Dizer que Gustavo Kuerten pôs o tênis brasileiro no mapa não é inverdade, mas é injusto com uma paulistana que, décadas antes, fez algo igualmente impressionante. Basta ver como, se os homens seguiram conquistando Grand Slams (em especial os mineiros Marcelo Melo e Bruno Soares), as mulheres se mantêm longe das grandes conquistas no esporte da bolinha verde. Uma história que poderia ter outro desfecho se o exemplo de Maria Esther Bueno tivesse prosperado.

Numa era em que o tênis profissional engatinhava, os mihões de dólares de premiação eram uma perspectiva distante, ela saiu das quadras do Clube Tietê, em São Paulo, para se tornar uma das mais impressionantes jogadoras das décadas de 1950 e 1960. Se a predileção era pelas quadras rápidas, o retrospecto no saibro era igualmente destacado. O título de duplas de Wimbledon de 1958, jogando com a parceira Althea Gibson, a "Pantera Negra" foi apenas o primeiro de 19 (sete em simples e 11 em duplas, sendo uma nas mistas). Em 1960, nas duplas, fechou o Grand Slam ao  conquistar os títulos dos Abertos da Austrália e dos Estados Unidos; Roland Garros e Wimbledon. Ela também jogaria com Bille Jean King e Margaret Court que, nas disputas individuais, eram as mais fortes adversárias. A movimentação graciosa na quadra rendeu o apelido de "bailarina"

Fora das quadras desde os anos 70, quando uma contusão no braço direito a impediu de manter o jogo habitual, Maria Esther foi indicada para o Hall da Fama da Federação Internacional de Tênis (ITF) e, nos últimos anos, emprestava os comentários precisos e sempre divertidos às transmissões do canal Sportv. Nos Jogos Olímpicos do Rio, deu nome ao complexo de tênis da Barra da Tijuca.

Capaz de superar monstros sagrados das quadras a ponto de se tornar também um deles, ela só não conseguiu superar um câncer na boca, que se alastrou para outros órgãos e a levou nesta sexta-feira, aos 78 anos, em São Paulo.