Aos 62 anos e com três títulos olímpicos no currículo, José Roberto Guimarães poderia ter diminuído o ritmo de trabalho após os Jogos do Rio para descansar e curtir os netos Felipe, 7, e Gael, 1.

O treinador da Seleção Brasileira de Vôlei Feminino fez exatamente o contrário. Além de acertar a permanência no cargo até a Olimpíada de 2020, ele ainda criou um time na cidade de Barueri (SP), onde vive, e o levou à elite brasileira, com a conquista da Superliga B, em abril.

O retorno ao principal torneio do país e a reformulação da equipe nacional neste novo ciclo olímpico estão entre os temas desta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, concedida durante a passagem da Seleção por Belo Horizonte, na semana passada.

O que te motiva a seguir no comando da Seleção?

Seleção, eu levo como missão. Seja em todo o ciclo olímpico ou qualquer campeonato que se dispute, é uma missão representar o país da melhor maneira possível. E eu me sinto feliz quando vou para o ginásio treinar, ou para um jogo, não faço como trabalho. Para mim, é uma coisa prazerosa. Sempre sonhei com isso. Tive muita dificuldade quando jogador, não era talentoso, e meu sonho era servir à Seleção. Consegui, durante quatro anos, de 1973 a 1977, e joguei a Olimpíada de Montreal. Então, vestir a essa camisa sempre foi algo que mexeu comigo. Estar representando e podendo fazer isso, hoje, é motivo de muito orgulho.

“Tive muita dificuldade quando jogador, não era talentoso, e meu sonho era servir à Seleção. Vestir essa camisa sempre foi algo que mexeu comigo. É motivo de muito orgulho”

Você é o único brasileiro tricampeão olímpico. O tetra é uma meta?

Não, na minha vida nunca foi assim. Sempre fiz voleibol por amor, por paixão. Acontece que eu adoro ganhar, detesto perder. Faço de tudo para vencer, dentro da quadra, nas horas de treinamento, na dedicação, no empenho. Isso faz parte do nosso trabalho durante todos esses anos. Não medimos esforços, e não acho que seja sacrifício nenhum. Agora, eu, de maneira nenhuma, tenho essa obsessão de ter ‘x’ ouros. Se tiver que ser, será. Vamos trabalhar muito para isso.

E de onde tem tirado força e tempo para investir no time de Barueri?

Eu recebi muito do vôlei, sabe? Muito carinho, muito apoio, muitas pessoas me ajudando. Como é que eu posso devolver isso? Agindo da mesma maneira, fazendo um projeto, dando às crianças e às novas jogadoras a oportunidade de realizarem também os sonhos delas, como eu pude realizar o meu. É uma forma de tentar retribuir.

 

 

Como funciona esse projeto na base? Quantas crianças são beneficiadas?

Temos cinco categorias, são mais de 200 crianças jogando voleibol. Muitas pessoas me perguntam se estou feliz com o time, e eu digo que estou feliz com o projeto. A Hinode (patrocinadora do clube) acreditou e também ajudou a idealizar. Estamos trabalhando com a base e aproveitando essas jogadoras para completar o time adulto, entendeu? E é um processo em que elas estão estudando e também são cobradas pela performance no estudo, não só no voleibol em si. Ainda não é o que a gente sonha, não está tudo redondo, mas já conseguimos algo, partindo do zero.

Qual é o objetivo tangível nesta primeira temporada na Superliga?

Ganhar, a gente sabe que é muito difícil. Tem times já bem estruturados há algum tempo. Mas temos que brigar para tentar ficar entre os quatro. O Rio manteve a equipe e ainda se reforçou com a Gabi (Gabiru, líbero da Seleção). Depois, vem o Praia Clube, que também é uma grande equipe, com um bom investimento. Tem o Minas, que manteve a maioria das jogadoras e também é um time de qualidade. E o próprio Osasco, outro time de tradição. E aí vêm os demais, correndo atrás. Se a gente chegar entre os quatro nesse primeiro ano, a missão estará muito bem cumprida.

“Nós já tivemos esse encontro na Superliga, na época que eu estava em Campinas, e ele (Bernardinho), no Rio. Acho que isso é muito legal, porque movimenta. Esse contexto dá uma certa mexida com a competição”

E o que esperar do duelo entre você e o Bernardinho, com os holofotes voltados para os dois técnicos mais vitoriosos do país?

Nós já tivemos esse encontro na Superliga, na época que eu estava em Campinas (2012/13), e ele, no Rio. Acho que isso é muito legal, porque movimenta. Esse contexto todo dá uma certa mexida com a competição. Tem ainda o próprio Paulinho (Paulo Coco, ex-Camponesa/Minas, novo técnico do Dentil/Praia Clube), que trabalha comigo na Seleção, me conhece muito bem e também vai ser meu adversário, com um handicap melhor que o meu (risos). Vai ser duro jogar contra ele, como também vai ser duro enfrentar o Marcos Kwiek (Bauru), que trabalhou com a gente na Seleção até 2007.

Voltando a falar de Seleção, como avalia a preparação para o Grand Prix (estreou ontem, com vitória sobre a Bélgica), tendo em vista que o time passou por uma grande reformulação?

É verdade. Essa renovação é muito parecida com a que houve em 2005. As únicas atletas mais jovens nos Jogos de Atenas eram a Mari e a Sassá. Depois, vieram Jaqueline, Paula... A Fabiana já estava, mas também era muito jovem. A Sheilla tinha estado em 2003, mas depois não foi convocada... Acho que não está muito diferente agora, e vejo uma tendência de crescimento.

Mas, em termos de qualidade do grupo, nessa comparação, dá para esperar uma geração tão boa quanto aquela?

Ah, acho que dá... Não tem jeito, a gente sempre acaba pensando ‘puxa, olha o nível que aquelas jogadoras alcançaram!’. Afinal, elas ganharam duas medalhas de ouro olímpicas. Mas acho que dá, sim. Tem muita coisa boa acontecendo hoje, e estou otimista para o futuro. Agora, essas jogadoras novas ainda precisam crescer, ter experiências. Uma coisa é jogar a Superliga, outra coisa é jogar no nível internacional, contra as melhores do mundo. A tendência é o teu nível aumentar, os teus horizontes serem diferentes. É o que a gente espera. E, na Seleção, não tem treinamento em onda. É forte ou mais forte. Como todas são boas jogadoras, o nível vai subir.

Brasil Polônia Mineirinho Vôlei

Seleção Brasileira venceu a Polônia por 3 sets a 0, na semana passada, em amistoso no Mineirinho

Algumas das atletas presentes em 2016 pediram dispensa para casar, engravidar, etc. Como você lida com esse tipo de situação? Ainda espera contar com algumas delas em Tóquio?

No voleibol feminino, existem esses momentos, especialmente quando elas chegam perto dos 30 anos. O que eu digo, tento aconselhar, é que façam isso no ano pós-olímpico, para dar tempo de as coisas acontecerem. Peço que elas se planejem também. É uma situação diferente das mais longevas, como é o caso da Fabiana e da Sheilla, e que é totalmente compreensível. Elas se dedicaram à Seleção durante 15 anos, jogando Grand Prix, Copa do Mundo, viajando para cima e para baixo. É lógico que elas também querem ficar com as famílias. Se a Seleção sente? Sim, muito. Mas você vai dizer o quê?

“Não tem jeito, a gente sempre acaba pensando ‘puxa, olha o nível que aquelas jogadoras alcançaram!’. Afinal, elas ganharam duas medalhas de ouro. Mas tem muita coisa boa acontecendo hoje, e estou otimista”

Você tentou demovê-las?

Tentei, pois acho que ainda teriam muita coisa a acrescentar. Elas ainda têm o físico para aguentar, e têm a experiência. Ainda espero contar com Dani, Fernanda Garay, Fabíola, a Thaísa também, que se machucou e deve voltar... Mas o importante é tentarmos reunir sempre o que temos de melhor naquele momento. E essas jogadoras mais jovens estão tendo a oportunidade, estão lutando muito pelo espaço delas. É isso que a gente precisa, mais gente e com mais qualidade sempre.

A Seleção Brasileira de Futebol Feminino tem há seis meses a sua primeira técnica mulher. Essa é uma realidade distante para o vôlei?

Participei de um curso na semana passada e, de 30, 35 pessoas que estavam lá, só duas eram mulheres. É difícil, de maneira geral, ver mulheres no alto rendimento. Muitas preferem trabalhar na base, na formação. Agora, o futuro espera que isso aconteça, por assim dizer. A Lang Ping, técnica da China (campeã olímpica no Rio), é um exemplo. Nós tivemos ainda a Paula Weishoff, que trabalhou na seleção americana como assistente técnica. A Fofão (ex-levantadora) também. Ela fez o curso nível 2 há poucos meses, e tomara que ela opte por essa carreira. Acho que vamos partir para um aumento no futuro.

Para finalizar, que lembranças vieram à sua mente ao entrar outra vez no Mineirinho?

No Ginásio, duas lembranças. A primeira, eu não lembro o ano, acho que em 2000 (na verdade, 2002), pelo Osasco. O Minas ganhou do nosso time na final, e depois a gente venceu o campeonato, aqui mesmo, no ano seguinte. Foram dois momentos bem importantes. E a segunda, na Liga Mundial de 1995, então como técnico da Seleção Masculina. Nós fizemos uma parte da preparação aqui antes da fase final, que foi disputada no Rio de Janeiro. São lembranças marcantes, de ginásio sempre lotado e da torcida frenética ajudando os times, tanto a favor, pela Seleção, quanto como adversário do Minas.

E como jogador, na passagem pelo Atlético?

Sim, é verdade, eu joguei pelo Atlético em 1983. Foi muito legal. Teve a final do Campeonato Mineiro, contra o Minas. E, depois, nós chegamos em terceiro lugar na Superliga. Tem muita história... Ainda tenho uma memória muito grande do ‘seu’ Adolfo Guilherme, que foi um ícone muito importante do voleibol mineiro. Era uma geração fantástica. Minas Gerais é um berço importante, sempre com grandes revelações, grandes técnicos e uma tradição muito grande. Sempre chamou atenção pelos bons frutos e bons resultados.

Leia mais:
Brasil atropela Polônia no Mineirinho em noite de festa e 'apresentações' ao público local
Seleção chega totalmente reformulada a Belo Horizonte para encarar Polônia no Mineirinho
Seleção disputa amistoso no Mineirinho tendo levantadoras como atração para o público local