Por mais que o motocross brasileiro tenha revelado ídolos nos anos 1970 e 1980, não é exagero dizer que o esporte no Brasil ganhou uma nova cara a partir do fim da década de 1990, graças a um piloto mineiro. Com o esporte no DNA – o pai, Jorge, foi um dos precursores da modalidade, Jorginho Balbi conseguiu feitos inéditos para um país que sempre enxergou, com respeito e distância, norte-americanos e europeus. Ainda que as feras estrangeiras acelerassem por aqui, faltava encará-los de igual para igual lá fora, colocar o verde e o amarelo no mapa da poeira e dos saltos.

Jorginho, hoje com 35 anos, conseguiu, na cara e na coragem, disputando uma temporada do Mundial das 125cc (hoje MX2) e conquistando posto entre os 15 melhores no motocross e no supercross norte-americanos, apesar de correr em equipes particulares contra os fortes times de fábrica. No currículo, quatro títulos brasileiros de motocross, dois de supercross, quase 30 mineiros e um latino-americano.

Um cenário que deu lugar à preocupação e à vigília em julho do ano passado, quando um acidente na etapa de Campinas do Arena Cross (supercross em traçados ainda mais curtos) o levou ao hospital, com uma grave lesão cervical. O tratamento parecia encaminhado, mas uma hemorragia pôs sua vida em risco. Felizmente, depois de uma espera angustiante, ele recebeu alta e se empenha com a mesma garra das pistas para se recuperar totalmente – agora, felizmente, uma questão de tempo. Na trajetória, voltou a se envolver com o esporte como chefe da equipe que leva seu nome. E mantém o foco nas pequenas conquistas, além de curtir o filho, Jorge Neto, que vai fazer um ano, e foi um dos grandes estímulos para a recuperação, ao lado da mulher, Fernanda, da irmã Mariana e dos pais. Em entrevista ao Hoje em Dia, ele fala sobre o susto que sofreu, a nova experiência e suas metas.

O que efetivamente aconteceu?

Eu nunca havia tido nenhum acidente tão sério, foi realmente um susto enorme. Lesionar a coluna cervical já era preocupante o bastante, depois uma hemorragia provocada por uma úlcera estomacal tornou o quadro ainda mais grave. Não foi fácil, minha esposa (Fernanda) estava a dois meses de dar a luz ao Jorge Neto.

As reações no período do acidente apenas confirmaram o carinho do mundo do motociclismo por você. Como é ser tão querido e respeitado?

É até difícil quantificar a força que todo esse carinho me deu. Todos rezaram, torceram por mim, se manifestaram nas redes sociais, e tenho certeza de que essa energia me ajudou a superar o momento mais delicado. Os médicos chegaram a dizer a meus pais que o quadro era irreversível, que não havia o que fazer, era o fim. E aqui estou eu. Melhor de tudo é saber que sempre mereci essa torcida, esse respeito do público. Só me deixa mais grato pelo que alcancei.

Que lições o acidente deixou? Quais são suas metas agora?

Hoje eu valorizo bem mais as pequenas conquistas, coisas que parecem bobas, como poder usar novamente as mãos para me alimentar; caminhar, dirigir. Os médicos indicam um prazo de recuperação de 24 meses em casos como o meu, e se passaram 11, então ainda tem muita coisa por vir – faço fisioterapia duas vezes por dia. Tenho vontade de andar de bicicleta, de reconquistar a autonomia em tudo, mas sei que é uma questão de tempo. Me espelho muito no Felipe Zanol, que passou por situação parecida e hoje está 100%. Mas não penso em voltar a pilotar, mesmo porque já estava na reta final da carreira, o aspecto físico me deixava em desvantagem na competição com os mais novos. As vezes conseguia compensar na técnica, mas ficava cada vez mais difícil.

E como foi voltar a uma pista pela primeira vez depois de tudo?

Não me bateu nenhuma vontade de competir, tive o privilégio de fazer muito mais do que imaginava quando comecei a andar de moto. Esse lado está muito tranquilo, me sinto bem à beira da pista mostrando a placa de tempos para os pilotos do time, sigo no meio usando tudo o que aprendi e vivi. Mas confesso que as vezes bate uma vontade louca de subir numa moto novamente.

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E a experiência como professor, era algo de família? Afinal, seu pai foi seu primeiro grande mestre.

Sim, tudo começou com ele, e era a forma de custear nossos gastos, de permitir que corrêssemos, além de orientar quem estava começando. Sempre foi um prazer, mesmo no auge da carreira, passar conhecimento a outros pilotos, mostrar detalhes que podem fazer uma grande diferença sobre a moto. Isso é muito comum nos EUA, por exemplo, eu mesmo tive o privilégio de aprender com feras como Ryan Hughes ou David Vuillemin. Infelizmente não há essa cultura no Brasil, a pessoa compra a moto, vai lá e anda por conta própria, o que pode ser perigoso. Nesse aspecto eu e a Mariana também fomos um pouco precursores. É bom poder ajudar a quem quer crescer no motocross, sei bem como esse tipo de orientação facilita as coisas.

Como tem sido a rotina do Jorginho Balbi chefe de equipe? O que dá mais trabalho, comandar um time ou pilotar?

Eu já era meio chefe de equipe quando pilotava, pois tinha que cuidar de tudo fora da pista com a família. E, quando fui para os EUA, correr e treinar, me virava praticamente sozinho. Hoje vejo que teria sido muito produtivo fazer uma coisa de cada vez, mas não tinha alternativa. Era assim que poderia seguir adiante no meu sonho. Agora estou numa situação privilegiada, pois sei exatamente o que os pilotos passam, conheço bem as pressões e posso ajudá-los a encurtar os caminhos. Além disso, não deixa de ser uma válvula de escape para a minha vontade de vencer, de fazer as coisas de forma profissional. Estamos colhendo os frutos, com dois pilotos (Leonardo Souza e Pedro Bueno) em segundo e terceiro no Brasileiro da MX2.

Você foi o brasileiro que chegou mais longe no circuito internacional. Como fazer com que o nível geral dos nossos pilotos se eleve e resultados como os seus passem a ser constantes?

Falta facilitar o acesso ao esporte da maneira correta. É preciso investir, as equipes estão bem mais fortes, mas não há o foco na base, o apoio adequado a quem se destaca desde as minimotos. Nos EUA, um piloto talentoso com 15 anos está maduro para o esporte, aqui, infelizmente não. Ainda faltam campeonatos organizados por gente que conheça realmente o que são o motocross e o supercross. O que vai adiante são iniciativas individuais, como foi o meu caso, famílias e pilotos que apostam em se preparar fora. Até na definição da equipe brasileira para o Motocross das Nações há choque de interesses entre as equipes e não podemos escalar nosso trio mais forte. É uma pena, porque tive a chance de disputar a prova nas condições ideais e nos classificamos à final, mostramos do que o Brasil é capaz.

Em mais de duas décadas de carreira, qual, ou quais foram os momentos de maior orgulho?

Vivi muitos momentos inesquecíveis, tanto que, se precisasse passar por tudo o que passei, inclusive os momentos menos agradáveis, faria novamente, pois consegui realizar meus sonhos. Mas certamente o fato de ter sido quinto colocado no Supercross de Daytona, um dos mais tradicionais da modalidade, ganhando uma das baterias classificatórias do Kevin Windham, que era piloto oficial da Honda. Eu via as carretas dos times de fábrica, de pilotos como o (Ricky) Carmichael, e não conseguia acreditar. Não dormi aquela noite. E ainda por cima na Flórida, com tantos brasileiros acompanhando, foi sensacional.

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