história por World Football e ESPN, entre outras. Você concorda com isso? Como recebe esse reconhecimento?

Não sou eu que concordo. É o mundo que concorda, é o mundo inteiro que diz isso. Não fomos nós que chegamos lá e falamos ‘somos os melhores’. Não precisou. Esse lado é o que realmente nos deixa feliz, porque aquela Seleção é considerada com méritos, né? E olha que saímos totalmente desacreditados do país.

Eu posso dizer que tive o maior exemplo possível como jogador, no sentido de buscar títulos, energia positiva, um astral muito forte. Fora que eu nunca vi o Pelé reclamar de nada. Um puta exemplo. E olha que ele já era bicampeão do mundo, hein?

Houve algum momento marcante, dentro ou fora de campo, em que vocês se olharam e falaram ‘dá para ganhar essa Copa’?

O momento mais importante foi a preparação. Realmente fizemos uma preparação fantástica. E acho que o primeiro jogo também foi muito importante. Poxa, nós metemos 4 a 1 numa Tchecoslováquia! Isso dá confiança. E por trás de tudo ainda tinha o Pelé. Eu posso dizer que tive o maior exemplo possível como jogador, no sentido de buscar títulos, energia positiva, um astral muito forte. Era o tempo todo ‘vamos ganhar’, ‘vamos ganhar, pessoal’. Fora que eu nunca vi o Pelé reclamar de nada. Um puta exemplo. E olha que ele já era bicampeão do mundo, hein?

Outras grandes seleções não foram campeãs. Hungria de 54, Holanda de 74, Brasil de 82... Qual foi a mais ‘injustiçada’?

Eu acredito que, pela inovação que trouxe taticamente, foi a Holanda de 74. Um futebol que mudou tudo, até hoje. O Cruyff, inclusive, foi quem levou essa filosofia para o Barcelona. Não tínhamos tanta informação na época, e eu fui conhecer o Cruyff dentro de uma Copa do Mundo. Pensei ‘que jogador é esse, meu Deus?’. Então foi uma ideia que encantou a todos, mudou os conceitos de um jogo de futebol e, por tudo aquilo que representou, foi uma injustiça.

Você enfrentou essa Holanda na semifinal, num jogo que inclusive foi bastante violento...

Virou guerra. Se fosse hoje, teria terminado com sete jogadores de cada lado. Do nada, começou a sair porrada para tudo quanto é lado. Um começou a dar aqui, o outro lá, e o juiz foi deixando levar porrada. Ele foi encolhendo no jogo e deixou a coisa rolar. Naquele dia, nós tivemos duas oportunidades no primeiro tempo, uma com o Paulo (Cézar Caju) e outra com o Jair. O ‘se’ não joga, mas poderíamos ter feito 1 a 0 ou 2 a 0. Enfim, acho que a campanha do Brasil ficou de bom tamanho pelos acontecimentos na época.

Maradona e Rivelino

Rivellino troca camisa autografada com o fã Diego Maradona, na qual é chamado de “mestre" e "o maior”

 

É fato conhecido que você foi o ídolo do Maradona. Quando teve a oportunidade de conhecê-lo e ouvir isso dele próprio, já tinha uma noção exata da dimensão que ele teria para o futebol mundial?

Não tudo, mas sabia do astro que ele já era. Tanto é que, em 78, o Menotti (César, então técnico da Argentina) até se arrependeu de não ter convocado o Diego para a Copa. Na época, parece que ele tinha 17 anos. E tem uma historinha que eu vou contar aqui para você. Fui participar de um jogo amistoso desses festivos no Paraguai, e o Menotti era o treinador. Ele virou para mim e disse ‘Riva, vai ter outro jogo na Argentina, você não quer ir? Tem um garoto lá que te adora e você vai gostar, um canhoto assim, assim’. Eu acabei não indo, e ele estava falando do Maradona.

Fui participar de um amistoso, e o Menotti disse ‘Riva, vai ter outro jogo na Argentina, você não quer ir? Tem um garoto lá que te adora e você vai gostar’. Eu acabei não indo, e ele estava falando do Maradona"

Você teve uma proposta do Real Madrid recusada pelo Fluminense. Isso te frustrou na época?

Eu me entusiasmei, é lógico. Real Madrid, jogar na Espanha, quem é que não gostaria? Apesar de eu já ter uma idade um pouco mais avançada (entre 30 e 31), teria condições de jogar uns dois, três anos lá fácil. Mas não era para ser. O Miljanic da Iugoslávia era o treinador, eu tive a oportunidade de jogar contra ele, e ele gostava muito de mim. Mas acontece que o Horta (Francisco, ex-presidente do Fluminense) pediu um caminhão, e aí acabou não dando certo. Não tinha esses valores antigamente.

Você jogou com craques de gerações diferentes, de Garrincha a Zico, de Tostão a Reinaldo. Consegue montar a sua Seleção Brasileira ideal?

Tá louco! Olha, graças a Deus, eu fui um privilegiado. Joguei com Coutinho, Serginho Chulapa, Evaldo, que era um demônio (risos)... Se você for buscar, se formos começar a falar de cada um que eu tive a oportunidade de jogar... Aí de Minas, você tem Dirceu Lopes, meu Deus... Às vezes o Dirceu Lopes era muito mais importante que o Tostão dentro do Cruzeiro, pela dinâmica dele. O Tostão era inteligentíssimo. Reinaldo, esse aí também, vou te contar. E até mesmo o Dario. Você metia na frente e o Dadá era terrível. Não perdia, era a característica. Hoje, teria muito time querendo ele como o camisa 9. Joguei com Roberto Dinamite, Zico, cheguei a jogar contra o Sócrates, enfim... Graças a Deus!

Para concluir, qual será o futuro da ‘camisa 10’?

Taticamente, mataram o camisa 10. E já é assim desde a base. Tomara Deus que isso mude. Ainda tem aí um Zidane, um Alex, que pararam não tem muito tempo. Mas até numa Seleção Brasileira, muitas vezes o jogador mais talentoso não vai porque o treinador prefere um mais tático. ‘Ah, esse faz duas funções, fecha aqui, marca lá’. Hoje, quem corre mais ganha a oportunidade. Mas se você somar... Ele põe um negócio na barriga (GPS) e corre uns 23 quilômetros. Mas e aí, produziu o quê? Zero. O nosso único diferenciado hoje é o garoto, o Neymar. É o último que ainda faz a diferença, que tem o nosso DNA. Os outros são todos burocráticos. Jogam, fazem alguma coisinha, lógico, mas é muito pouco.

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