Celso Roth experimentou um dos maiores patamares que um técnico brasileiro pode alcançar, ao conquistar a Copa Libertadores de 2010 com o Internacional. Em Minas Gerais, porém, não teve o mesmo sucesso, após duas passagens pelo Atlético e uma pelo Cruzeiro.

Ainda assim, o treinador revela ter saudades, rasga elogios aos clubes e torcidas rivais de Belo Horizonte e aponta dois personagens muito queridos na cidade – o ex-meia alvinegro Ronaldinho Gaúcho e o ex-volante celeste Tinga – como jogadores “únicos” dentre os vários que ajudou a revelar.

Neste Papo em Dia, o gaúcho de 59 anos comenta também a crise da profissão no Brasil e avalia como injusto o rótulo de “professor linha-dura”, entre outros assuntos.

Seu último trabalho foi no Inter, há quase um ano. O que tem feito nesse período, em termos de atualização, para voltar ao mercado?

É interessante esse momento do mercado. Depois do que aconteceu na Copa do Mundo [7 a 1], vocês da imprensa, de modo geral, passaram a questionar a qualidade do treinador brasileiro, a se ater ao currículo e a cobrar mais formação e conteúdo. Isso veio à tona depois de perdermos o Mundial em casa, mesmo que aquilo fosse previsível, pelas dificuldades que o Brasil havia demonstrado na fase classificatória. Essa cobrança pelo estudo surgiu como algo até absolutamente natural e coerente, mas também virou um modismo.

O Ronaldo Gaúcho foi o melhor com quem trabalhei, tecnicamente. Mas um outro, que se fala menos, é o Tinga. Esse menino é uma daquelas pessoas únicas no futebol”

Você faz parte de uma minoria de técnicos graduados em Educação Física. Não acha a capacitação acadêmica importante, ou que a falta dela, de maneira geral, também desvaloriza a categoria?

Sim, e me atualizo há muito tempo. Mas acredito que o grande questionamento não é apenas o estudo em si. É a troca de informação, no Brasil e fora dele, na América do Sul, na Europa, na Ásia... Isso eu sempre fiz. Tenho saído do país e mantido contatos o tempo todo, até porque trabalhei no mundo árabe por sete anos e tenho a facilidade da língua inglesa. Quando se fala em estudar, é preciso ter cuidado. Estudar não é passar 15 dias na Europa. Quando tu me perguntas se estou estudando, eu teria que dar todo o meu histórico.

E quais são exatamente esses seus contatos no exterior?

Eu poderia falar do escritório do Capello [Fabio, ex-Real Madrid e Inglaterra, entre outros], em Milão, onde estive agora há dois anos. Ou da possibilidade de ter sido treinador do Torino [em 2013], junto com o Giampiero Ventura, que hoje está na Seleção Italiana. Poderia falar de outras situações anteriores, da possibilidade de ter trabalhado na Roma... Ou da ida a Coverciano no ano 2000, onde está o CT da Itália e a famosíssima Faculdade de Treinadores, uma das mais importantes, se não a mais importante da Europa. Mas são coisas que não uso como marketing, pois é o que venho fazendo desde o início da carreira.

Ronaldinho Gaúcho e Tinga Atlético e Cruzeiro

Treinador gaúcho (ao fundo) observa Ronaldinho e Tinga durante clássico mineiro no Independência

 

Os técnicos estrangeiros e mais jovens tomaram o espaço de profissionais como você?

O mercado mudou. E, juntamente a essa situação da Copa, veio também a variável da crise econômica. Mas acredito, sim, que precisamos de renovação dos ciclos. Não é assim apenas no futebol. Deve haver oportunidades para os mais jovens também, como em todas as áreas da vida. Se eu, junto com alguns outros nomes, somos pessoas consagradas no mercado, é porque tivemos a chance quando mais novos. E aí vai se firmar quem mostrar trabalho. Nos últimos anos, muitos nomes assumiram times e não se firmaram. É assim mesmo que a coisa acontece, porque o mercado é difícil, e um profissional de alto nível precisa preencher um mínimo de itens.

Quais seriam eles?

Na minha opinião, é importante que o treinador fale duas línguas e que tenha trabalhado no estrangeiro por um determinado período. Para ser um treinador de seleção, por exemplo, seja do Brasil ou outro país, acredito que deva ter no mínimo os dois requisitos e ainda ter sido campeão regional, nacional ou continental. Se tiver três desses itens, estará habilitado, pois eles estão interligados.

Já paraste para fazer uma análise daquele time de 2003? E do de 2009? Quem me dera seu eu tivesse a oportunidade de trabalhar com um grupo como esse atual do Atlético”

Nesse contexto de trocas tão frequentes, falta mais capacitação e profissionalismo aos técnicos ou aos dirigentes?

Nós temos uma estrutura presidencialista. Um torcedor se torna sócio, vira conselheiro, e depois tem a possibilidade de ser o presidente. Dependendo dos relacionamentos dessa pessoa, pode assumir um clube em seis, sete anos, talvez até menos. A formação dela, profissionalmente, costuma ser em outra área. E chega ao futebol sem jamais ter trabalhado em uma equipe de base, sem ter ido para o interior com o time, sem ter frequentado um vestiário. E passa a ter que decidir e conviver em situações complicadíssimas, porque o futebol é absolutamente diferente de uma empresa ou de qualquer outro seguimento social. Então falta, sim, uma qualificação aos dirigentes também, para não decidirem as coisas apenas no sentido emocional. Ganhou é bom, perdeu é ruim. Não se avalia o trabalho desenvolvido.

O Cruzeiro venceu a Copa do Brasil tendo Mano Menezes como técnico mais longevo dentre todos os grandes clubes. Vê uma relação direta entre tempo no cargo e títulos?

O Mano, inclusive, estava para ser demitido no meio do ano, questionadíssimo. O futebol não é científico, é essa loucura que a gente está a todo momento tentando explicar. O treinador precisa viver o ciclo da derrota, do mais ou menos, de estar bem hoje e amanhã já não estar mais... Então existe uma relação direta, sim, porque ninguém é vencedor se não perder. Parece incrível, mas é isso mesmo. Quem não experimentou o sabor da derrota não vai saber o que precisará fazer diferente para ganhar. Perder é fundamental para se buscar as mudanças necessárias. Infelizmente, quase sempre se faz a avaliação imediata do resultado. Essa é a nossa cultura. E, especialmente depois da demissão do Ancelotti [Carlo, do Bayern de Munique], ficou claro que a Europa também está assim.

Você viveu uma situação diferente, ao assumir o Inter na semifinal e ser campeão da Libertadores em quatro jogos...

Nesse caso, tem um aspecto que deve ser destacado. Só tive a felicidade de ganhar a Libertadores de 2010 porque era um momento de pausa para a Copa do Mundo e eu tive 45 dias para trabalhar o grupo do Internacional. Pouca gente leva isso em conta. Assumir um time no meio da competição é completamente diferente e muito, muito mais complicado. Muito mais difícil para colocar as coisas nos seus lugares. Nós até acharíamos alguns exemplos positivos, mas são bastante raros.

Alexandre Kalil e Celso Roth Atlético

Técnico ao lado do então presidente do Conselho Deliberativo do Galo, Alexandre Kalil, em 2003

 

O seu nome foi especulado quando o Roger Machado caiu no Atlético. Recebeu proposta?

Não, não cheguei a receber. Na verdade, eu sabia que existia alguma possibilidade de ser chamado, mas não tive nenhum contato com o Atlético, não.

O que faltou para levar aqueles times do Atlético mais longe no Brasileiro em 2003 e, principalmente, em 2009?

Eu vou te responder com uma pergunta. Tu já paraste para fazer uma análise do time de 2003, tecnicamente falando? E do de 2009? Tu verás que eram times completamente desequilibrados tecnicamente. Quem me dera eu tivesse a oportunidade de trabalhar com um grupo como esse atual do Atlético! Nos últimos quatro, cinco anos, o Atlético deu um salto de qualidade fantástico, contratou jogadores de primeira linha e colheu os frutos disso. Naquele momento, o clube vinha de uma sequência desequilibrada também administrativamente. Disputamos o Brasileiro com a intenção de não termos dificuldades de queda, e depois o que viesse seria lucro.

Como explicar tamanho insucesso do clube em 2017?

Agora, a perspectiva é outra, de sempre disputar título. Por isso a decepção. A própria torcida e a imprensa falam “ganhou só o Mineiro”, como se fosse fácil, como se não fosse muito importante. Quando você cria um time campeão de Libertadores, campeão de Copa do Brasil, vice-campeão nacional e que vem fazendo jogos maravilhosos, a expectativa é ser campeão mundial. Está certo pensar assim. Mas, se vem a derrota, vira terra arrasada. Por isso estão acontecendo tantas mudanças de comando, porque é mais fácil trocar um profissional da comissão técnica do que cinco ou seis do elenco.

O Mano, inclusive, estava para ser demitido no meio do ano, questionadíssimo. O treinador precisa viver o ciclo da derrota”

Que balanço você faz das suas passagens pelo futebol mineiro?

Trabalhei duas vezes no Atlético e uma no Cruzeiro, também numa fase muito desequilibrada. Fui contratado pelo Cruzeiro para o Brasileiro [2012], e o clube tinha recém saído de um fim de ano no qual precisou ganhar um clássico contra o Atlético para não cair para a Segunda Divisão. Mas tenho lembranças magníficas de Belo Horizonte e dessas duas equipes fantásticas. São clubes que estão em altíssimo nível, não só no futebol brasileiro, mas mundial. E que, ao lado do Atlético-PR, têm os melhores CTs do Brasil, da América do Sul e, quiçá, do planeta. Agora, acima de tudo isso, eu preciso destacar o carinho e o respeito que recebi do povo mineiro e que é recíproco, tanto do lado atleticano quanto do cruzeirense. Um povo que sempre me tratou muito bem. Foram experiências maravilhosas e pessoas que tenho até hoje como grandes amigos.

Você viveu profundamente os clássicos gaúcho e mineiro. Quais as principais diferenças e semelhanças entre eles?

São diferentes, porque o povo mineiro e o povo gaúcho são diferentes. O que muda é a perspectiva de fora. Por exemplo, o jeito como as torcidas e a mídia promovem o clássico. Há uma inflamação maior em Porto Alegre, é mais quente, enquanto em Belo Horizonte há um respeito maior. Agora, dentro do estádio e do gramado, é uma disputa parecidíssima. São jogos lindos de se participar, bons tecnicamente e muito emocionantes. Infelizmente, essa realidade das torcidas únicas atrapalha o jogo e o espetáculo. Eu não gosto, nenhum profissional de futebol gosta disso.

Celso Roth no Cruzeiro

Roth comandou o Cruzeiro durante as 38 rodadas do Campeonato Brasileiro de 2012

 

Como você lida com esse rótulo de ser um técnico “linha-dura”?

Se você não tiver hierarquia, organização e cobrança aí no seu jornal, sejamos bem claros, vai dar merda, não é (risos)? Gosto que as coisas funcionem, que pessoas tenham responsabilidades e respeito com os colegas, e que façam o que foi combinado. E, se não fizerem, que assumam os seus papéis. Se isso é ser linha-dura, eu sou. Se isso é ter problema de relacionamento, eu tenho, realmente (risos). Pessoalmente, não me considero assim. Sou uma pessoa completamente aberta. Nunca tive briga com jogador, nem discussão com a imprensa. Nunca chamei ninguém 'assim' ou 'assado'. As pessoas às vezes colocam rótulos sem conhecer os profissionais.

Outra marca sua é ter revelado ou treinado grandes jogadores quando jovens. Algum deles te surpreendeu, foi além do que poderia imaginar?

Eu agradeço, se é que tenho essa fama. Tive a oportunidade de trabalhar com alguns nomes como Robinho e Diego no Santos, Lúcio no Internacional, Douglas Costa no Grêmio... O Douglas teve uma queda em um momento, eu não esperava que fosse tão longe, e ele está de parabéns por ter ido. Agora, dentro da sua pergunta, sem dúvida nenhuma o Ronaldo Gaúcho foi o maior fenômeno, sem querer parafrasear o outro Ronaldo. Um jogador único, fantástico, o melhor com quem já trabalhei, tecnicamente falando. Vocês puderam acompanhar de perto o que ele fez aí em Belo Horizonte, mesmo já em uma fase final da carreira. Mas tem um outro nome que talvez se fale menos, que é o Tinga, hoje dirigente do Cruzeiro. Ele também esteve comigo no Grêmio, aos 18 anos, foi para o Japão, rodou um pouco e voltou outro atleta, com muita maturidade, colecionando títulos e mais títulos ao longo da carreira. Esse menino é uma dessas pessoas únicas no futebol... Enfim, são felicidades que tive na vida e certamente me deixam até emocionado ao lembrar. E fico muito mais tranquilo de ter esse rótulo do que o primeiro, de linha-dura (risos).

Leia mais:
Confira outras entrevistas publicadas no especial 'Papo em Dia'