Os quase 15 anos como jogador profissional não renderam apenas queda de cabelo ao lateral-esquerdo Fábio Santos. Longe disso! Atual dono da camisa 6 do Atlético e com papel de protagonismo no momento de turbulência que atravessa o alvinegro, o paulista, de 31 anos, coleciona títulos e histórias importantes no mundo da bola.

Pai da Eduarda, de nove anos, e do Leonardo, de cinco, Santos tenta repetir no Galo as voltas olímpicas que deu nos clubes pelos quais passou, principalmente aquelas dadas nos tempos de Corinthians, equipe na qual foi fundamental nos títulos do Brasileiro, da Libertadores, da Recopa e do Mundial de Clubes.

Em entrevista exclusiva ao Hoje em Dia, o lateral fala sobre as fases vividas na carreira, analisa o momento ruim que vive o Atlético, explica a mudança de estilo de jogo proposta desde a chegada do ex-técnico Roger Machado, e não se esquiva ao ser questionado sobre a troca feita na comissão técnica, com a chegada de Rogério Micale.

Há 10 anos, você chegava no Cruzeiro e foi afastado com menos de cinco meses de casa. Depois foi reintegrado. Fazer sucesso no Atlético, agora, é também uma forma de apagar aquela passagem ruim aqui em Minas?
O Cruzeiro foi uma baita oportunidade que tive. Voltei do Japão a pedido do Paulo Autuori, com quem já havia trabalhado no São Paulo. Fiz um ano de empréstimo no qual o início foi de razoável para bom, só que depois me machuquei muito e não tive sequência. Fiz poucos jogos. Ficou o sentimento de que faltava algo em Belo Horizonte. Agora, dez anos depois, após ter rodado por todos os lados, posso voltar com sentimento diferente e é muito mais prazeroso estar aqui. É bom dar esta resposta.

Você jogou no Japão (Kashima Antlers), na Europa (Monaco) e no México (Cruz Azul). Três continentes, três formas diferentes de ver e jogar o futebol. Quais as principais lembranças desses lugares?
O Japão tem uma cultura sensacional. Amei jogar por lá. Voltei pro Brasil por causa dos meus contratos de empréstimo. Mas o Japão me deixou uma impressão muito boa e é um lugar que se eu tivesse oportunidade de voltar, voltaria feliz. O México tem uma cultura muito parecida com a do Brasil, onde foi fácil de se adaptar. O torcedor é igual, de querer invadir treinamento, e a cobrança da imprensa é a mesma. Achei que estava indo para um lugar mais tranquilo, mas que nada! Só mudou o idioma (risos). No Monaco foi um período muito curto. É um lugar muito gostoso, mas não consegui curtir. Minha esposa estava grávida e eu fiquei seis meses longe dela, e só fui conhecer minha filha três meses depois; mas é um lugar maravilhoso para viver. É encantador.

Como surgiu a ideia de cortar o cabelo?
A careca é bem marcante. O pessoal do markentig que sugeriu que eu raspasse, para ter os dois laterais com o mesmo corte - Alessandro, na época lateral direito, também era careca. Meu cabelo foi caindo com o tempo, assim como aconteceu com meu pai. O Alessandro ficava na minha orelha mandando raspar. Um dia na concentração raspei, ninguém estranhou, e hoje eu já uso só a gilete. Hoje não me vejo mais de cabelo (risos).

Fábio Santos

Levando em consideração apenas conquistas pelo clube, ninguém do elenco do Atlético ergueu mais taças do que você (bicampeão da Libertadores e Mundial, sendo 12 no total), nem Fred, nem Robinho...O que faltou ao Atlético para fazer a sua lista de títulos aumentar neste segundo semestre de 2017? 
Nós jogadores estávamos tentado buscar esta resposta há alguns dias. Tínhamos chance de conquistar a Copa do Brasil e a Libertadores. O grupo é muito bom e o trabalho tem sido muito bem feito, desde o Roger e agora com o Micale. Esperamos que mantenham a maioria dos jogadores para que no ano que vem a gente possa fazer história diferente.

Você surgiu como grande jogador, mas só conseguiu se firmar no Corinthians, onde fez história. O que aconteceu nos primeiros anos de sua carreira?
Fiquei dez anos no São Paulo. O começo foi muito bom, em 2003 e 2004. Foram bons anos, mas eu era muito jovem. Tinha 16 anos e acabei assumindo responsabilidades que senti, mas que mais pra frente me serviu de aprendizado. Com 25 cheguei mais preparado no Corinthians. Minha passagem no São Paulo foi bem diferente da que eu tive no Cruzeiro, por exemplo. Lá eu posso dizer que tive uma passagem vitoriosa. Em 2007 e 2008 tive os piores momentos da minha carreira, pois vinha de muitas lesões e ia pingando de clube em clube, com contratos curtos. A partir de 2009, no Grêmio, consegui ter uma sequência. Cheguei no Corinthians em 2011. Lá a projeção é maior e você é mais visto pelas pessoas, por isso fica esta imagem mais marcante, até porque conquistando vários títulos. Mas a minha boa fase vem desdea época do Grêmio.

Podemos comparar a eliminação do Corinthians para o Tolima, em 2011, com a do Atlético, em 2017, para o Jorge Wilstermann?
Totalmente diferente. Aquilo ali era uma bomba, porque o maior sonho da torcida era conquistar uma Libertadores. A cobrança era muito grande. Foi a primeira equipe a ser eliminada numa Pré-Libertadores. Era meu segundo jogo. Ali eu pensei que nunca mais jogaria no clube. Porém, demos a volta por cima. Mas sem dúvida alguma aquela derrota foi muito pior. Apesar de o Jorge Wilstermann ser uma equipe boliviana e da derrota ter machucado, era oitavas de final; bem diferente, pois tivemos muitos méritos nos outros jogos. 

Você tomou um papel importante no Atlético neste momento de turbulência. Cobrador de pênalti e até capitão em alguns jogos. Como assimilou estas responsabilidades?
É natural. Desde moleque eu tive esta personalidade e nunca forcei para que acontecesse nada. Nunca dei minha opinião; as pessoas que sempre me pediram para dar. Não estávamos vivendo um momento fácil, a gente sente demais a situação, mas temos jogadores experientes. Estamos acostumados a apanhar mais neste tipo de coisa. O pênalti eu já batia. Sempre dou prioridade aos atacantes, mas no momento que me deixaram treinar e bater, eu assumi com o maior prazer.

“Tudo começou a partir do momento em que perdemos a confiança de jogar dentro de casa. O torcedor passou a ficar desconfiado, a cobrar, e nós absorvemos isso. Nós mesmos estávamos desconfiando uns dos outros e isso é horrível dentro do campo de jogo”


E o tal do calendário brasileiro? O que você tem a falar sobre ele?
É muito estressante. Sou um cara que gosta de jogar todas as partidas, mas é impossível manter o nível de atuação, mesmo com o grupo cheio. Mudança de time é ruim porque não há o mesmo entrosamento. O Corinthians depois que foi eliminado na Copa do Brasil teve tempo de trabalhar. O Grêmio também ficou 15 dias depois do Gauchão trabalhando. Não tivemos este momento até agora. No México eu fiquei um ano, jogando todos os 35 jogos, aqui são mais de 70.

Como você exerce sua liderança com os mais novos e os mais experientes no dia a dia?
Odeio confusão e brigas. Não gosto de ver pessoas sem se falar e com assunto mal resolvido. Prezo pelo bom ambiente. Sempre que tem um problema entre jogadores, tento fazer com que se acertem. Eu acredito que o bom ambiente traz leveza e títulos, e é o que eu quero aqui. Mas é tudo na base da brincadeira.

O alto índice de lesões está relacionado a ele?
Tive que mudar totalmente meu dia a dia e a minha conduta. Eu investi em coisas na minha casa que me ajudam a me manter em forma. O trabalho não começa no Galo e termina no Galo. Chego em casa e faço trabalho de fisioterapia, de recuperação e alimentação. É impossível jogar num nível sem ter cuidados fora de campo. 

Como o grupo de jogadores encarou a saída do Roger Machado?
Passamos a nossa opinião para o presidente (Daniel Nepomuceno), ele escutou, mas existe a hierarquia no clube. Ele achou a decisão adequada para o momento. Prezamos pela continuidade no trabalho, e o Roger é um cara muito inteligente. O Galo tem uma cultura de jogo que é difícil mudar. Não vai ser sempre que vamos ganhar na correria, por isso tentamos manter uma equipe mais organizada, pois não temos jogadores com a característica de correr como “malucos”, de explosão e velocidade. Somos uma equipe mais de posse de bola. Óbvio que ninguém ficou feliz com a saída do Roger, pois acreditávamos no trabalho, mas fugiu da nossa alçada.

“O Galo tem uma cultura de jogo que é difícil mudar. Não vai ser sempre que vamos ganhar na correria, por isso tentamos manter uma equipe mais organizada. Não temos jogadores com característica de explosão e velocidade. Somos um time de posse de bola”


Por que o Galo tem tido tanta dificuldade de fazer bons jogos dentro de casa? E por que se mostra mais forte fora?
Tudo começou a partir do momento que perdemos a confiança de jogar dentro de casa, e confiança no futebol é algo de extrema importância. O torcedor passou a ficar desconfiado e nós absorvemos isso. Nós mesmos estávamos sentindo desconfiança um do outro e isso é horrível dentro do campo de jogo. Mas o campeonato tem mostrado que as equipes jogam muito bem fora de casa, explorando os contra-ataques. Cansamos de perder jogos e pontos no Independência com os caras chutando duas bolas durante a partida inteira, e a gente criando inúmeras chances.

Como tem sido a adaptação ao esquema do Micale? O trabalho é muito diferente do realizado pelo Roger?
As ideias são diferentes, mas nem tanto. Micale tem boas ideias de futebol. É um cara de bom relacionamento com o jogador. Escuta e conversa muito com o jogador. Ele para, mostra, e isso é bem legal. Ele tem muita paciência e agora estamos tendo mais oportunidades de trabalhar mais com ele. É um cara comquem estamos otimistas e temos muitas expectativas no trabalho dele.

 

 

fábio santos