Nada de frustração ou ressentimento. Em aproximadamente meia hora de conversa, o zagueiro Dedé mal toca no assunto das lesões que o afastaram dos gramados por quase três temporadas inteiras.

Em vez de lembrá-lo do passado recente de dificuldades, as cicatrizes nos dois joelhos servem como motivação extra para uma volta por cima poucas vezes vistas na história do futebol.

Com sete partidas disputadas neste ano e contrato renovado até dezembro de 2019, o "Mito" revela neste Papo em Dia o sonho voltar à Seleção Brasileira e se tornar um exemplo de superação.

 

De volta ao time titular do Cruzeiro, campeão e com contrato renovado. Há quanto tempo não vivia uma semana tão boa?

Estou feliz demais. Está sendo mesmo especial, por ter voltado fazendo bons jogos, me sentindo bem e, agora, coroado com o título. Nunca tinha conquistado um Estadual antes de chegar ao Cruzeiro e, assim como o primeiro (2014), esse título foi importantíssimo, ainda mais por ter conseguido ajudar o clube jogando a final.

Como foram os dias após a derrota de 3 a 1 para o Atlético no jogo de ida? E o que significou chegar ao Mineirão descendo no meio da torcida?

Quando fiquei sabendo que teria a oportunidade de jogar, aquilo já mexeu muito comigo. Descer no meio da torcida foi uma ideia do Thiago (Neves), uma parada diferente, que nunca tínhamos feito. O torcedor abraçou a causa numa semana que muitos achavam que seria pesada, carregada. Eu não via dessa forma. Mas paramos para pensar e focar na final, e também vimos coisas que nos motivaram e mexeram com o nosso brio. Foi bom termos conquistado o título para mostrar que somos o Cruzeiro, a nossa força e o nosso elenco. E coroamos também a melhor campanha que tivemos. Acho que merecemos bastante essa competição.

 

 

Vê as provocações no futebol como saudáveis? Como viu essa polêmica nos clássicos da final?

Existe uma rivalidade muito grande entre Cruzeiro e Atlético. Estávamos sem vencer (o Mineiro) há quatro anos, e sempre que eles ganharam também teve provocação. Nosso elenco abraçou essa causa, virou um pouco torcedor ali e provocou. Mas não teve confusão, briga, e isso é o feio do futebol. Nesse ponto, houve o respeito. O Atlético foi para o vestiário, e o nosso time foi comemorar. Apesar de alguns exageros, de ter estendido muita coisa, foi uma provocação light.

Não é desculpa, mas estávamos no meio de uma final contra o rival [...] Mas temos grandes chances (na Libertadores). Quando se ganha um título, o ambiente muda e as coisas positivas voltam"

Você revelou uma grande frustração na Libertadores de 2014. Além do título estadual, isso também te motiva para uma reação no torneio?

Com certeza. Contra o Vasco (0 a 0 no Mineirão), sei que não é desculpa, mas estávamos no meio de uma final contra o maior rival, com muita provocação e coisas que mexeram conosco. Não que isso tenha tirado o nosso foco, mas ficamos num meio-termo, pensando muito no jogo contra o Atlético. Acho que até o torcedor, apesar de ter cobrado, pensou da mesma forma e estava esperando aquela final de qualquer jeito. Não é desculpa, tínhamos que ter tirado esses três pontos. Mas ainda temos grandes chances, e quando se ganha um título o ambiente muda, as coisas positivas voltam e o torcedor nos abraça.

Sua primeira convocação para a Seleção, em 2011, foi justamente com o técnico Mano Menezes. Como foi aquele momento para você?

Eu falo com os caras que, quando você vai para a Seleção, é totalmente diferente de qualquer coisa que eles já viram na carreira. O jogador chega lá até meio abobado, sabe? É um mundo diferente. A Seleção foi o meu objetivo maior, é o meu objetivo maior, e acredito que tenho condições de chegar. Desde quando estava machucado, sempre acreditei. A Seleção está bem servida, é muito difícil entrar agora, mas vou trabalhar e buscar esse espacinho lá.

 

 

Ficou frustrado por não ter ido à Copa de 2014? Ainda tem o sonho de disputar um Mundial?

Nunca me frustrei, nem em 2014, quando a convocação ficou entre eu e o Henrique (hoje no Corinthians). Não fui para a Copa, mas fiquei muito feliz. Saí do Volta Redonda, um time considerado pequeno, de baixa expressão, então me orgulho muito. Ter saído de lá e chegado à Seleção já era um patamar maravilhoso na minha carreira. Brigar por uma Copa e ser a última dúvida do treinador foi muito marcante para mim e para a minha família. Meu filho ainda não era nascido, mas quando crescer certamente vai ter esse orgulho de mim.

Nunca tive ambição, nem para a Seleção. Só se tornou um sonho quando se realizou. Estava dormindo e nem sabia que ia ter convocação"

Você realmente recebeu propostas da Europa na época? Se arrependeu de não ter ido?

Tive várias propostas. As que mexeram muito comigo foram a do Manchester City e a do Benfica, porque eles vieram com muito interesse. Já aqui no Cruzeiro, teve especulação do Real Madrid e uma sondagem verídica da Juventus também, mas desandou. Tanto o Vasco quanto o Cruzeiro sempre bancaram para eu ficar. Seria um sonho, mas gosto muito daqui, de estar próximo da minha família. Sou muito ‘pé no chão’, meu objetivo não é ficar bilionário, e não vejo o Cruzeiro tão distante dos times da Europa, não. Vejo como um dos melhores do mundo, um time com muita tradição e muitos títulos. Sinceramente. Não falo isso para bajular, porque não preciso disso, e o torcedor sabe que não sou de ficar fazendo média.

Ainda pensa na possibilidade de jogar no exterior, nem que seja pela experiência pessoal?

Nunca tive ambição, nem para a Seleção. Só se tornou um sonho quando se realizou, quando eu já estava lá. Quando fui convocado, eu estava dormindo e nem sabia que ia ter convocação. Sou desligado dessas coisas, só me concentro para jogar. Depois de muito tempo, depois de ter passado pela Seleção, é que começou a vir o pensamento de jogar na Europa. Mas, sinceramente, não gosto nem de viajar (risos), prefiro ficar na minha casa, no meu canto. O máximo que viajo é para pescar. A gente sabe que a Europa tem um futebol maneiro, tem a Champions League, mas não tenho ambição. Muitas pessoas dizem que não me entendem, mas mantenho os pés no chão na questão da minha carreira.

 

 

Para concluir, qual é o seu maior sonho hoje?

Seleção. Por tudo que aconteceu (lesões), se eu chegar nesse nível, vai ser o contrário do que muitas pessoas acreditavam. Desconfiaram se eu voltaria com velocidade, arrancada, antecipação, bola aérea... Acharam que eu ia perder isso, e hoje me sinto muito bem. Se eu voltar para a Seleção, vou surpreender muita gente, pelo lado positivo. Não quero jogar na cara de ninguém, nunca vou fazer isso. Até porque entendo as dúvidas. Mas acho que seria muito legal. Muita gente vai acreditar mais no seu potencial, vou ser uma inspiração para muitas pessoas. Esse é o meu objetivo na Terra, tentar ajudar como puder. Recebo muitas mensagens de pessoas falando que se espelham na minha garra, na minha fé, e isso já me faz ganhar o dia.

 

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