Administrar uma paixão de nove milhões de torcedores, levar o clube do coração ao tricampeonato da Libertadores e, consequentemente, ao Mundial de Clubes da Fifa. Missão que a partir de 2018 estará sob responsabilidade do empresário Wagner Pires de Sá, eleito o novo presidente do Cruzeiro para o triênio 2018/2020.

Antes mesmo de assumir oficialmente o posto, o futuro presidente já sentiu a pressão e se viu no meio de uma das maiores crises políticas da história da Raposa. Mesmo assim, pretende ganhar o coração da torcida ao mostrar seu trabalho à frente do clube. 

“Fizemos uma campanha para o conselheiro, agora precisamos nos posicionar para o torcedor. E a melhor maneira de todos nos tornamos conhecidos daqui para frente, é com vitórias, resultados, trabalho. Essa é a melhor maneira de ganhar o coração da torcida”, afirma.

Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, o novo presidente do Cruzeiro não foge das polêmicas, confirma Itair Machado, ex-presidente do Ipatinga, como seu “braço direito”, comenta sobre a forte pressão que recai sobre si e admite que agradeceria caso Zezé Perrella oferecesse apoio.

Você venceu uma das eleições mais acirradas da história recente do Cruzeiro. Qual a receita? 

A gente fica satisfeito com o apoio que nos foi dado pela direção atual, valeu demais o apoio do presidente Gilvan de Pinho Tavares. O que mais nos impressionou foi a vontade dos conselheiros de se juntarem como um Cruzeiro só, isso nos deu uma força tremenda. Pela primeira vez aconteceu uma disputa tão acirrada. Vieram conselheiros de cadeiras de rodas, amparados por enfermeiros, de bengalas. Gente que há muitos anos não comparecia à sede do clube. Isso nos mostrou o carinho de cada um pelo Cruzeiro. 

O Zezé Perrella apoiou o seu adversário nas eleições, que teve episódios tumultuados, mas ele fez elogios a você. Aceitaria a ajuda dele?

Quando ganhei as eleições meu primeiro discurso foi de que o Cruzeiro é um só. Podemos ter momentaneamente divergências de ideias, mas depois juntamos todos. Isso tem que ser o princípio dentro do clube. Se ele falar que vai me ajudar, vou agradecer imensamente. É um desejo meu que ele faça isso. Nós temos que unir, não podemos repartir. Toda ajuda é bem-vinda, todos somos cruzeirenses. A minha contribuição seria de ajuda mesmo se tivesse perdido.

Você já iniciou o processo de transição. Quais os trabalhos principais nesse primeiro momento? 

Estou liberado a ter acesso às contas, aos documentos dos departamentos do clube para fazer estudos. Vou formar uma equipe de transição e contratar um instituto de gestão, que ficará responsável por fazer um rastreamento do que foi essa última administração no Cruzeiro. Eu, como empresário que sou, tive a vida profissional toda em empresas privadas. Tenho visão empresarial e o Gilvan sempre teve visão institucional. Quero deixar o Cruzeiro muito profissional. 

O Itair Machado, ex-presidente do Ipatinga, ocupará na sua gestão o cargo que foi do Bruno Vicintin nos últimos anos? 

O Bruno era o vice-presidente de futebol, tinha uma função maior e superior a do gestor. O Itair será o meu gestor de futebol. O gestor vai ficar voltado para o objetivo final que é ganhar títulos. Não é a mesma função, tanto que desde o princípio, quando nós começamos a campanha, um dos meus objetivos de que o Bruno ficasse ao nosso lado. Fiquei surpreso com a saída dele.

O presidente Gilvan foi um de seus cabos eleitorais. Ele rompeu com você? Não mais apoiará sua gestão?

Tem muita coisa que a gente vê pela rede social. Eu fui pego de surpresa quando me ligaram para falar isso. Eu estava na minha empresa quando me disseram isso. Eu não acredito que houve rompimento. O Gilvan termina o mandato dele de forma gloriosa. Ele quer mesmo é descansar, pescar. Que ele pesque uma semana e volte para nos ajudar. A experiência de um presidente como o doutor Gilvan é imensa. Espero que ele esteja comigo como ele disse na campanha.

O rival do Cruzeiro construirá um estádio. Como ficará o Cruzeiro a partir de então?

O Mineirão já é a casa do Cruzeiro. Desde a construção do estádio, quando o clube se tornou uma das grandes e maiores torcidas do Brasil, o Gigante da Pampulha é a nossa casa. O Atlético está construindo o estádio dele, que seja feliz lá, mas o Mineirão vai ter que ser nosso. Sentaremos com a Minas Arena e com o Governo para fazermos algo que seja bom para todos os lados. 

Então esse é um indicativo de que o relacionamento do Cruzeiro com a Minas Arena vai melhorar em sua gestão?

Temos que nos aproximar das instituições, da política, dos órgãos que administram os esportes no país, dos tribunais. Temos que levar o Cruzeiro, tirá-lo de um casulo e expandir ainda mais. Abrir a visão para o mundo. Dentro desse aspecto de melhorarmos o relacionamento com a Minas Arena poderemos, quem sabe, aproveitar melhor os espaços livres do Mineirão. Pretendemos fazer museu, memorial, explorar áreas hoje não tão exploradas para mais eventos esportivos. Tudo isso está nos nossos planos. Queremos as melhores condições para o Mineirão, quem sabe com espaço de eventos, congressos, espaços de conveniência para atrair mais turistas. 

E em relação à Federação Mineira de Futebol, como você pensa em dialogar com a entidade, que também tem relação ruim com o Cruzeiro? Já houve um contato deles após sua eleição?

Não sei o nível do abalo nessa relação, mas temos que agregar melhor às instituições de uma forma que haja mais respeito mútuo. Eles precisam respeitar mais essa entidade gigante que é o Cruzeiro. Temos que separar a paixão da administração. Quanto ao contato, ele não aconteceu.

Um ex-executivo da Fiat fará parte de sua equipe, trata-se de Marco Antônio Lage, profissional de vasta experiência. Porque o escolheu?

Contratei um profissional do mais alto gabarito, conhecido no estado de Minas Gerais, no país inteiro. Um profissional que levou a Fiat a outro patamar. O Marco Antônio Lage, um gestor capaz, e estou partindo para essa linha, colocar profissionais em cada setor do clube. Área financeira, área administrativa, área de marketing, comercial, de comunicação, na parte institucional do clube. 

Além do Bruno Vicintin, o gerente de futebol Tinga já anunciou sua saída do clube. E o Mano Menezes, fica ou também sai?

O Mano é um técnico visado no mundo todo, ele está entre os melhores técnicos do mundo. Vamos tentar segurá-lo. Vamos começar esse trabalho por agora. O gestor de futebol que escolhemos tirou alguns dias de férias, uma semana, mas já estamos em contatos estratégicos. Em uma semana vamos deslanchar um plano de tentar mantê-lo aqui, procurar reforços, e o que vamos precisar dentro das possibilidades são recursos para qualificar ainda mais o departamento de futebol.

E se não for possível segurar o treinador, você já tem alternativas?

O Mano não está em Belo Horizonte, mas vamos começar esses contatos. No futebol nós temos mais que um plano. Me falaram que no futebol temos que ter planos B, C e D. O ideal seria manter toda a estrutura vencedora. Contar com o Mano e com toda comissão é o nosso desejo A. Por razões, sei que alguns sairão por compromissos pessoais, sem conotação de quem ganhou eleição. 

Considera difícil sua missão na presidência do clube? 

O Gilvan nos deixou uma responsabilidade grande demais. Nos deu dois Campeonatos Brasileiros em seguida e deixa sua gestão com um brilhante título da Copa do Brasil. Minha responsabilidade será enorme. Precisamos ter uma equipe forte e os melhores profissionais.