Um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do atletismo no Brasil tem nome e sobrenome poloneses. Ainda na década de 1980, o treinador Leszek Szmuchrowski desembarcou em São Paulo com o projeto de criar uma equipe competitiva no país. Sonho este que, aliás, ele busca realizar ainda nos dias de hoje.

Idealizador do projeto do Centro de Treinamento Esportivo (CTE) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – um dos mais elogiados e completos espaços de desenvolvimento de atletas do mundo –, Leszek não esconde a decepção com os resultados apresentados nos Jogos Rio 2016. Apesar disso, não descansa e já mira na Olimpíada de Tóquio, em 2020, acreditando que esta é a hora certa de fortalecer a modalidade no país.

A 13ª posição no quadro de medalhas é uma boa colocação para o Brasil?
Por sermos o país organizador, deveríamos ter nos saído melhor. E não adianta comparar as nossas atuais conquistas com os Jogos anteriores, porque a situação é diferente. Como a potência que representamos economicamente, deveríamos ter ficado pelo menos entre os dez melhores. Precisamos reconhecer que não conseguimos melhorar nossa posição. Na verdade, a nossa participação no atletismo, à exceção do Thiago Braz (medalha de ouro no salto com vara), é desastrosa. Nos últimos anos, houve uma injeção significativa de recursos financeiros, então o resultado é medíocre.

Ao quê você atribui isso?
Eu vou te responder isso já com as soluções. Primeiro, precisamos massificar a cultura da educação física nas escolas. Do contrário, a população vai continuar do jeito que está, doente e obesa. Enquanto não existir uma popularização da educação física, o atletismo responderá dessa forma em todas as competições que participar. O segundo ponto é a formação dos recursos humanos, das pessoas que cuidam da educação física nas escolas. Alguns intelectualistas acham que não é importante, mas eu digo, sim, que é muito importante, tanto quanto educar, ensinar. Precisamos desenvolver projetos e formar recursos humanos. É isso que vai mudar o Brasil.

A dificuldade passa então pela seleção de profissionais capacitados?
Hoje, no atletismo, nós não temos profissionais capazes. Aqui na UFMG nós abrimos quatro concursos para professor de atletismo, procuramos no Brasil inteiro, e não conseguimos fechar o concurso. O país não tem profissionais com conhecimento da modalidade e, por exemplo, com titulação de doutor. E não só de doutor. Quando abrimos o concurso, nós ainda baixamos para o nível de mestre e também não conseguimos. E a deficiência não é só no nível de pesquisa, mas também não temos treinadores.

Como a Olimpíada no Brasil pode ajudar a mudar essa realidade?
É uma situação muito interessante. Temos um legado muito positivo, mas faltam pequenos ajustes e que podem fazer tudo dar certo. E se isso for feito, aí sim poderemos realmente planejar as Olimpíadas de 2020 e 2024. Hoje, temos o melhor centro de formação de atletas do país e que foi reconhecido internacionalmente, no entanto os meninos que treinam aqui têm isso tudo a seu dispor, infraestrutura e uniformes, mas esbarram em uma dura realidade. Centenas deles, aliás, os melhores em potencial, desistem do treinamento porque não têm dinheiro para pagar uma passagem de ônibus. Você consegue imaginar como isso é triste? Infelizmente, existe um esforço a nível governamental, mas, quando ele é incompleto, isso não dá certo. Sinceramente, o Ministério do Esporte ajudou muito. À época, eles justificaram com um argumento que, na verdade, é difícil de contestar. ‘Nós precisamos da contrapartida. Quando você dá para alguém tudo, a pessoa não valoriza, não se envolve’. Penso que outras instituições deveriam se envolver. Nesses quatro anos, nós peneiramos pelo menos 10 mil atletas, treinamos cerca de mil pessoas, e pelo menos 25 atletas poderiam formar uma boa equipe. Mas eles desistiram porque não tinham transporte para vir para o CTE. Parece um problema banal, mas foi o que impediu até agora o projeto de crescer mais.

“Quando os ingleses visitaram 
o CTE pela primeira vez, me lembro do Sebastian Coe (chefe do Comitê Olímpico Britânico) dizendo ‘isso é inacreditável, vamos ficar aqui’, depois de colocar o dedo na nossa pista”

Você treinou dois dos mais importantes nomes do atletismo do Brasil (Elson Miranda e Esmeralda de Jesus). Já viu algum talento semelhante nascer no Centro?
Eu achei uma menina que era espetacular e me empolguei. Joguei tudo em cima dela, desisti de projetos da universidade porque o foco era o Rio. Ela ficou quatro meses comigo e, nesse período, progrediu tão absurdamente que é difícil até acreditar. Ela chegou aqui saltando 12,27 m e saiu batendo duas vezes o recorde sul-americano no salto triplo, com 13,47 m e 13,60 m. Ela era uma menina que tinha um potencial incrível e a perdemos para o sistema. O professor de educação física entrou em contato com a Confederação Brasileiro de Atletismo e, juntos, eles a levaram embora para São Paulo. Nós nunca mais nos falamos, nunca trocamos uma única palavra de novo. Ela até foi para os Jogos, mas fez uma apresentação pífia. Aquela menina tinha tudo para estar no pódio.

Mas você nunca mais a procurou? E a confederação nunca disse nada?
Claro que procurei. No início, procurei até a família dela, mas eles estavam convencidos de que ela deveria sair daqui. Olha, aquela menina era uma das mais talentosas do mundo, e quando a vi no Rio não acreditei. Quanto à confederação, ela também nunca me procurou para falar sobre isso, e eles ficaram com tanta vergonha que esse Centro não foi aproveitado para ninguém do Brasil. Eles ficaram inibidos de vir aqui, e assim as coisas estão até hoje. O CTE foi a casa do segundo lugar geral do quadro de medalhas da Olimpíada no Rio (Grã-Bretanha). O nosso espaço foi reconhecido como um dos melhores do mundo, mas nenhum brasileiro usufruiu dele. É uma pena.

E como foi seu processo de vir para o Brasil? Quando você chegou, já era respeitado internacionalmente. O que, afinal, te trouxe para o país?
Minha história com o Brasil começou com o João do Pulo. Aconteceu que, em Moscou (1980), eu testemunhei quando os russos roubaram a medalha de ouro do João (atleta de salto triplo falecido em 1999), e eu fiquei revoltado. Eu estava ao lado do treinador dele, o Pedrão (Pedro Henrique de Toledo) e vi aquela vergonha. Naquela ocasião, nós conversamos sobre tudo aquilo e ele falou: ‘venha para o Brasil, porque lá nós dois podemos fazer um grande projeto de atletismo’. Eu não resisti àquele convite e desembarquei em São Paulo pouco tempo depois.

“Qualquer cidadão que descobriu o atletismo e sonha em se realizar nessa direção pode me procurar no Centro de Treinamento Esportivo. Nós estamos abertos para conversar, arriscar”

Você já falava português?
Eu não falava nenhuma palavra em português (risos). Hoje, eu me divirto lembrando do que já passei aqui. No início, quando entrava no ônibus tentava passar, falava “desculpa” e “com licença” o tempo todo. Mas eu não sabia distinguir quando deveria falar um ou outro. Depois, quando eu entendi o sentido dessas palavras, eu fiquei realmente sem graça.

E o projeto com o Pedrão? Decolou?
Naufragou (risos). Quando eu fui procurar trabalho no Pinheiros, descobri que o João do Pulo havia sido mandado embora depois que perdeu a perna (após ter sofrido um acidente de carro). Automaticamente, o Pedrão foi demitido junto. Apesar disso, me contrataram no clube e comecei a treinar o Elson (Miranda, hoje treinador de Fabiana Murer). Comigo, ele saltou cinco metros. Sem ele, aliás, não existiria salto com vara no Brasil como existe hoje. Durante esses Jogos, eu vi que nenhum comentarista citou Elson Miranda como deveria ser citado. E pensar que ele é o pai do sucesso dessa modalidade no Brasil. É lamentável a memória curta das pessoas.

E como a Esmeralda surgiu nesse processo?
Ela veio bem depois. Durante um simpósio no Rio de Janeiro, eu conheci o Emerson Silami Garcia e, só depois de conversar bastante, descobri que era o marido da Esmeralda de Jesus, campeã pan-americana nos 100 metros rasos. Pois bem, depois daquele encontro ele me convidou para treiná-la para os Jogos de Los Angeles (1984). Como eles moravam em Belo Horizonte, me mudei para cá. Como eu já era professor universitário, consegui um contrato com a UFMG como professor visitante e fiquei aqui. Hoje, sou professor titular e vou me aposentar aqui.

“Os Jogos nos deixaram importantes legados. Surgiram pistas de atletismo e material para praticarmos o atletismo com eficiência. Agora, temos que lutar para que esses lugares não sejam abandonados”

Você conseguiu dupla cidadania?
Sim, me naturalizei brasileiro neste ano. É engraçado, porque as pessoas sempre perguntam porque não volto para a Polônia ou moro em outro país. Elas não entendem porque quero continuar aqui. E eu sempre digo que é sempre bom o lugar onde nós não estamos. As pessoas pensam que a Alemanha, os Estados Unidos, a Rússia são lugares melhores, mas não são. Quando eu resolvi mudar para o Brasil, muita gente na minha família, no meu país de origem, me questionou. ‘Cara, você é um profissional de sucesso aqui, por que não continuar? Por que você não volta?’. Então eu digo: ‘Onde você tem esse clima como aqui em Belo Horizonte? Aqui é o lugar onde tem o melhor clima do mundo!

O que acha do povo brasileiro?
O povo é muito diversificado e bastante competitivo. E isso não é de todo ruim, mas, sabe, não existe no Brasil uma coisa que nos una. Cada um está preocupado em puxar a verdade para o seu lado. E eu vejo que o Brasil tem essa riqueza tão grande e, intuitivamente, não damos valor. Nós apenas nos unimos quando alguém toca o orgulho do brasileiro. Aí, nesse momento, todo mundo se une e não tem inimigo que sobreviva. Quando acontece uma catástrofe, um desastre, todo mundo é solidário. O problema todo é que não temos esses cataclismas que nos una o tempo todo. E a verdade é que o mundo é unido por isso. Vou viajar por aí, pelo mundo, para a Polônia, rever amigos, familiares, mas Brasil é o meu lugar.