Se a falta de apoio e investimento é um grave e crônico problema no esporte brasileiro, decidir montar uma equipe de ponta com objetivos ambiciosos é uma iniciativa que vale o registro. Tanto mais quando envolve atletas e patrocinadores mineiros.

Uma das principais marcas do ciclismo mundial, a Cannondale, parte do grupo Dorel (o mesmo que é dono da Caloi), na esteira do sucesso do fluminense Henrique Avancini (quarto no Mundial de Mountain Bike Cross-country da Austrália, ano passado), resolveu criar um time brasileiro.

Com apoio da Power Cycle, centro de treinamento em ciclismo indoor de Belo Horizonte, a Cannondale Brasil Racing é composta por quatro atletas, dois deles mineiros, e tem como uma das missões ajudar o Brasil a conquistar uma terceira vaga olímpica no masculino e uma terceira no feminino já para os Jogos de Tóquio – a contagem dos pontos para o ranqueamento terá início em maio.

Boa parte desse esforço passará pelas pedaladas do mineiro Sherman Trezza de Paiva. O atleta de Lambari, 28 anos, não esconde que pretende não só ajudar como ser um dos representantes verde e amarelos no Japão – seguindo os passos de Ivanir Teixeira (Atlanta-1996) e Rubens Valeriano (Pequim-2008).

“Os mineiros têm essa tradição nos Jogos e lógico que eu pretendo ser mais um”, diz o ciclista, que começou uma temporada repleta neste fim de semana na primeira etapa do Aberto Acesso Internacional, em Córdoba (Argentina).

O calendário do time prevê as demais etapas deste circuito; além de competições no Chile; o Pan-Americano, o Cape Epic, prova em duplas na África do Sul e as principais competições brasileiras, como a Copa Internacional, que começa em Araxá, além dos campeonatos nacionais, com a perspectiva de disputar os Mundiais de XCO (cross-country) e XCM (Maratona).

A equipe conta ainda com o experiente Hugo Prado Neto (também treinador de ciclismo e especialista em provas de longa duração no estilo maratona); o suíço radicado em Minas Lukas Kaufmann – que recentemente obteve a cidadania brasileira e tudo indica que poderá somar pontos para o país no ranking da União Ciclística Internacional (UCI) –, e a paulista Viviane Favery, que estava competindo na Europa.

Responsabilidade
O manager do time, Loris Verona Júnior, lembra que, mais do que um privilégio, ser a única equipe brasileira ranqueada na UCI é uma responsabilidade extra.
“Fazer parte desse pelotão de elite não é simples. Significa atender a uma série de exigências e controles; ter um compromisso firme contra o uso de substâncias proibidas e pelo esporte limpo e estar à altura, em termos de estrutura e desempenho, das competições internacionais que faremos.

Segundo ele, a escolha das provas passa justamente pelo total de pontos no ranking distribuídos (os eventos são divididos em classes, de acordo com o nível técnico). E a ideia é aproveitar bem os dois anos que servirão de referência para a definição do pelotão olímpico.
Loris admite que o fato de ter hoje um dos 10 melhores do mundo pedalando pela marca (Avancini integra o time internacional da fábrica) será uma importante ajuda.“Lógico que ele tem seus objetivos, será um adversário, mas sempre se mostrou muito aberto a nos ajudar. Basicamente contamos com o mesmo equipamento”, lembra.