Com a camisa do Atlético, Jesús Dátolo entrou em campo 127 vezes em pouco mais de três anos na capital mineira. Campeão da Recopa e da Copa do Brasil, em 2014, e campeão estadual na temporada seguinte, o argentino conquistou 68 vitórias, 31 empates e sofreu 28 derrotas. Ídolo da torcida do Galo, ele atualmente defende o Banfield, clube no qual foi revelado na Argentina.

Nesta entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, o meio-campista fala do amor pelo clube mineiro, volta ao passado para comentar as conquistas e frustrações, conta como chegou ao Atlético e muito mais.

Voltar ao Banfield, clube que te revelou, significa o encerramento de um ciclo como jogador? Encara desta forma ou ainda pretende prolongar a carreira? 

Na verdade, eu queria voltar porque passei muito tempo fora do meu país. Foram dez anos e eu precisava voltar para ficar com a família e respirar novos ares. Foi bom ter voltado porque eu tive uma sequência de jogos e as lesões acabaram. 

O primeiro gigante que você defendeu foi o Boca Juniors. Quais são as principais lembranças daquela época? 

Foi uma experiência muito boa, até porque eu vinha do Banfield, né? Chegar no vestiário e ver todas essas figuras, esses caras que já tinham conquistado tantas coisas, foi muito bom. Os primeiros seis meses foram muito complicados para mim. Vim de um time pequeno para um grande como o Boca, mas depois peguei confiança. Sou um cara que não desiste nunca, mesmo às vezes indo mal. Ganhamos quase tudo que disputamos. Foi impressionante.

Ser convocado para a seleção por Diego Armando Maradona teve sabor especial? Lembra de como soube da convocação? 

Era uma noite, quase madrugada. Eu estava no Napoli, concentrado. Já estava para dormir. Aí sinto alguém bater à porta e era Lavezzi. Ele me fala tipo: “tem uma ligação aqui, é um cara que quer conversar com você”. Fiquei sem entender e, quando peguei o telefone, era Maradona. Foi muito engraçado porque eu não acreditava. Achei que era uma brincadeira. Lavezzi é muito louco e sempre faz essas coisas. Foi uma das coisas mais importantes que aconteceram para mim.

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Você teve a oportunidade de atuar ao lado de craques como Riquelme, Messi, Verón, D’Alessandro, Ronaldinho Gaúcho e outros. Se sente um privilegiado? Com qual deles mais aprendeu e se espelhou?

Você aprende um pouquinho de cada coisa com esses caras que você citou. Mas com o Riquelme eu joguei mais tempo e ganhamos tudo pelo Boca. Foi um cara que me ensinou muitas coisas. Eu jogava praticamente do lado dele. Recuperava a bola e dava para ele. Ele pensava no time. Na verdade foi impressionante jogar com ele, assim como com Ronaldinho e Messi. Nunca imaginei jogar com tantos craques na minha vida. Sou muito afortunado.

Respeito muito o Cruzeiro pela história que ele tem e isso é fato. Mas eles nunca vão ter a satisfação de ter ganhado um título (nacional) em cima de nós. Esta é uma satisfação que só o atleticano tem”



Por que suas passagens por Itália, Espanha e Grécia não foram tão duradouras? Se arrepende de alguma escolha?

Eu saí muito cedo do meu país. Saí no meu melhor no Boca. Acho que tinha que ter esperado mais um pouquinho para pegar um pouco mais de experiência. Não foi uma má experiência. Não me arrependo de nada. Tudo que eu tinha que ter feito eu fiz; não deu certo e pronto. Cheguei num momento ruim do Napoli. Por que não me convocam agora? (risos) Agora estão com um time arrumado e com caras conhecidos. Quando cheguei, meu treinador não me conhecia. Para mim foi uma frustração muito grande quando ele me perguntou em qual posição eu queria jogar. Imagina a minha reação. 

Em 2013, finalmente a chegada ao Atlético. Quando viu as portas se abrindo para você, o que conhecia do clube? 

Foi o seguinte, meu amigo. Não vou mentir. Quando eu estava no Inter, eu assistia a quase todos os jogos do Atlético. Inclusive, nesta Libertadores (2013), todos os times do Brasil torciam para o Galo, por tudo que estava acontecendo. Eu não estava bem no Inter, aí surgiu uma proposta do Atlético. Falei: “eu vou e não me interessa!”. Fiquei sabendo só aqui quanto eu ia ganhar. Eu só queria vir, principalmente depois daquela Libertadores. Eu via aquela torcida, quando surgiu o “Eu Acredito!”, e queria vir mesmo que fosse de bicicleta. Não podia perder aquela chance.

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A torcida do Galo é mesmo diferente?

Sinceramente, sim. Eu estou fora, então não tenho necessidade de falar da torcida do Atlético. Mas, falando com todo meu coração, é uma coisa que nunca vi; tirando o Boca, aqui na América do Sul, eu não vi uma torcida tão fanática. Sou um privilegiado por ter vestido esta camisa.

 

“Eu estou fora e não tenho necessidade de falar da torcida do Atlético. Mas, falando com todo meu coração, é uma coisa que nunca vi; tirando o Boca, aqui na América do Sul, eu não vi uma torcida tão fanática


O título da Copa do Brasil, em 2014, sobre o Cruzeiro, foi um dos mais importantes da sua carreira? Como foi derrotar o maior rival do Galo naquele momento?

Quando fomos campeões, a diretoria do Atlético deu um DVD daquela conquista. Hoje de manhã, a gente estava assistindo. Eu estava mostrando para a minha filha e ela estava cantando o hino do Galo. Na verdade, eu estava ensinando, mas ela ainda não fala (risos). Foi uma coisa incrível. Respeito muito o Cruzeiro pela história e isso é fato, mas eles nunca vão ter a satisfação de ter ganhado um título (nacional) em cima de nós. Esta é a satisfação que só o atleticano tem.

Você acredita que o seu sucesso pelo Atlético abriu portas para outros gringos no clube?

A mesma porta que abriu D’Alessandro no Inter, Conca no Fluminense, Tevez no Corinthians. A gente vai abrindo caminhos. A gente vai demonstrando que o futebol argentino pode vir para o Brasil e acaba que a gente se sente bem aqui. Sentimos que no futebol brasileiro se joga muita bola e se tem mais espaço.

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Como lidou com as notícias e acusações de evasão de divisas de pessoas ligadas a você, em 2016? É uma coisa totalmente no passado?

Às vezes por se tratar de um assunto muito delicado, os caras aproveitam para falar qualquer besteira. Sinceramente, tem caras que realmente são malandros e estão soltos. A gente comete um pequeno erro - e a gente pode errar! -, e já parece que sou um narcotraficante. Cometemos um erro, mas ficou no passado. Eu deveria ter feito de outro jeito e nada mais. Ficou para trás. Sou jogador de futebol, não quero me envolver nessas coisas, e por isso meu advogado é quem está resolvendo tudo. Não tenho nada a esconder. Sou um cara simples e, se tenho um problema, vou na justiça e resolvo. Não estou ocultando nada. As pessoas sabem do meu caráter e como sou., um cara honesto e é isso que importa.

Por fim, acredita que a Argentina volte com o caneco da Copa do Mundo na Rússia?

Tivemos muito perto em 2014, aqui no Brasil. Ia ser muito bom para a Argentina. Hoje o país não passa por um bom momento economicamente. Seria muito importante ganhar a Copa do Mundo para dar aquela força, assim como foi em 78. O Messi também precisa para se consolidar como o melhor do mundo. O Brasil também está muito forte. O Tite conseguiu armar um bom time; Alemanha e França também estão muito fortes.

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