Poliglota (fala cinco idiomas com perfeição), apaixonado por futebol – adora se aquecer antes das corridas fazendo embaixadinhas em um canto dos boxes – talentoso e paciente. De todas as características do 33º campeão mundial da história da Fórmula 1, a última certamente foi a mais importante ontem, no GP de Abu Dabi, que sacramentou a conquista inédita.

Nico Rosberg soube escapar da armadilha psicológica preparada pelo rival Lewis Hamilton e, diferentemente dos anos anteriores, quando a maior força mental do britânico acabou por lhe valer os títulos de 2014 e 2015, conduziu as 55 voltas pelo circuito de Yas Marina de forma impecável. Aliás, praticamente toda a temporada, exceção feita ao GP da Áustria quando, com problemas nos freios, resolveu defender a liderança de forma agressiva e acabou atingindo o carro do companheiro. Nada que não houvesse ocorrido antes com os sinais trocados. Na Espanha, foi Hamilton o responsável pelo strike nas primeiras curvas que tirou a dupla da prova e abriu caminho para a vitória de Max Verstappen.

O filho do finlandês Keke Rosberg, campeão em 1982, e que preferiu adotar a nacionalidade alemã da mãe, pode ter vencido uma corrida a menos do que o piloto com quem divide o box da Mercedes (9 a 10), mas se colocou numa posição em que não precisava arriscar tanto, graças ao começo impressionante do campeonato – recebeu a bandeirada na frente nos quatro primeiros GPs. E fez valer o lado analítico, ponderado, diante de um Hamilton considerado dono de maior talento natural e capacidade de improvisação. Mas que dessa vez foi quem mostrou não estar com os nervos em ordem, como ao sugerir que a inversão das equipes de engenheiros e mecânicos na escuderia prateada teria beneficiado o colega.

Com 14 pontos separando a dupla, Hamilton na pole e Nico em segundo, seria necessário um algo mais para tirar a taça do alemão. Que foi prudente na largada, metódico na condução do carro 6, agressivo quando precisou superar o sempre perigoso Verstappen e inteligente o suficiente para ficar longe do companheiro. O britânico andava bem mais lento do que poderia, na esperança de que as Red Bulls e as Ferraris se aproximassem de Rosberg e lhe tomassem posições. Arriscar uma ultrapassagem também sobre o parceiro poderia acabar em acidente com desfecho imprevisível; Sebastian Vettel e Verstappen terminaram próximos, mas o segundo lugar bastou para fazer a festa.

"É um sentimento incrível ser campeão como meu pai. Os próximos dias serão especiais, espero poder comemorar bastante, e não passar por uma decisão nervosa assim tão cedo. A pressão que sofri no fim, ver que Lewis estava andando devagar e Vettel se aproximava, as últimas voltas não foram nada agradáveis. Eu e Lewis andamos juntos desde os tempos do kart e não conseguia superá-lo, desta vez deu certo. E só aumenta meu orgulho por saber que ele é um talento extraordinário".

Despedidas

Para dois outros pilotos, a prova em Yas Marina teve gosto de adeus. No seu GP 250, Felipe Massa se despediu da F-1 com os dois pontos do nono lugar, concluindo uma carreira que lhe valeu o vice-campeonato de 2008, 11 vitórias, 16 poles e 41 pódios. "Saio de cabeça erguida e lutando, como entrei na categoria. Só posso agradecer o carinho de todos e espero continuar me divertindo nas pistas". Já o campeão mundial de 2009 Jenson Button viu sua despedida terminar já na 12ª volta, com a quebra da suspensão de sua McLaren.

Mineiro na GP2

Se vive o risco de ficar sem representante na Fórmula 1 pela primeira vez desde 1969, o Brasil volta a ter, em 2017, um piloto na GP2, principal categoria de acesso ao circo. Animado pelo terceiro lugar no GP de Macau, válido como Copa do Mundo de Fórmula 3, o mineiro Sérgio Sette Câmara foi confirmado pela equipe holandesa MP Motorsport para a próxima temporada. Quarta-feira, nos testes coletivos em Abu Dabi, ele terá o primeiro contato com o Dallara-Mechacrome, conjunto com 600cv de potência, bem mais do que os cerca de 240cv do carro da F-3. Uma experiência que não assusta a quem mostrou maturidade para pilotar o F-1 da Toro Rosso, em julho, nos testes extra-oficiais da categoria. “É um grande passo, uma categoria muito competitiva com carros sensacionais, equipes muito profissionais e pilotos experientes e talentosos. Acredito que poderemos mostrar bons resultados já neste primeiro ano”, acredita Serginho, de 18 anos.