Carregar o sobrenome mais vitorioso do esporte olímpico brasileiro poderia representar um peso insuportável. Para a velejadora Martine Grael, no entanto, serviu como motivação na busca pelas próprias conquistas.

Com apenas 26 anos, comemorados exatamente neste domingo (12), a filha do multicampeão Torben Grael já tem no currículo todos os principais títulos da modalidade, incluindo o Campeonato Mundial em 2014 e a medalha de ouro nos Jogos Rio-2016 na classe 49er FX, ao lado da amiga Kahena Kunze.

E o novo ciclo olímpico não poderia ter começado melhor, com a conquista da etapa de Miami da Copa do Mundo de Vela, em janeiro. Neste Papo em Dia, ela diz que ainda é cedo para falar em um segundo ouro, mas admite o planejamento em função dos Jogos de 2020, em Tóquio.

Você e a Kahena acabam de ser campeãs em Miami. O que isso representa neste início de ciclo olímpico?

Ainda é um pouquinho cedo para falar na Olimpíada de 2020. Na verdade, o nosso principal objetivo nesse campeonato era matar a saudade e dar uma quebrada na quantidade de meses sem competições que teríamos. Além disso, nem todas as nossas principais adversárias estavam lá, por isso é cedo para tirar qualquer conclusão nesse sentido.

Como está sendo feito o planejamento pensando em 2020?

Temos a Copa Brasil de Vela agora em março, mas é uma competição sem as adversárias internacionais. E, depois, a próxima competição seria apenas em abril. Então, ficar sem competir desde os Jogos do Rio, por mais de seis meses, seria complicado. Nós decidimos começar bem devagar, mas estamos, sim, nos planejando em função da próxima Olimpíada, mantendo a dupla e a categoria, para tentarmos buscar a nossa segunda medalha.

Obviamente, sempre houve alguma menção a isso (família), principalmente no começo. Mas acho que pressão, pressão mesmo, eu nunca senti nenhuma"

Você nasceu com o “DNA” da vela. Em algum momento chegou a cogitar fazer outro esporte ou seguir outra carreira?

Bom, na verdade eu não pensava em fazer vela profissional até 2009, quando surgiu o convite da Isabel (Swan, medalhista de bronze em Pequim) para competir com ela na classe 470. Eu, inclusive, cheguei a fazer faculdade de Engenharia Ambiental. Não completei, está trancada, mas pretendo concluir quando for possível, então essa seria uma opção. Mas acabou sendo tudo muito natural, porque sempre gostei muito de velejar, sempre fez parte da minha vida.

Torben e Martine Grael

Ser filha do Torben foi uma pressão maior para você, especialmente no início?

Obviamente, sempre houve alguma menção ao sobrenome, principalmente no começo. Então, alcançar as minhas próprias conquistas era, sim, um desejo pessoal. Mas acho que pressão, pressão mesmo, eu nunca senti nenhuma. Nem da minha parte. Sempre me cobrei pelo meu rendimento, não pelos resultados.

E como é a relação com o seu pai, ainda mais depois que ele assumiu o cargo de coordenador técnico da seleção?

É ótima. Ele sempre foi um ótimo pai, além de ter todo o conhecimento possível na modalidade e estar sempre disposto a compartilhar essa experiência. O fato de ele estar dentro da confederação não mudou muito, porque de todo jeito ele sempre esteve envolvido.

Mas ele dá muito “pitaco” ou te deixa à vontade para tomar decisões?

Acho que ele se segura bastante (risos). É uma pessoa calada, que só fala quando a gente pergunta ou pede alguma opinião. E, justamente por isso, acho que cabe a nós fazer muitas perguntas mesmo, porque não teríamos ninguém melhor para consultar, com tanta experiência como ele.

Você e a Kahena já eram amigas muito antes de virarem uma dupla. Essa intimidade foi prejudicial em algum momento?

Não, acabou sendo um relacionamento muito fácil. Já conhecia a Kahena havia bastante tempo antes de decidirmos nos juntar, e sei que não poderia ter achado uma parceira melhor. É óbvio que fazer quatro anos de campanha olímpica queima qualquer relação. O convívio intenso põe qualquer coisa à prova. É claro que não conseguimos passar esses quatro anos sem nenhum descontentamento. Mas isso é normal, e graças a Deus nunca tivemos nenhuma discussão séria. Somos realmente parceiras, e acho que só passamos por tudo isso exatamente porque já éramos muito amiga antes.

Já conhecia a Kahena havia bastante tempo antes de decidirmos nos juntar, e sei que não poderia ter achado uma parceira melhor"

Vocês conseguem tirar um tempinho para curtir e viajar sem ser a trabalho? Qual é o tamanho do sacrifício que o esporte exige?

Sim. Nós, inclusive, aproveitamos também as viagens que fazemos para competir. Aproveitamos os momentos livres, nem que seja um diazinho, para conhecer os lugares. Às vezes, quando tem um intervalo menor entre um campeonato e outro também, em vez de gastar tempo com a viagem de volta para o Brasil, a gente aproveita para passear. Acho que tudo requer um pouco de sacrifício sim, mas, para mim, ainda não há nada que não tenha valido a pena.

Cogita morar e treinar em outro país?

Sim, acho que nós temos muitas possibilidades, temos amigos em muitos cantos do mundo, inclusive alguns competidores que também são amigos. Penso, sim, que é uma possibilidade, mas acho que por enquanto ainda vamos ficar por aqui.

Até onde você pretende chegar, uma vez que já conquistou as principais medalhas ainda tão jovem?

Não penso nisso. Acredito que as oportunidades vêm e vão, e eu gosto sempre de aproveitar, tentar aprender e experimentar coisas novas. Então, não coloco uma meta específica nem tenho uma idade em mente para parar de competir.

Martine Grael e Kahena Kunze

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