O Cruzeiro comemora no próximo domingo (13) 20 anos da conquista do bicampeonato da Copa Libertadores, uma taça erguida com a marca da superação, pois o time iniciou sua caminhada na competição perdendo os três primeiros jogos da fase de grupos.

Foi tão sofrido e suado o título cruzeirense, que na decisão, em 13 de agosto de 1997, no Mineirão, o gol de Elivélton, que garantiu o título e foi marcado apenas aos 30 minutos do segundo tempo, divide a lembrança de quem viu aquele jogo com uma defesa de Dida, dez minutos antes, numa finalização do brasileiro Julinho, que aproveitou rebote do goleiro após cobrança de falta de Solano.

Personagem da jogada, o brasileiro Julinho, um dos maiores ídolos da história do Sporting Cristal e que segue morando em Lima, onde tem quadras sintéticas, uma academia de futebol, uma empresa de eventos esportivos e treina o time sub-16 do Cristal, falou ao HOJE EM DIA sobre aquela decisão de 1997.

julinhoUm dos maiores nomes da história do Sporting Cristal, Julinho segue trabalhando no clube até hoje


E a maior lembrança é, sem dúvida, o confronto com Dida aos 20 minutos do segundo tempo, quando a partida ainda estava 0 a 0.

“Aquele lance com o Dida foi complicado. Foi uma falta que o Solano bateu da entrada da área. Eu fui no rebote, pois o Dida fez a defesa parcial. A gente tinha treinado muito isso, quando estivesse na frente do Dida, chutar baixo e cruzado. E foi o que eu fiz, mas infelizmente a bola bateu no pé dele e não entrou. Depois me encontrei num restaurante na Bahia com o Dida. Brincando, disse para ele que tinha me tirado uma Copa Libertadores. E ele me disse que nem viu a bola, que ela bateu no pé dele. Virou história aquela bola não ter entrado”, revela Julinho.

Veja a defesa de Dida com a narração de Galvão Bueno:
 



O brasileiro garante que o lance é inesquecível não só para os cruzeirenses, mas também para os peruanos: “Quando saio na rua aqui no Peru, até hoje, as pessoas me perguntam sobre aquela jogada. Querem saber como foi, porque não fiz o gol. E explico que fiz o que tinha treinado, mas que era um lance muito rápido. Não me arrependo e teria feito o mesmo, pois num lance daquele, o certo é bater por baixo, pois o Dida era um goleiro muito alto”.

O lance foi tão marcante, que no Youtube, torcedores do Cristal fizeram uma edição do vídeo da final, em cima das imagens da Rede Globo e usando a narração de Galvão Bueno, garantindo o título da Libertadores de 1997 ao seu clube. Assim, o chute de Elivélton é defendido por Balerio e a finalização de Julinho não encontra o pé direito de Dida. Eles colocam inclusive a taça nas mãos dos jogadores na saída deles do gramado.

Veja o vídeo editado pelos torcedores do Cristal:


Além de Dida, Julinho destaca ainda outros jogadores do Cruzeiro naquela campanha de 1997, em que os dois clubes se enfrentaram quatro vezes, pois foram adversários também na fase de grupos.

“O Cruzeiro tinha grandes jogadores naquela época, além do Paulo Autuori, que depois foi meu treinador no Cristal e se transformou num amigo. Foi um prazer poder jogar contra o Dida, mas o grande nome daquele time era o Palhinha. Estava no seu melhor momento. Era um jogador consagrado. Marcelo Ramos também merece ser destacado. Era um time muito forte. Acho que naquele dia, qualquer um dos dois poderia sair campeão da Libertadores. Foi um jogo muito bonito, apertado”, recorda Julinho.

MORTE DO PAI

Além das lembranças do jogo, aquela final emociona Julinho também por questões familiares, que vão além do fato de ter feito parte da história do clube onde é um dos maiores ídolos.

“Foi maravilhoso porque voltei ao Brasil. E ainda joguei uma final contra um clube brasileiro. Conhecia o Cruzeiro, já tinha disputado o Brasileiro algumas vezes. Por outro lado foi muito difícil para mim, pois meu pai tinha falecido 15 dias antes. E eu tinha prometido para ele, ainda quando garoto, com uns oito anos, que um dia disputaria uma final de Libertadores, seria o melhor jogador e daria o Toyota (patrocinadora da competição, que dava um carro ao melhor jogador da final) para ele. Lamentavelmente meu pai teve câncer e me disse que não poderia usar o carro que eu ia dar para ele. Foi muito difícil entrar em campo sem meu grande companheiro, quem sempre me empurrou para cima”, revela o ex-jogador do Cristal.

Depois de 20 anos, aquela decisão segue fazendo parte da vida de Julinho, pois o jogador garante que aquele não foi um vice-campeonato qualquer, pois decidir a Libertadores é um momento especial na carreira de qualquer jogador.

​“Sempre me emociono quando lembro da final. Entro no Youtube para ver. Tenho a medalha da Libertadores em casa. Meus amigos veem em casa para ver, tirar fotos. Não tem um dia que não me lembre daquela final e não me emocione. Falar daquela decisão traz um pouco de nostalgia. Todo jogador sonha em disputar uma final de Libertadores. Existe vice-campeão e vice-campeão. E ser vice da Libertadores não é motivo de vergonha, muito pelo contrário. É motivo de orgulho. Guardo a medalha com muito carinho. Nós fomos recebidos aqui como heróis. Fizemos um desfile de ônibus, nos dias seguintes tinha muito assédio, era até difícil sair nas ruas”, garante Julinho, que acabou entrando para a história cruzeirense mesmo sem querer, pois vencer aquela Libertadores de 1997, profissionalmente e, principalmente pessoalmente, seria muito especial para ele. Mas Dida não deixou.