Um goleiro que praticamente não viveu momentos ruins dentro de campo. Ídolo de Cruzeiro e Flamengo, clubes pelos quais fez 557 e 228 partidas, respectivamente, o multicampeão Raul Plassmann completa 72 anos nesta terça-feira (27) e, mesmo tendo pendurado as chuteiras há mais de 30 anos, continua sendo assediado pela imprensa e por torcedores mineiros e cariocas.

Hoje, os dois times se enfrentam em Cariacica, no Espírito Santo. A partida, marcada para as 16h, será no estádio Kleber Andrade, válida pela 27ª rodada do Campeonato Brasileiro.

Sem desmerecer Fábio, Dida, Gomes e outros que marcaram época na Raposa, Plassmann bate no peito e afirma ser o melhor goleiro da história do clube. Ter feito parte de um time que mostrou a cara do Cruzeiro ao mundo, nas décadas de 1960 e 1970, é o trunfo do paranaense para se credenciar ao posto.

Atualmente funcionário do departamento de marketing da Raposa, Raul trabalha como uma espécie de embaixador do clube. Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, o ex-goleiro volta ao passado, fala sobre não ter disputado uma Copa do Mundo e relembra os principais momentos em Cruzeiro e Flamengo.

Você jogou em alto nível entre o fim da década de 60 e os anos 80, mas não foi convocado para jogar uma Copa do Mundo. Em 1982, ficou no quase, tendo sido titular nas vésperas do Mundial, mas Telê Santana não te levou ao México. O que faltou para você jogar uma Copa?

Não se ofenda, porque a minha resposta não é para você. Esta é uma pergunta que deve ser feita para os treinadores. Na verdade, não sei, mas gostaria de saber. É uma resposta que não tenho.

“Todos os outros goleiros são muito importantes, mas, pelo conjunto da obra, eu fui mais. É como se o gol do Cruzeiro tivesse uma imagem, e essa imagem fosse minha. Sem convencimento. Esse é o meu ponto de vista. Tem 50 anos que tudo aconteceu, e eu ainda sou lembrado”

Você merecia disputar uma Copa do Mundo?

Sem convencimento, eu merecia estar numa Copa do Mundo. Considerando tudo que falam de mim até hoje, será que eu não poderia ter ido pelo menos como terceiro goleiro a um Mundial? Claro que poderia.

Cruzeiro de 1969

Como jogador, você enfrentou ninguém mais, ninguém menos do que Pelé. Foram vários confrontos com grandes adversários. Qual foi o jogador mais complicado, além do Rei do Futebol, com o qual você ficou frente a frente e teve que “fazer milagres”?

Não teve ninguém igual ao Pelé. Ele é o primeiro, o segundo e o terceiro da lista. Em quarto lugar vêm os outros. Mas encarei atacantes complicados. Reinaldo e Dario são dois exemplos. O primeiro pela técnica e inteligência, o outro por ser um cara predestinado, que a bola batia na canela e entrava.

Dentre as grandes equipes das quais você fez parte, qual tinha o melhor elenco e mais encheu os olhos do torcedor: o Cruzeiro campeão da Libertadores em 1966, o Cruzeiro de 1976 ou o Flamengo de 1980 e 81?

Às vezes, acham que estou fugindo da resposta, mas são tempos diferentes. Cada um destes times teve uma característica. Todos eles tiveram sua importância. Não que eu esteja sem graça de falar, mas não dá para dizer qual foi o melhor. Todos foram campeões e de uma importância monumental. O goleiro daqueles três times era muito bom. É o que dá para dizer (risos).

“Eu joguei em dois grandes clubes (Cruzeiro e Flamengo) que chegaram à decisão do Mundial e que foram campeões da Libertadores e do Brasil. Não dá para sentir falta da Seleção Brasileira nestas condições. Por isso, não fica nenhum tipo de frustração por não ter ido a uma Copa do Mundo”

Para você, como campeão do Mundo com o Flamengo em 1981, tendo vivido essa experiência, o que o Cruzeiro precisa para chegar com possibilidades de, enfim, levantar o troféu de um Mundial de Clubes?

Se você organizar o clube, você chega. Precisa ter conhecimento e saber os caminhos. Tem que ter uma equipe competente também fora de campo. Quando você tem essa equipe homogênea, a probabilidade é alta. Tem que ter gente do meio e do ramo administrando todas as áreas. O cara precisa ter a vivência. Os novos que estão chegando são super bem-vindos, mas precisam assistir quem já tem mais capacidade, numa espécie de estágio, para se capacitar na prática.

Você se considera o melhor goleiro da história do Cruzeiro?

Eu sou o melhor goleiro da história do Cruzeiro. Mas não estou falando em questão de atuações, e sim pela importância que tive, por minhas participações, pela abertura da porta em 1966. A gente foi desbravando tudo numa época em que não tinha muita publicidade. Cheguei a uma decisão do Mundial. Tivemos outros importantes, como o excepcional Dida, o Gomes, o Fábio, que é um monstro. Todos são muito importantes, mas, pelo conjunto da obra, eu fui mais. Joguei com Tostão e Dirceu Lopes, os melhores da história, com o campeão do mundo Piazza, fui campeão da Libertadores e outras coisas. Enfrentamos situações diferentes. É como se o gol do Cruzeiro tivesse uma imagem, e essa imagem fosse minha. Sem convencimento. Esse é o meu ponto de vista. Tem 50 anos que aconteceu tudo isso, e eu ainda sou lembrado.

Raul Plasmann

O Fábio ultrapassou a sua marca como goleiro que mais vezes vestiu a camisa do Cruzeiro. E, inclusive, ele já é o jogador recordista de partidas pelo clube. Você acredita que, pelo andar da carruagem e pela realidade do futebol moderno, ele será o último jogador a ultrapassar a marca de 500 jogos por uma agremiação no Brasil?

No Cruzeiro, muito provavelmente. Apostaria a minha vida que ele vai ser o recordista de todos os tempos. Ninguém vai fazer essa marca mais. É uma coisa muito bacana, porque significa um ícone do clube. É outro que vai poder dizer que foi o mais importante da história do Cruzeiro. Ele também tem o direito de pensar assim. Como o Dida também pode pensar desta forma.

“Apostaria a minha vida que o Fábio será o recordista de todos os tempos no Cruzeiro. Ninguém vai conseguir fazer esta marca mais. É uma coisa muito bacana, porque significa um ícone do clube. É outro que vai poder dizer que foi o mais importante da história. Ele, assim como eu, também tem o direito de pensar desta forma”

Muitos dos novos torcedores, crianças e adolescentes, principalmente, têm acompanhado mais o futebol internacional do que o futebol brasileiro. Isso de alguma forma é preocupante? O que fazer para conter esse estrangeirismo no Brasil?

Os meninos ficam encantados com os astros, com aqueles campos maravilhosos, e com a organização dos estrangeiros. Trabalhei na base do Cruzeiro por cinco anos. Meninos iam fazer teste no clube com camisa do Barcelona, do Bayern de Munique, do Real Madrid e de outros clubes. Educadamente, me dirigi a eles e dei um conselho. “Não sejam burros. Não vistam camisas de outros clubes aqui, porque não pega bem”. Eles me agradeceram muito pelo toque.

Cruzeiro e Flamengo se enfrentam neste domingo pela 27ª rodada. Para quem você torcerá?

Certa vez, fui homenageado no Maracanã pelos dois presidentes dos dois clubes. Recebi uma camisa de cada, e as duas torcidas gritaram o meu nome. O presidente do Flamengo me perguntou se eu era Flamengo ou Cruzeiro. Aí, eu perguntei a ele de qual dos dois filhos ele gostava mais. Ele ficou sem resposta. Cruzeiro e Flamengo são os meus dois filhos, ou os meus dois pais. Comecei em um (Cruzeiro) e terminei no outro (Flamengo). Me dei bem e fui campeão nos dois.

Flamengo de 1982