Uma viagem de 1,7 mil quilômetros trocada por um percurso de ônibus coletivo ao preço de R$ 3,55. Mudança de planos radicais, e ainda por cima, capaz de proporcionar a realização de um sonho com quase 23 anos de espera: ver o clube do coração pela primeira vez in loco.

Quando o juiz apitou o fim do duelo entre Floresta-CE 0x2 Botafogo-PB, pela Copa do Brasil, no dia 31 de janeiro, a publicitária Luíza de Farias comemorou como nunca. Não que ela fosse uma apaixonada pelo “Belo” de João Pessoa. Mas a equipe da estrela solitária (vermelha) se classificou e esperava o vencedor de Atlético-AC x Atlético. Este sim, dono do coração da paraibana que nasceu a 300 km da capital e escolheu o Galo mesmo sem ter raízes mineiras na família.

O Atlético, com futebol ruim, quase fez ruir a certeza de Luíza em realizar o sonho de mais de duas décadas. O Galo jogou uma semana depois do Botafogo-PB, e teve dificuldade de passar pelo Atlético-AC. Mas o empate em 1 a 1 em Rio Branco, que confirmou a viagem do Galo para João Pessoa daqui duas semanas, deixou a torcedora “anestesiada”.

“Eu estou anestesiada, feliz demais! Não vejo a hora de comprar o ingresso, de ir pro aeroporto, hotel, estádio, sede do Consulado (Galo Jampa). Quero tirar o dia pro Galo!”, afirmou Luíza em entrevista ao Hoje em Dia.

A paixão pelo Atlético veio de família, mais precisamente do pai, João. Natural de Teixeira-PB, no interior da Paraíba, e também sem ligação com Minas Gerais, João ouvia a Rádio Inconfidência na ondas médias AM, na década de 1970. Ficou, ao lado do avô de Luíza, fã do goleiro Ortiz. Um passo para se encantar com aquele time de Reinaldo e Cia.

João, ainda na juventude, foi até São Paulo trabalhar num supermercado e mandar dinheiro para a família. Lá, perto do sul de Minas, chegou a acompanhar o Galo em algumas partidas em Poços de Caldas. 

"Não tem ninguém mineiro aqui. Nem alguém que tenha morado em Minas. Meu avô por parte de pai tinha um rádio que pegava AM, aí ele ouvia muito a Inconfidência AM. Ficaram fãs do goleiro Ortiz. Ele fazia minhas festinhas de aniversário do Galo. Como em Teixeira não tinha roupa do Galo, ele mandou fazer o emblema e colava nas roupas da gente", acrescentou.

Luíza com a mãe Rosane, o irmão Moisés e o pai João; amor pelo Galo através das ondas do rádio

Luíza com a mãe Rosane, o irmão Moisés e o pai João; amor pelo Galo através das ondas do rádio

OBRIGADO, SORTEIO E TABELA

Luíza quer saborear este sentimento já vivido pelo pai. A expectativa de gravar na retina um jogo do Atlético. A vontade a levou a planejar viagem para Belo Horizonte este ano. Iria conciliar um retiro religioso (Comunidade Shalom) na capital mineira com a visita ao Independência. Mas a viagem teria alto custo, o que inviabilizaria ela de levar também o irmão Moisés, igualmente atleticano.

"Seria uma solução que não me agrada 100%, porque tem meu irmão que é muito apaixonado e nunca viu o Galo também".

As duas últimas vezes que fui no Consulado (Galo Jampa) foram nas duas últimas derrotas em clássico do Galo. Meu pai disse que não posso ir mais porque sou pé frio

O Atlético visita o Nordeste brasileiro com garantia de pelo menos uma vez por ano, por conta dos adversários da Série A, principalmente o Sport Recife em Pernambuco. Mas Luíza, por recomendação familiar, se resguardou de ir na Ilha do Retiro, receosa da violência.

Eis que a tabela da Copa do Brasil surgiu como presente dos céus, mesmo que o time de Oswaldo de Oliveira, com toda a fragilidade, quase tenha complicado e levado Luíza direto para a Unidade de Pronto Atendimento em João Pessoa. Não que seria a primeira visita dela à UPA, uma vez que é daquelas torcedores que passam mal em derrotas. Mas, daqui há duas semanas, o risco que a publicitária corre é de morrer de felicidade.