Depois de assumir o comando da seleção brasileira masculina de vôlei, Renan Dal Zotto teve dois meses de muita conversa. O objetivo do treinador é se aproximar de atletas e clubes para dar continuidade - de forma fiel - ao trabalho desenvolvido por seu antecessor. Bernardinho terá até mesmo um papel consultivo na modalidade. "Se tenho uma pessoa dessas acessível, por que não consultá-la?", questiona.

Em entrevista por telefone ao Estado, Renan explica que sua filosofia está alinhada com o projeto que vinha sendo desenvolvido e diz não se incomodar com as comparações nem com a desconfiança. Até os Jogos de Tóquio, em 2020, deseja "reinventar alguma coisa". O primeiro teste será na Liga Mundial, em junho.

Como foram os seus dois primeiros meses de trabalho?
Uma correria. Tudo aconteceu muito rápido, tentei estar presente em alguns treinamentos de clubes, falar com treinadores, acompanhar a maior quantidade possível de jogos, aqui no Brasil e fora. Acabei de chegar da Itália essa semana.

Como tem sido a receptividade dos atletas e dos técnicos?
Está tudo bacana. Ainda não tive oportunidade de falar com todos os atletas que participaram dos Jogos Olímpicos, mas até o fim desse mês, com certeza, vou ter essa chance. Cada vez mais as seleções brasileiras têm pouco tempo de treinamento. Então tenho de estar próximo dos clubes para entender o tipo de trabalho que estão fazendo para não ter uma ruptura muito drástica.

Na Liga Mundial, já vamos ver a cara do Renan na equipe?
Não tem como querer sair inventando, é uma coisa que vem sendo construída há anos. O vôlei brasileiro tem o propósito de estar sempre entre os melhores. Nós temos de ir ajustando a rota, mas o planejamento é muito bem definido.

Quais são as diferença e semelhanças entre a sua filosofia de trabalho e a do Bernardinho?
Eu e Bernardo temos uma amizade muito grande. Existe, naturalmente, um alinhamento na forma de pensar e de conduzir as coisas. Quando assumi, pedi que ele continuasse de alguma maneira ajudando sempre que preciso e ele topou.

Qual vai ser o papel do Bernardinho? Até que ponto ele pode aconselhar ou interferir?
Já tivemos uma reunião com todos os treinadores das comissões técnicas. O Bernardo, para mim, vai ser um consultor, terá liberdade de falar, é um cara que estava ali no dia a dia com todos os atletas, é um conhecedor das características e adversidades. Se tenho uma pessoa dessas acessível, por que não consultá-la? Ele vai ser um cara importante para dar uma coordenada em todas as categorias de base e adulto.

Você vai enfrentar nesse início de trabalho muitas comparações. Como lida com isso?
É natural. Em qualquer lugar que você vai trabalhar existem comparações.

Não te incomoda?
Não é uma coisa nova para mim. Está tudo certo.

O Bernardinho ficou 16 anos na seleção. Você acha que enfrentará desconfiança do público?
Acho que o tempo que vai falar. O Bernardo é um cara insubstituível. Tudo o que ele construiu vai ficar para sempre. Estou entrando para ver se a gente consegue de alguma maneira dar continuidade. Cada um constrói sua história, vou tentar ser o mais fiel possível a tudo o que foi feito até hoje, dar segmento ao trabalho.

Surgiram críticas quando seu nome foi anunciado. Como recebeu os comentários negativos?
Foram oito anos fora da beira da quadra, mas eu estava quase dentro da quadra. Já tive outra passagem que foi muito parecida com essa. Claro que no início você tem de se adaptar. O mais importante é que nunca me afastei do lado técnico. Se fosse ano olímpico ou um ano antes da Olimpíada, não seria irresponsável em aceitar. Mas, em momento de início de ciclo olímpico, dá para buscar.

Você se disse muito autocrítico. É momento de ter paciência?
Me cobro muito. O mais importante é estar bem assessorado, cercado de pessoas competentes, e eu estou muito feliz com a comissão técnica que foi montada. Essa retaguarda é muito importante, são pessoas de extrema confiança. As condições de trabalho que a CBV oferece e que os atletas têm nos clubes são favoráveis. Ganhar ou perder é uma consequência do dia a dia.