Figurar entre os 50 melhores do mundo logo no início da temporada superou as expectativas do tenista mineiro André Sá. Campeão do Brasil Open – torneio disputado no início de março em São Paulo – ao lado do paulista Rogério Dutra, ele agora se prepara para desafios fora do país.

Embarcando neste sábado para os Estados Unidos, André disputará o ATP 250 de Houston, a partir do dia 10. Na sequência, o belo-horizontino, de 39 anos, entrará em quadra na Hungria e, por fim, em Portugal.

Neste Papo em Dia, o tenista faz um balanço da carreira, relembra conquistas e jogos emocionantes e fala se disputará ou não os Jogos de Tóquio, em 2020.

Com quatro Olimpíadas no currículo (Atenas, Pequim, Londres e Rio), Sá é o tenista brasileiro com mais participações no maior evento esportivo do planeta.

O mês de março se tornou especial para você, após a conquista do Brasil Open. Ter voltado ao grupo dos 50 melhores do mundo significa o que na sua carreira?
Significa muito, principalmente por ganhar o Brasil Open. Nunca podia imaginar que o ganharia mais uma vez. Já havia conquistado com o Marcelo (Melo) em 2008. Foi fantástico e uma experiência incrível. Eu e o Rogério jogamos bem do início ao fim. Minha família presente e junto comigo foi uma emoção muito forte. Não éramos favoritos, mas a história foi se formando durante a semana. Estar de volta aos Top 50 também é sensacional. O objetivo é sempre terminar o ano nesta posição. Estamos no início e já entramos, então é fantástico.


Esta conquista foi ao lado do Rogério Dutra Silva, que é seis anos mais novo que você. Fale um pouco desta parceira e como ambos se complementam em quadra.
Eu o convidei logo após o Australian Open. Vi que ele estava super bem na simples e vivendo um ótimo momento. Tivemos uma química muito boa dentro da quadra. Deu super certo. Ele joga firme no fundo da quadra e eu venho bem para a rede.

Por outro lado, o Leander Paes tem 43 anos e um currículo magnífico. Como ela está fisicamente? As quase 60 conquistas em duplas e o fato de ter sido número 1 do mundo ainda fazem dele um tenista respeitado?
Isso tudo é o que mais faz ele ser respeitado. Tem o respeito dentro do vestiário, que é uma das coisas mais difíceis no tênis. É um aprendizado muito grande para mim. Ele está acostumado a jogar e ganhar torneios importantes. Não tem aquela força física incrível, mas mentalmente saberá jogar pontos importantes. Ele sabe lidar com pressão. Vou aprendendo um pouquinho daqui, um pouquinho dali com ele.

Durante sua carreira, você dividiu quadra com dezenas de jogadores, dentre eles Guga, Fernando Meligeni, Bruno Soares e Marcelo Melo. Jogando com qual deles você se sentiu mais à vontade em quadra?
É difícil pegar um só. Ao longo destes 20 anos, vivi experiências diferentes que me acrescentaram bastante. Quem mais ficou comigo foi o Marcelo; foram três temporadas. Ganhamos títulos importantes e chegamos bem em grandes competições. Com o Guga também joguei várias Copas Davis, que foram momentos especiais.

Você é considerado o melhor tenista brasileiro da história na grama. A que atribui este título?
Com certeza à minha formação nos Estados Unidos. Fui para lá aos 13 anos, fiquei até os 19. Praticamente o tempo todo em quadras rápidas e cobertas. Isso desenvolveu demais meu jogo. Na grama eu tenho uma mobilidade muito boa.

Ao lado de Bruno Soares e Marcelo Melo, você está no hall dos maiores tenistas mineiros da história. Inclusive, já teve a oportunidade de atuar com ambos. Como é mais experiente, você pode dizer sem ficar em cima do muro: qual dos três é mais completo?
É difícil dizer (risos). Cada um tem suas qualidades e defeitos. Eu tenho minhas qualidades, como boa devolução de saque e velocidade na rede; o Marcelo saca bem e é rápido também na rede; O Bruno saca bem, mas de repente não é tão rápido com a gente na rede. Mas os três são bem completos e se completam na dupla.

Qual a lembrança mais marcante da Copa Davis que você disputou no Expominas em 2006, no desafio contra a Suécia? O que a competição em si representa para você?
Foi um momento muito especial, pois estive perto da minha família, dos meus amigos e da minha cidade. A Davis é, na minha geração, uma das coisas mais importantes do ano. Sempre gostei de jogar e do ambiente. É o único momento que temos para competir em equipe. Jogar em BH foi quase um sonho. Meus treinadores de criança, a casa cheia, o Guga voltando a jogar bem... Só faltou a vitória (risos).

andré sá

Na biografia do André Agassi, o ex-tenista revelou que sempre odiou o tênis, muito motivado pela desgastante relação com o pai que o obrigava a treinar excessivamente. Houve algum sacrifico de sua parte na infância que o fez ter raiva do esporte?
Raiva não, mas o que eu sentia era a frustração por uma derrota; principalmente aquela que você tem um match point e não aproveita. Neste meio existe muitas derrotas durante o ano, mas umas doem mais que as outras. Mas daquele jeito que o Agassi coloca não tive nada. Sempre fui apaixonado por todos os esportes e tive o privilégio de ser bom em um deles. Tive muita sorte nisso

Você já foi membro do Conselho dos Jogadores por três vezes onde, inclusive, atuou com Roger Federer. Qual é o papel desta entidade?
É um órgão para deixar os jogadores envolvidos nas decisões da gestão da ATP. Servimos como uma ponte de informação. Tomamos decisões em relação a calendário, divisões de prêmios, e outras. São 10 membros, representando cada um o seu ranking.

Qual dos seus 11 títulos, em 29 finais, foi o mais importante e inesquecível?
Todos têm o seu gostinho especial, mas os dois no Brasil são mais. Em 2002, com o Marcelo, e o de agora, com o Rogerinho.

Você é o tenista brasileiro com mais participações em Jogos Olímpicos; quatro no total. Sente aquele gostinho amargo por não ter colocado medalha no peito? O que o evento representa para você?
Claro que fica. O objetivo de qualquer atleta é disputar a Olimpíada e conquistar uma medalha. Foi um pouco frustrante, mas participar deste evento é sensacional e um sonho. Ano passado, no Rio, foi algo fora da real de tão bom. O apoio que tivemos da torcida foi de outro nível. Até quem não era fã de tênis foi torcer. Não é possível sentir esta emoção em qualquer outro lugar do mundo.

Por mais quantos anos veremos o André atuar em alto nível? A aposentadoria já passa pela cabeça ou vai seguir os passos do Leander? Torceremos por você nos Jogos de Tóquio, em 2020?
Aposentadoria ainda não está na cabeça, mas acho que o Japão vai ser difícil. Não é um dos meus objetivos. Não me vejo jogando por três anos. Estou tomando a decisão no final de cada ano. Ainda estou tendo nível para jogar. Começamos bem 2017, com um título, mas vai ser em dezembro que vou decidir se continuo no ano que vem. O físico e o ranking serão fundamentais para que eu decida este futuro.

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